Valerio Massimo Manfredi

AKROPOLIS
A grande epopeia de Atenas

Traduo de MARIO FONDELLI

Rio de Janeiro - 2001



Ttulo original AKROPOLIS
La grande epopea di Atene

Copyright (c) Valerio Massimo Manfredi



Primeira publicao pela Amoldo Mondadori Editore S.p.A., Milo 2000

Direitos para a lngua portuguesa reservados com exclusividade para o Brasil 

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preparao de originais HELENA DRUMMOND

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Manfredi, Valerio Massimo

M241a  Akropolis: a grande epopia de Atenas / Valerio Massimo Manfredi; traduo de Mrio Fondelli. - Rio de Janeiro: Rocco, 2001

Traduo de: Akropolis: Ia grande epopea di Atene

ISBN 85-325-1305-0

1. Atenas (Grcia) - Histria - Fico. 2. Fico italiana. I. Fondelli, Mrio. II. Ttulo.



CDD - 853

CDU - 850-3

Manfredi, Vlrio Massimo


Akropolis : a grande epopeia de Atenas

853.91/M276/AKR



Ao meu amigo ateniense

A felicidade nasce da liberdade, e a liberdade, da coragem.

PRICLES (Tucdides, XLIII, l, 4)


SUMARIO

Prefcio. 7

I - O MITO 21

11 de janeiro de 1999 33

II - O LEGISLADOR 37

8 de maro de 1999 48

III - OS TIRANOS 53

22 de abril de 1999 62

IV - A DEMOCRACIA 65

4 de julho de 1999 80

V-SALAMINA 83

Ferragosto de 1999 97

VI - A LIGA NAVAL 99

15 de setembro de 1999 111

VII - PRICLES 113

9 de outubro de 1999 128

VIII - A CIDADE IMPERIAL 131

30 de outubro de 1999 142

IX - A GRANDE GUERRA 145

18 de novembro de 1999 162

X-ALCIBIADES 165

30 de novembro de 1999 178

XI-SCRATES 181

22 de dezembro de 1999 194



PREFACIO

Eu tinha vinte anos e morria de vontade de viajar e conhecer o mundo. Estava me
preparando para os exames na universidade e estudava com um amigo de uma cidadezinha
prxima. Eu acabara de passar na primeira prova de literatura grega que, entre outras coisas,
compreendia a leitura integral da Odissia na lngua original. J vnhamos nos dedicando 
traduo havia alguns meses, com a ajuda do dicionrio e do texto comparativo em italiano
de Rosa Calzecchi Onesti, quando certo dia, finalmente, nos demos conta de que estvamos
lendo Homero sem qualquer tipo de ajuda, sem precisar de dicionrio nem de tradues em
outros idiomas. Uma sensao maravilhosa, talvez comparvel quela de algum que afinal
joga fora as muletas e comea a correr livremente. Voltei a sentir a mesma coisa agora h
pouco, ao assistir ao filme Forrest Gump, quando o menino se livra das prteses de metal e
sai correndo em disparada: um momento de extraordinria emoo.

Decidimos ento partir quanto antes para a Grcia, para visitar todos os lugares relacionados
com a histria, com a poca, com a arqueologia; uma espcie de romaria em busca das
paisagens da memria, dos lugares nos quais as vicissitudes humanas haviam deixado a
marca que ns, na nossa ingenuidade, imaginvamos indelvel. Os recursos de que
dispnhamos eram bastante escassos, e tampouco podamos esperar que os nossos pais
fossem aliviar a nossa fundamental falta de meios; conseguimos, de qualquer forma,
comprar a passagem de ida e volta Ancona-Pireu (sem camarote, com direito apenas a
circular pelo convs) num navio bem baratinho que se chamava Apollonia. A passagem j
nos dava uma certa segurana, pois afinal garantia que de um jeito ou de outro poderamos
voltar.

Ainda faltava saber o que iramos inventar ao chegar l, como conseguiramos arranjar
comida, um lugar para dormir e tudo o mais. Quanto s acomodaes, resolvemos o
problema pedindo emprestada a barraca de um amigo escoteiro e comprando dois
colchonetes inflveis num mercadinho de objetos usados; para a comida, o mesmo amigo
deixou-nos levar um fogozinho de uma s boca no qual espervamos preparar um bom
nmero


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de sopas desidratadas que iramos comer nas marmitas militares tambm emprestadas.

Mas ainda havia o problema do transporte. O meu amigo estava acostumado a andar de
nibus, mas eu tinha uma pequena motoneta de cinqenta centmetros cbicos de cilindrada
e foi com ela que fizemos um ensaio geral: procuramos sentar carregando as duas pesadas
mochilas abarrotadas com tudo aquilo de que iramos precisar na viagem. A experincia foi
um fracasso total: o pequeno motor pedia logo arrego diante da mais insignificante subida e
sabamos muito bem, graas aos nossos estudos, que a Grcia tem um dos terrenos mais
irregulares e acidentados do mundo.

Decidimos ento sair pedindo carona, como alis a maioria dos jovens da nossa idade
costumava fazer naquela poca. O que realmente importava era desembarcar em terras
helnicas: uma vez l, enfrentaramos os problemas um de cada vez.

Foi uma viagem de sensaes profundas, de poderosas emoes. Vimos o Partenon sob um
cu de abril cheio de grandes nuvens negras carregadas de chuva entre as quais, vez por
outra, os raios do sol conseguiam abrir caminho para iluminar um ou outro canto da grande
esplanada e o prtico das caritides borrifado por chuva ligeira. Tiramos da mochila o
Tucdides em edio de bolso e comeamos a ler o Epitfio:

Gostamos do belo, mas de forma comedida, e dedicamo-nos ao saber, mas sem complacncia; usamos a
riqueza mais por causa da possibilidade de agir que ela proporciona do que devido  tola vaidade das
palavras, e a pobreza no  motivo de vergonha para ningum, enquanto  muito mais vergonhoso no tentar
livrar-se dela.

- Muito vigoroso... - murmurou o meu amigo.

Garotos do interior, criados no campo, naquele momento tnhamos a impresso de ser
requintados humanistas, verdadeiros intelectuais, s porque tnhamos a oportunidade de
ligar uma frase de Tucdides  arquitetura do Partenon: claro, estvamos apenas comeando,
mas aquelas experincias to diretas e, digamos assim, to concretas davam-nos arrepios.
Ficamos sentados nos degraus dos Propileus,  espera do pr-do-sol, examinando
atentamente a grande cavidade do odeion de Herodes tico, o morro de Filopapo, a agora
do outro lado e, ao longe, o Licabeto encimado por sua igrejinha bizantina. Deixamo-nos
ficar ali, sem nada dizer, com os olhos e a mente cheios de pasmo, at a fome nos
convencer a procurar alguma comida numa das muitas tabernas da Plaka. O bairro, que mal
acabava de ser descoberto pelas primeiras levas de turistas, ainda guardava a sua pureza
original : no muro caiado de uma pequena locanda o dono escrevera, com rpidas
pinceladas vermelhas, bona e mercata greca cuzina, na evidente tentativa de atrair os turistas
italianos. Conseguiu, e ns descobrimos que o jeito mais



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barato de encher a barriga era uma boa tigela de sopa de feijo branco com umas fatias de
po.

Numa lojinha vi um par de abotoaduras de prata imitando as dracmas atenienses, com a
coruja, e prometi a mim mesmo que iria compr-las na volta se me sobrasse algum dinheiro.

Tivemos de deixar a cidade depois de apenas dois dias, pois no podamos nos dar ao luxo
de gastar dinheiro com um hotel, mas antes de seguirmos para o Peloponeso decidimos
subir at o topo do Escaramang, o monte sobre o qual, conforme o relato de Herdoto, o
imperador persa Xerxes mandara construir um trono para assistir, como das arquibancadas
de um teatro,  vitria da sua frota sobre os navios atenienses no estreito de Salamina.

Em certa altura da subida havia arame farpado e um pastor gritou-nos alguma coisa a que
no prestamos ateno. A nossa vontade de ver o lugar onde Xerxes mandara erguer o seu
trono dourado era to grande que nem procuramos entender, de forma que acabamos
entrando num polgono de tiro da Marinha militar grega: ainda bem que encontramos logo
uma patrulha que nos mandou sair rapidamente dali, pois do contrrio poderamos ter sido
alvo de bordoadas.

O oficial que nos escoltou apreciou o nosso interesse pela histria, tanto assim que nos deu
uma garrafa de conhaque de presente e parou um caminho para que nos levasse at
Corinto. A grande cidade do istmo foi uma decepo; entretanto, j sabamos que havia sido
destruda pelos romanos de Lcio Mmio e que, de grego, s haviam sobrado as sete
colunas dricas da quina do templo de Apoio. Subimos um por um os novecentos degraus
que levam ao Acrocorinto e, l de cima, pudemos admirar uma vista maravilhosa: de um
lado, o canal, o golfo Sarnico e a ilha de Mgara, do outro o litoral da Fcida para o norte
e, para o oeste, o amplo golfo que parecia contido pelas speras montanhas da Acaia que
mergulhavam abruptamente no mar.

Para o sul, a perder de vista, vislumbrava-se a Arglida esculpida pelos raios enviesados do
sol que exaltavam as suas reluzentes cores primaverais. Lembramo-nos de Digenes e do
seu tonei, que provavelmente no devia ser muito menos confortvel do que a nossa
barraca, ainda mais porque os colchonetes usados vazavam e l pelas duas horas da manh
precisvamos invariavelmente acordar para ench-los de novo. O meu, ento, costumava
esvaziar antes da meia-noite, e a eu tinha de infl-lo duas vezes antes da alvorada enquanto
o meu amigo, o sortudo, na maioria dos casos s precisava de uma soprada. "O barato que
sai caro", comentava, como se de fato a gente tivesse tido escolha.

O dia seguinte foi um horror, pois no encontramos ningum para nos dar carona e tivemos
de andar mais de dez quilmetros sob um sol de fritar


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os miolos. L pelas onze da manh o motorista de um trator ficou com pena e mandou-nos
sentar no reboque entre as caixas de laranjas e limes. Chegamos a Micenas depois do
entardecer, cansados e esfomeados, com os ossos doloridos depois de tantos solavancos em
veculos agrcolas que nada tinham de confortvel, mas a emoo de estarmos na cidade de
Agammnon era to grande que logo esquecemos os nossos problemas.

Os portes j estavam fechados, os vigias estavam indo embora e at o ltimo nibus de
turistas j se afastava rumo  "nova Micenas", uma aldeiazinha com menos de trs mil almas
no sop das colinas. Uma vez que no tnhamos para onde ir, ficamos por ali mesmo,
galgando o pedregoso morro que domina a cidade, aquele de onde, no Agammnon de
Esquilo, a sentinela avista as fogueiras que, de Nuplio, assinalavam a chegada da frota
aquia. Os derradeiros raios do pr-do-sol tingiam de vermelho as muralhas ciclpicas e os
contrafortes da porta dos Lees, e de onde estvamos podamos ver todo o grande megaron
e a torre que domina o abismo. Tirei a Odissia da mochila e comecei a ler um trecho do
dcimo primeiro captulo onde Agammnon, evocado por Ulisses, conta como foi
assassinado depois da sua volta: "Degolavam-nos como porcos... sem misericrdia... o cho
estava todo coberto de sangue... e nem se deu ao trabalho de fechar-me os olhos, a cadela,
enquanto eu j descia gemendo para o reino de Hades."

Estava lendo com o tom de um ator trgico, e eu mesmo ficava emocionado ao ouvir a
minha voz ressoar entre aquelas pedras nuas. S parei quando a escurido me impediu
continuar, e naquele momento, do fundo do vale, ouviu-se o grito soturno de uma coruja ao
qual logo a seguir outra respondeu. Depois outra, e mais outra, at toda a montanha ecoar
com aqueles soluos. Cansados, famintos, excitados, mal conseguamos dominar a emoo
que tomara conta de ns e continuvamos de olhos fixos naquele cho como se
estivssemos de fato assistindo  cena sangrenta. Ento, quando o chamado das corujas
acabou de repente, respiramos fundo e ficamos pensando em como iramos aliviar a fome
naquele lugar to ngreme e solitrio. Lembramo-nos dos pacotinhos de sopa desidratada no
fundo das nossas mochilas, controlamos as reservas de gua nos cantis e ligamos o
fogozinho ao abrigo de umas pedras. Era o nosso primeiro jantar ao relento e aquela sopa
quente preparada por ns mesmos, cheia de aromas industrializados que at ento
desconhecamos, pareceu-nos um verdadeiro manjar dos deuses.
xxx
O terreno era acidentado demais para montar a barraca, de forma que a esticamos no cho 
procurando abrigo junto de umas pedras ainda mornas: milagrosamente dormimos a noite 
toda, sem precisar acordar para encher de novo os colchonetes; antes de adormecer, no 
entanto, ficamos um bom tempo conversando, enquanto observvamos o cu no qual 
fervilhavam estrelas incrivelmente luminosas, saboreando um golinho do nosso conha-



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que militar e fumando um Papastratos, o nico que concedamos a ns mesmos por dia. 
Durante a minha ainda curta vida, eu certamente nunca havia sido to feliz como naquele 
momento.

Em Epidauro, no mais lindo teatro que chegou at ns do mundo antigo, estavam 
encenando o dipo Rei com Spiro Fokas e Katina Faxinou, e ns investimos o equivalente 
a quatro ou cinco dias de sobrevivncia para assistir  pea que era representada em grego 
moderno. Custvamos a entender e acompanhvamos o texto iluminando-o com uma 
lanterna, mas s o fato de estarmos ali, vendo atores vivos e reais que se moviam naquela 
construo milenar maravilhosamente conservada, deixava-nos cheios de emoo e espanto.

Chegamos a Delfos, por sua vez, bem no meio da noite depois de superarmos a p a 
montanha. Havamos ficado um bom tempo  intil espera de uma carona antes de 
tomarmos a deciso: se fssemos seguir adiante em linha reta iramos encurtar em quase 
dois teros o caminho. Quanto a isso no havia dvidas, mas mal sabamos ns o que 
teramos de enfrentar. A noite surpreendera-nos quando ainda estvamos avanando entre 
pedregulhos e moitas espinhentas, com uma violenta ventania que dobrava a copa das 
rvores.

Chegamos ao topo exaustos e cercados pela mais completa escurido. Avistamos uma luz ao 
longe e descobrimos que se tratava de um vilarejo com uma nica taberna - chamava-se O 
Parnassos - e entramos. De cabelos desgrenhados, jeans rasgados nos joelhos, mos 
esfoladas e barba por fazer, parecamos uns verdadeiros bandidos e todos os presentes 
viraram-se para olhar como quando dois pistoleiros entram num saloon do faroeste. 
Escolhemos a mesinha mais afastada e pedimos sopa de feijo, algumas fatias de po e uma 
garrafa de gua, mas logo em seguida o garom trouxe meio litro de retsina: era por conta 
daquele senhor l no fundo. Depois trouxe suvklia de porco bem passados: por conta 
daquele outro sujeito da outra mesa. Haviam percebido que estvamos com fome e 
usvamos aqueles trapos no por sermos extravagantes, mas sim porque no tnhamos 
mesmo outra coisa para vestir, e tinham ficado com pena.

Dali, passando pela Fcida, chegamos ao desfiladeiro das Termpilas. Devido  distncia do 
mar, ao aterro do golfo,  construo da nova estrada carrovel e  presena das grandes 
torres de alta tenso que ligavam o norte e o sul do pas, o lugar para ns era praticamente 
irreconhecvel. Mesmo assim, no entanto, o monumento a Lenidas (erguido havia apenas 
alguns anos s custas de trezentos espartanos emigrados para os Estados Unidos) pareceu-
nos lindo, com as palavras de Simnides escritas na base ("Gloriosa  a sua sorte. / O seu 
monumento fnebre  um altar"). Subimos ento morro acima, onde os homens de Lenidas 
haviam cerrado fileiras em sua


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ltima desesperada tentativa de proteger a agonia do rei moribundo, e lemos a inscrio na 
lpide: "Forasteiro, anuncia aos espartanos que aqui tombamos obedecendo s suas leis". 
Aquela pedra tambm era de mentira, mas no importava, pois a nossa emoo era 
verdadeira. E tambm procuramos a passagem de Anopia, a trilha secreta revelada pelo 
traidor Efialtes para que os persas pudessem surpreender pelas costas os irredutveis 
defensores gregos; perdemo-nos entretanto no bosque e s conseguimos voltar no fim da 
tarde, morrendo de fome e de cansao.

A parada seguinte foi Olmpia: corremos pelo estdio imaginando o pblico que incitava os 
atletas - at pedi que tirassem uma foto minha posando como o Discbolo de Mron - e 
quando entramos no museu ficamos pasmos diante daquelas maravilhas: a Centauromaquia, 
a Corrida de Plopes e Enmao, o deus Apoio com seus caracis arcaicos e o brao erguido 
e peremptrio sobre a massa de corpos humanos e animais. Era algo inacreditvel. E ns 
procurvamos imaginar aquilo tudo em cores, com as armas de metal dourado a rebrilhar ao 
sol nos frontes gloriosos dos templos. E a o Hermes de Praxteles, nu e solitrio naquela 
luz difusa que chovia do cu e tornava difana como cera a sua pele de mrmore prio.

Voltamos a Patras e procuramos um barco que nos levasse a taca, que nada no mundo 
conseguiria tirar dos nossos planos. Custou-nos o ltimo dinheirinho que sobrava, mas ainda 
dispnhamos de sete pacotes de sopa e de um bujozinho de gs com que prepar-los: 
iramos sobreviver. Desembarcamos na ilha e vimos Same ainda encoberta pela sombra dos 
montes de Tesprcia ("Uma jaz l, ao longe, na direo da noite") enquanto taca j brilhava 
nos primeiros raios da manh ("a outra mais adiante, rumo  alvorada e ao sol"). Procuramos 
os campos de Eumeu, a gruta das ninfas e finalmente os mseros restos daquilo que 
Schliemann acreditou ser o palcio de Ulisses. Chegou at a cavar em busca das razes da 
oliveira entre cujos galhos o filho de Laerte teria malocado o seu tlamo. Ao entardecer 
ficvamos sentados na praia olhando o porto de Vathy, aquele mesmo em que Telmaco 
fundeara para evitar a cilada que os prcios haviam aprontado na ilhota de Astris. Em cada 
co tentvamos reconhecer Argos, em cada rapaz Telmaco, em cada pastor Eumeu ou 
Filcio, e na figura de um velho, a venervel cancie de Laerte. E ele, o mui paciente e 
divino Odisseu, o tecelo de tramas enganosas, o destruidor de cidades, o heri de qualquer 
tempo e de qualquer estao, o arqueiro infalvel, o imortal de mente tortuosa, ele estava 
em toda parte, como se fosse a prpria alma da ilha, como se o vento fosse a sua respirao, 
como se suas pegadas misteriosas estivessem para sempre gravadas na poeira das vielas.

Aqueles eram apenas devaneios de rapazes ingnuos, mas to fortes e sugestivos que 
deixavam marcas profundas, sensaes capazes de durar



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uma vida inteira e moldar o futuro. Era nessas horas que pensvamos nos nossos 
companheiros que passavam suas noites nas discotecas, danando o tuste, e nos sentamos 
afortunados, escolhidos pelos deuses, orgulhosos da nossa fome e das nossas privaes para 
participar daquela comunho clara e profunda com os antigos cantos de Homero, com as 
histrias de Herdoto e Tucdides, com as lamentaes de dipo, de jax, de Prometeu.

Passamos os ltimos cinco dias antes do embarque comendo apenas po e uva preta que um 
senhor bondoso nos dera de presente em Patras: cinco quilos. O sabor forte acabava 
enjoando, mas era uma bomba calrica que nos dava energia suficiente para seguir em 
frente. Ao todo, permanecemos na Grcia vinte e cinco dias, deixando crescer a barba e 
perdendo uns trs ou quatro quilos cada um. Antes de voltar ao Pireu para embarcar no 
Apollonia dei uma passada na lojinha da Plaka e gastei o pouco que sobrara para comprar as 
abotoaduras de prata com a coruja de Atenas (ainda tenho) e um pequeno broche de 
filigrana para a minha me. Mas o encontro mais marcante ainda estava para acontecer.

Estvamos apoiados na amurada perto da proa, admirando o litoral que passava lentamente 
diante dos nossos olhos, a maravilhosa paisagem grega de ilhas e promontrios, de golfos, 
enseadas e rochedos, de montanhas que mergulhavam abruptamente no mar com seus 
cumes esbranquiados de neve, de grandes nuvens leitosas entre as quais faiscavam os raios 
do sol, e sonhvamos com pratos de lasanha fumegante depois de quatro semanas repletas 
de sopa de feijo, de po, de queijo de cabra e de sopinhas desidratadas quando um homem 
baixinho, de flor na lapela, de traos curiosos e traje impecvel aproximou-se de ns.

- Italianos? - perguntou.

- Sim, somos da regio de Mdena.

- Podia jurar. E estiveram na Grcia?

- Isto mesmo. Somos estudantes de literatura clssica e queramos ver de perto todos os 
lugares histricos. - E comeamos e recitar a lista de todos os lugares que havamos visitado, 
dos museus, dos stios arqueolgicos, dos templos, dos palcios Micnicos, dos santurios 
isolados, dos orculos, das fontes sagradas, dos rios e dos lagos, dos campos de batalha. Ele 
olhava para ns pasmo, quase no podendo acreditar no nosso entusiasmo. Apresentouse: 
chamava-se Kostas Stavropoulos, e tambm apresentou a mulher, a senhora Alexandra, uma 
mulher muito bonita, mais alta do que ele e extremamente elegante. Falava sem parar, como 
se ns pudssemos entender sem maiores problemas o grego moderno, e encheu-nos de 
elogios. Naquela mesma noite convidaram-nos para jantar  mesa deles no convs da 
primeira classe e ns vestimos os nicos jeans ainda limpos e a ltima camiseta decente que 
nos sobrava, aparamos a barba e tomamos o primeiro banho real-


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mente demorado desde havia muito: estvamos quase apresentveis, e chego a dizer que
ramos at bonitos, bronzeados daquele jeito, enxutos e musculosos. E, alm do mais, 
sentar a uma mesa cheia de talheres, de copos cintilantes, com toalha e guardanapos 
branquinhos, e um cardpio do qual podamos escolher era para ns um privilgio 
inimaginvel.

- Esto vendo? - disse o senhor Stavropoulos apontando para os companheiros de viagem. - 
Estavam todos falando mal de vocs, hoje de manh. Diziam: "Olha s, que vergonha, que 
falta de pudor, de jeans esfarrapados, barbudos, cabeludos... no deviam deix-los ficar com 
os demais passageiros, o lugar deles deveria ser l embaixo, com os tripulantes."

-  mesmo? - exclamou o meu amigo, um tanto enfadado.

- Mas a eu ento disse: "Aposto que so uns rapazes muito direitos, quase certamente 
universitrios, e no duvido que saibam latim e grego antigo, e que conheam a Grcia 
muito melhor do que vocs todos". Foi por isto que quis conhec-los. Acertei na mosca e 
eles todos estavam errados. Vocs so uns bons rapazes e fico muito contente por estarem 
aqui.

Convidamos o casal e eles apareceram l em casa onde conheceram os meus pais, que 
tinham exatamente a mesma idade. A partir da nasceu uma amizade maravilhosa, um afeto 
sincero e profundo, uma intensa familiaridade: no ano seguinte hospedaram-nos na sua casa 
em Atenas - e olha que ramos oito! - quando estvamos voltando de uma viagem ao 
Oriente numa camioneta militar americana que eu comprara num ferro-velho e que s 
conseguira consertar depois de oito meses de duro trabalho. Os amigos que estavam 
conosco tambm ficaram amigos deles, para sempre.

Kostas era para ns como algum filsofo antigo, e ficvamos fascinados com suas histrias: 
era o nosso Scrates, o nosso Plato, o nosso Epicuro. Fumava cigarros muito aromticos e 
elegantes que se chamavam S ante ("porque no fazem mal, so feitos de tabaco natural") e 
que tinham no mao vermelho a figura de uma bonita loira de longos cabelos, do tipo de 
Rita Hayworth, que fumava com volpia segurando uma longa piteira preta.

Sua mulher Alexandra tinha um poodle, Moreno, e uma gata, Gilda, e Kostas saa para 
passear com o cachorrinho duas vezes ao dia. Enquanto ficamos l,  noite dormamos na 
sala, cada um em seu colchonete, um tanto apertados mas sempre com lenis limpos e 
cheirosos. E no jantar nos reunamos todos  volta da mesa redonda, diante de grandes 
travessas cheias de salada grega, mezedes, suvlkia e muitas outras delcias, com um 
frisante retsina gelado que ele chamava de "sampaniz".

No tinham filhos; ele trabalhava na prefeitura e ela cuidava da casa com a ajuda de uma 
criada. Alexandra vinha de uma famlia abastada e estava acostumada com o bom e o 
melhor: sempre alegre, sempre simptica, sempre deliciosamente perfumada como se 
acabasse de sair do salo de beleza.



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"H pessoas que compram um carro de luxo", dizia Kostas, "mas que depois vivem como 
uns miserveis para mant-lo. Eu preferi ter uma mulher de luxo (e com isto queria dizer 'de 
alta classe') e"contnuo sem carro."

Esta filosofia bastante simples e elementar, na qual se misturavam excelentes leituras, todas 
as pequenas fraquezas burguesas^e quase interioranas, e um humorismo brincalho cheio de 
trejeitos levantino e gostos italianos pelo belo e pelo prazer, tornava-o um homem 
realmente fascinante.

Eu acabei sendo o preferido. Gostavam de mim corno de um filho e ficavam orgulhosos 
com os meus sucessos nos estudos e, depois, no meu trabalho de pesquisador e professor 
universitrio. A sua grande mgoa era ter fracassado como cantor de pera, razo pela qual 
viera ainda jovem  Itlia para estudar no Scala de Milo. Era sobrinho de um famoso 
regente de orquestra que, contudo, nada fizera para ajud-lo: "Porque era arrogante, cheio 
de si, talvez at meio bipha^rdizia com o seu sotaque carregado, e com a insinuao da 
possvel (Sodomia parecia-lhe encerrar o assunto decretando a condenao final, 
senrapejao.

Mesmo assim continuava a cantar para os amigos, para agremiaes de caridade. Certa vez 
cantou no teatro de Herodes tico e l estvamos todos, batendo palmas com o maior 
entusiasmo. 'Tambm posso fazer Pagliaci", dizia, sempre esquecendo o artigo e a letra 
dobrada "melhor do que Mario Lanza." Nunca averiguei se era verdade. Talvez no fosse, 
mas adorvamos pensar que Kostas podia alcanar notas mais altas do que Mario Lanza.

Conversvamos sobre qualquer coisa;~pQltica, gramtica e retrica, literatura antiga e 
moderna, e ele nunca ttubeavi. Certa vez, falando a respeito da Apologia de Scrates e do 
conhecidr galo para Esculpio", embrenhamo-nos numa disputa para saber como se dizia 
"galo" em grego antigo: eu afirmava "alektryn" e ele, "alktor"; ambos estvamos certos, 
claro, mas no deixou de ser um desafio e tanto. Politicamente, continuou apoiando 
Papandreu mesmo durante a ditadura dos coronis, e isto custou-lhe uma promoo criando-
lhe algumas dificuldades no trabalho. Alis, como ele mesmo dizia, havia sido transferido 
para o "hipogeu", isto , para o subsolo da prefeitura. Mas a palavra, em grego, ainda 
guardava um sentido vagamente sepulcral, como se o nosso amigo tivesse sido enterrado 
vivo.

Toda vez que eu recebia uma carta dele, para mim era um imenso prazer. No papel 
timbrado podia-se ver a coruja ateniense com a escrita "Dimos Athinon", "Prefeitura de 
Atenas", mas eu preferia interpret-la como "Povo de Atenas", como se estivesse 
recebendo uma carta de Pricles ou de Temstocles. Na verdade, no nascera certamente 
para ser heri, e a sua oposio poltica era portanto comedida e em surdina. Mesmo assim, 
contudo, quando em 17 de setembro de 1973 os coronis mandaram invadir a universidade 
ocupada pelos estudantes," eu estava l e pude assistir a algo incrvel.


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Ele tinha um sobrinho, filho de um irmo ou de uma irm, no estou bem lembrado, um 
bonito rapaz chamado Konstantinos que todos chamavam de Kostas, como o tio, que acabou 
sendo diretamente atingido pela represso militar. O jovem carregara um amigo ferido que 
se esvaa em sangue pelos telhados da cidade e, ao voltar para casa, estava todo sujo, 
esfarrapado e suado. Os pais, que eram "de direita, muito de direita", haviam-no agredido 
violentamente chamando-o de comunista, infeliz, vergonha e desgraa para toda a famlia. 
Kostas, que estava l, levantou-se e, falando bem devagar para que eu mesmo pudesse 
entender sem perder uma palavra, disse-lhe: "Os teus pais no te merecem. Portaste-te 
como um heri e ns ficaramos felizes e orgulhosos se viesses morar conosco."

O nosso relacionamento continuou ininterrupto pelos anos afora, e nesta convivncia 
consumaram-se todos os eventos alegres e tristes que marcam a vida humana. Fui visit-los 
depois que me casei, com a minha mulher grvida de poucos meses, que sentiu a criana
mexer-se pela primeira vez dentro dela justamente na acrpole. Festejamos com eles a
Pscoa ortodoxa e quando estourou a balbrdia de estrondos e fogos que marcava a meia-
noite da Ressurreio a minha mulher ainda sentia a pobre criatura agitar-se em seu ventre a
cada exploso, tanto assim que chegou a recear que no fosse nascer completamente 
normal. Prometemos voltar quanto antes, mas na verdade deixamos passar muito tempo, 
tempo demais: o casamento, os compromissos, a carreira, as viagens. O nascimento dos 
meus filhos. A morte do

meu pai.

Eu no deixava passar muito tempo sem telefonar, escrevia contando tudo o que podia ter 
algum interesse para eles, o que estavam fazendo os demais amigos, e a certo-dia-ele_me 
disse que Alexandra estava com cncer: submetera-se a uma m^tectomia total e continuava 
com uma penosa quimioterapia. Morreu doisanosmais tarde entre indizveis sofrimentos e o 
amigo Kostas comunicou-nos o seu falecimento com uma carta que parecia o elogio de uma 
antiga matrona: palavras simples e comovidas, frases comedidas que revelavam uma incrvel 
nobreza de alma. E acabava dizendo: "Quando um homem perde a companheira de uma 
vida, deveria morrer."

Fiquei dois anos sem notcias dele, at que o meu editor grego convidou-me para o 
lanamento em Atenas e em outras cidades de um romance meu. O primeiro encontro seria 
num dos melhores restaurantes de Atenas, certamente aquele com a vista mais bonita, pois 
da grande varanda envidraada no andar de cima podia-se ver justamente o Partenon. Achei 
que a oportunidade era perfeita e pedi  encarregada das relaes pblicas, uma linda jovem 
poliglota chamada Anghelik, para chamar o senhor Stavropoulos e convid-lo para o 
restaurante Dionysios, logo aos ps da acrpole, pois ele iria ter uma agradvel surpresa. Eu 
sabia que ele adorava as reu-



19

nies sociais, vestir as roupas mais bonitas, borrifar-se com o mais cheiroso perfume, botar a 
gardnia mais fresca - costumava guard-la na geladeira na lapela. A a surpresa: iria abra-
lo, oferecendo-lhe o meu livro em grego com a mais linda dedicatria que eu pudesse 
imaginar.

Quando desci do avio fui logo perguntando  jovem se tinha ligado para o senhor 
Stavropoulos e qual havia sido a resposta. Ela ficou meio sem jeito e baixou a cabea.

- O que foi, Anghelik? Ele no estava?

- Ele estava, s que...

- S o qu?

Ele dissera: "Sinto muito, minha jovem, mas no posso aceitar o convite. Adoraria participar 
do jantar e descobrir qual  a surpresa mas, veja bem, estou morrendo, e a senhora 
entende..." Fiquei sem palavras enquanto a moa me levava ao carro e continuava a dizer: 
"Sinto muito... sinto muito..."

A minha agenda para o dia seguinte estava sobrecarregada: entrevistas, apresentaes, 
encontros com livreiros, mas antes de mais nada exigi que me levassem  rua Ods Larsis 
20, para ver o senhor Stavropoulos, a pessoa para mim mais importante da Grcia.

Tinha um n na garganta quando apertei a campainha da rua: parecia-me estar revendo todas 
as minhas antigas andanas por ali, desde a primeira vez que l chegara com apenas vinte e 
um anos. As rvores do jardim estavam um pouco mais altas, mas continuavam poeirentas e 
mirradas: o caf na esquina j no existia, e no lugar da lojinha de retzina a granel havia 
agora um florista. A pedra angular que Moreno sempre escolhia para fazer xixi ainda estava 
l, assim como as lixeiras.

Ao sair do elevador fui recebido por uma mulher de uns quarenta anos, de rosto acalorado 
sob uns ralos cachos de cabelos amarelos, que gaguejou alguma coisa num grego que 
certamente no era a sua lngua. Ele estava de cama, vendo um programa italiano na 
televiso. Magrrimo, esgotado, mas impecvel. Vestia um pijama azul com pochette da 
mesma cor e quando o abracei com os olhos cheios de lgrimas reparei que usava a 
costumeira gua-de-colnia francesa.

Havia mentido, no estava morrendo, mas tampouco podia esperar uma melhora: j no 
podia andar sem a ajuda da pessoa que cuidava dele, uma albanesa de Argirocastro. 
Percebeu a minha comoo e ficou um bom tempo dando-me tapinhas nas costas. Sentia-me 
aflito s de pensar no tempo que ele passara completamente s, afastado de todos, sem 
algum com quem trocar umas palavras.Vi contudo que na mesinha ao lado da cama tinha o 
carto-postal que eu mandara no Natal e um mao de cigarros americanos, bem leves.

- No creio que sejam bons para a sua sade - eu disse.


20



- Nem maus, na verdade. Alis, uma vez que a satisfao que eles me do  bem maior do 
que o prejuzo, pois o meu mal  mais geral, diria at que me fazem bem. A voc que ainda 
 jovem e goza de boa sade, no entanto, fariam certamente mal.

- Vejo que continua tendo o gosto pela filosofia.

- Isso mesmo, mas no  por livre escolha. Quando j no gostamos de mais nada, na vida, a 
filosofia  a nica coisa que sobra.

- Alm dos cigarros.

Sorriu. Ofereceu-me um e acendeu outro para si.

- Se eu morasse por aqui - eu disse -, viria v-lo todos os dias e passaramos um bom tempo 
juntos. - Tirei o meu livro da pasta e o entreguei a ele. - Tentarei fazer-lhe companhia pelo 
menos com isto. Ainda pode ler?

- Com muito custo. O corpo  uma mquina: chega a hora em que tudo deixa de funcionar. 
Quando um homem chega a este ponto, deveria morrer.

Percebia-se que a idia da doena, da sua total dependncia dos outros deixava-o 
angustiado.

- No conseguiria nem cantar - acrescentou -, nem mesmo se quisesse.
- E na verdade ele nem precisava dizer.

"E ento, o que o trouxe a Atenas? - perguntou. - Ah, sim... - continuou logo - o livro... Vai 
voltar?"

- Sem dvida, pois estou fazendo uma pesquisa para um ensaio sobre os

antigos atenienses.

- Um projeto bastante ambicioso, mas  bom que assim seja, pois j h gente demais que s 
pensa em escrever bobagens. Gostaria de poder acompanhar os seus progressos.

- Quem me dera!

- Vai voltar, ento?

- Toda vez que estiver em Atenas.

- Fico imaginando se conseguir levar a cabo o seu trabalho antes que eu morra.

- No acho que as suas condies sejam to desesperadoras. S precisa voltar a raciocinar, a 
achar graa nos desafios, a conversar com algum. Vou enviar cada captulo logo que ficar 
pronto, gravado em fita para que nem precise ler. E, quando eu aparecer-vamos coment-lo. 
Ou ento telefonarei.

Despedi-me com os olhos marejados, pois na verdade no sabia se voltaria a v-lo.

I

O MITO

A histria dos atenienses nasce do mito. Ainda levaria muitos sculos antes que aparecesse 
um Tucdides para fixar as regras com que escrever a histria. Ento, o povo de Atenas, 
assim como qualquer outro em qualquer parte do mundo, contava suas prprias origens com 
histrias que mais pareciam fbulas; mas no se tratava de histrias inventadas ex novo: 
eram o reflexo de verdades parciais, deturpadas e remotas, de fatos que j era impossvel 
rastrear, repassados oralmente de uma gerao para outra, quase certamente sob a forma de 
bailados e cantigas. E nessas histrias a origem de tudo era uma deusa, que afinal era uma 
coisa s com a cidade, uma vez que tinha praticamente o mesmo nome: Aten.  um nome 
muito antigo, como indica a slaba final -na, um sufixo que, por exemplo, encontramos nos 
nomes etruscos (Vipina, Rasena, Fufluna) e nos mais arcaicos dos nomes dos centros pr-
gregos como Mykenai, Micenas, a mtica capital de Perseu, Atreu e Agammnon.

A deusa nascera sem a interveno de um tero materno, fruto de uma rarssima paternidade 
virginal: surgira, na verdade, da cabea de Zeus, como podemos ver em muitos vasos 
antigos: uma figurinha um tanto rgida e de armas em punho que afligira o deus-pai com uma 
longa e insuportvel enxaqueca afinal resolvida por Hefesto, o deus serralheiro, que rachara 
a cabea de Zeus com um poderoso golpe. Hefesto, entretanto, no demorara a cobrar o seu 
preo pela operao de "cirurgia craniana", pedindo Aten em casamento.

Zeus concordou mas, uma vez que Hefesto era muito feio, coxo e desajeitado, permitiu que 
a filha se defendesse e, se ele insistisse, repelisse os seus ataques. Trata-se de um detalhe 
muito interessante, pois representa uma espcie de reconhecimento de livre escolha para 
uma mulher no que diz respeito ao casamento. Hefesto pulou ento em cima da nova deusa, 
mas o que devia ser um amplexo amoroso tornou-se na verdade um feroz corpoa-corpo. O 
coxo estava to excitado que, s de tocar na jovem, ejaculou e o seu smen se espalhou no 
cho. Mas uma vez que o smen de um deus,


22



como nos conta Homero, nunca fica desperdiado, a terra incubou uma criatura e gerou-a no 
devido tempo.

Aten tomou conta do menino, escondeu-o numa caixa que entregou s filhas de Ccropes, 
o primeiro rei de Atenas, avisando que de forma alguma deveriam abri-la; as jovens, no 
entanto, no conseguiram resistir e, logo que a deusa se afastou, abriram a caixa e se viram 
diante de uma figura fantstica: um menino com cauda de serpente. Segundo outra verso 
do mito, por sua vez, na caixa havia uma enorme cobra que tomava conta do menino e que 
logo atacou as imprudentes mocinhas. Seja como for, as jovens ficaram to pasmas e 
assustadas que se jogaram do topo da acrpole e morreram.

O menino foi chamado Erictnio e, mais tarde, tornou-se rei de Atenas. O nome Erictnio 
guarda em si os conceitos de "desavena" e "terra", e pode ser que da tenha nascido a 
lenda do deus Hefesto que espalha o seu smen no cho durante a luta com Aten. A 
prpria serpente, por sua vez, tambm  um animal subterrneo, pois acreditava-se que 
passasse o inverno escondida na terra. No templo do Erection, que surgia na acrpole e 
guardava as relquias das mais remotas origens da cidade, havia uma cobra que era objeto de 
culto e de oferendas votivas.

Os povos antigos, particularmente os gregos, no tinham uma teologia rgida e dogmas de 
f: as histrias a respeito da sua religio estavam em constante evoluo e transformao, 
adaptando-se s mudanas da sociedade e s exigncias polticas e econmicas.

De qualquer maneira, a histria de Erictnio  uma das fbulas mais tpicas, cujo significado 
mais profundo - presente at na Bblia, na Epopia de Gilgamesh, assim como em mil outros 
contos de todos os tempos e culturas -  que o homem no pode tentar desvendar os 
mistrios dos deuses, pois do contrrio ser duramente punido com castigos terrveis como a 
cegueira ou medonhas metamorfoses.

Mesmo nessas aterradoras proibies, no entanto, podia haver algumas excees, como no 
caso dos iniciados nos cultos secretos, justamente chamados de "mistrios"; e no  por 
acaso que em muitas cenas desses antigos mistrios que chegaram at ns encontramos 
amide cestas encobertas ou caixas fechadas que os iniciados desvendam no tempo certo.

Aten, portanto, com a presena de um menino que, embora no gerado por ela, era seu 
pelo menos sob o aspecto moral, ficava intimamente ligada  cidade; e este liame tornou-se 
ainda mais profundo durante o reinado de Erictnio (segundo outros, de Erecteu, pois estes 
dois reis costumam ser confundidos), quando a deusa enfrentou Poseidon, irmo de Zeus e 
senhor do mar, para conseguir o padronato da tica. Venceria quem presenteasse os 
habitantes com a ddiva mais preciosa. Poseidon rasgou ento o cho com o seu tridente e 
dele fez surgir o cavalo, animal maravilhoso, invencvel na



23

corrida, poderoso na batalha. Aten, no entanto, saiu-se ainda melhor: bateu no cho com a 
sua lana e dele fez brotar uma plantinha de folhas prateadas que logo ficou carregada de 
pequenas e aparentemente insignificantes bagas escuras.

Era a oliveira: a mais nobre entre todas as plantas que crescem s margens do Mediterrneo. 
Frugal e paciente, capaz de resistir  seca e de germinar depois de ser mil vezes destruda 
pelo fogo, e sobretudo generosa. A sua madeira  to forte e dura quanto o ferro, tanto 
assim que no comeo era usada para esculpir as imagens dos deuses (os misteriosos xoana), 
e dos seus frutos se obtinha um dos produtos certamente mais preciosos da terra: o azeite, 
que os antigos usavam como alimento muito nutritivo, como fortificante dos msculos dos 
atletas e dos guerreiros, como combustvel para iluminar as casas dos homens e os templos 
dos deuses.

Por deciso unnime dos habitantes, Aten foi a vencedora e desde ento o seu santurio 
ergueu-se em cima do penhasco mais alto da cidade, aquele que os antigos Micnicos 
chamavam de sty e os gregos das pocas posteriores de akropolis. Ela mesma cuidou de 
torn-lo inexpugnvel, amontoando uma em cima das outras rochas enormes (uma caiu no 
caminho, alis, e formou a colina do Licabeto). Ningum poderia mais tir-la de l. Graas 
quele presente, quando o homem ateniense temperava com azeite a sua comida, ou ungia 
o corpo antes de enfrentar uma dura prova, tinha a impresso de entrar de alguma forma em 
contato com a deusa, de compartilhar a sua fora e sabedoria.

O que ser que se esconde atrs de lendas to elaboradas e complexas? A chave do enigma 
encontra-se provavelmente no perodo um tanto obscuro que vai do fim da idade Micnica 
at o comeo do perodo clssico. Continuamos sem saber ao certo o que provocou, por 
volta do sculo XII a.C., a queda das poderosas fortalezas de Micenas, Tirinta, Argos, Tiro, 
Pilos, Gla, Orcmeno. Os gregos guardavam a vaga lembrana de uma mtica invaso que 
chamavam de "volta dos Herclidas" e at uns poucos anos atrs atribua-se a derrocada  
invaso dos drios, povo de lngua grega que mais tarde acabaria dominando o Peloponeso, 
mas atualmente j no temos certeza disto. Muitos acham que no houve invaso alguma, 
pois no se encontra qualquer prova dela, embora palcios e cidadelas tenham sido 
queimados e uma civilizao inteira tenha desaparecido.

Apesar disto, nem em toda parte os acontecimentos parecem ter seguido o mesmo caminho: 
Atenas, em particular, no demonstra ter enfrentado qualquer abalo traumtico capaz de 
alterar a normal continuidade com o passado. Podemos dizer o mesmo a respeito de 
determinadas localidades da ilha de Eubia e de locais mais afastados, como Chipre. 
Mesmo assim houve de fato mudanas radicais e as acrpoles, as cidadelas fortificadas, tor-


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naram-se o smbolo desta transformao: enquanto na idade Micnica elas eram a sede do 
palcio real, em pocas posteriores tornaram-se o local da morada dos deuses, dos templos e 
dos santurios. Ccrops, Erictnio, Erecteu, e mais tarde Egeu e Teseu, protagonista da saga 
cretense do Minotauro, foram provavelmente os reis Micnicos que reinaram num palcio 
da Idade do Bronze cujos resqucios foram encontrados na acrpole de Atenas.  possvel 
que a deusa mais tarde conhecida pelo nome de Aten fosse a protetora deles e 
provavelmente a sua imagem era adorada em algum santurio dentro do palcio. Aps o 
desaparecimento dos reis e do pao Micnico, a divindade protetora ficou, identificando-se 
primeiro com a fortaleza e depois com a cidade.

Lembramos agora h pouco Egeu e Teseu que so (principalmente Teseu) os mais famosos 
entre os reis atenienses do perodo arcaico. Teseu, com efeito, foi o heri nacional do povo 
de Atenas e da tica, e o protagonista de um rico ciclo pico cuja fama e prestgio s foram 
superados pela epopia dos doze trabalhos de Hrcules. A verso mais conhecida da lenda 
conta que seu pai Egeu, voltando de Delfos, decidiu passar por Trezena, uma cidadezinha 
do golfo Sarnico no muito longe de Atenas, para consultar Piteu que reinava na cidade; 
este embebedou-o e em seguida colocou em sua cama a filha Etra. No dia seguinte Egeu 
seguiu viagem, mas deixou com Etra a sua espada e as sandlias, escondendo-as sob uma 
grande pedra. Se daquela unio nascesse um filho, algum dia ele poderia reconhec-lo pela 
espada e pelas sandlias.

O filho nasceu, foi chamado Teseu e, desde pequeno, demonstrou o seu valor. Com efeito, 
quando Hrcules foi visitar Piteu e despiu a pele de leo deixando-a em cima de um 
banquinho, o menino pegou um machado e atirou-se para cortar a cabea da fera. Instrudo 
pela me, tinha apenas dezesseis anos quando encontrou a grande pedra, levantou-a e partiu 
para Atenas com as sandlias e a espada do pai. Durante a viagem enfrentou toda espcie 
de perigos, tendo de matar animais selvagens como a Porca de Crmion, assassinos e 
ladres sanguinrios como Procrusto e Pitocamptes e, finalmente, capturar vivo o formidvel 
touro de Creta, que estava arrasando a regio de Maratona, para depois sacrific-lo ao deus 
Apoio. No fim, quando chegou a Atenas, foi recebido pelo povo com as maiores honrarias; a 
rainha Media, no entanto, enciumada ao ser informada da sua verdadeira identidade, 
convenceu Egeu a convid-lo ao palcio para em seguida envenen-lo. Mas justamente 
quando estava levando aos lbios a taa com o veneno, Egeu reconheceu a espada e as 
sandlias, e com um golpe derrubou a taa, gritando: "No beba, meu filho!"

Media matou-se e Teseu ficou ao lado do pai,/mas uma prova muito mais difcil esperava 
por ele: a que o levou para Creta num barco de velas



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pretas em sinal de luto, junto com dez rapazes e dez moas destinados a satisfazer a fome do 
Minotauro, o monstro antropfago de cabea taurina e de corpo humano, como tributo anual 
que Atenas devia pagar por ter Egeu matado o filho de Minos, rei de Creta.

Aquela pavorosa criatura era a forma encontrada por Poseidon para vingar-se de Minos, que 
o ofendera. O deus havia levado  loucura a rainha Pasfae fazendo com que se apaixonasse 
por um touro. A paixo da mulher chegara ao ponto de mandar construir pelo grande 
arquiteto ateniense Ddalo um monumento em forma de vaca, igualzinho a um animal em 
carne e ossos, para nele esconder-se e ser possuda pelo touro. Dessa unio perversa 
nascera o Minotauro e, uma vez que com a sua arte Ddalo se tornara de algum modo 
cmplice deste amor monstruoso, tambm teve de encontrar um remdio para as 
conseqncias. Construiu ento o Labirinto onde o Minotauro iria ficar escondido. Teseu 
chegou a Creta, fez com que a princesa Ariadne se apaixonasse por ele e lhe desse o 
famoso fio com que pudesse encontrar o caminho de volta e matou o Minotauro.

Todos esses elementos so tpicos da narrativa popular: a princesa que se apaixona por um 
jovem guerreiro inimigo do pai, o ogro antropfago, o recurso para encontrar o caminho de 
volta numa situao impossvel podemos encontr-los em qualquer fbula da nossa infncia. 
Mesmo assim, contudo, o episdio leva-nos de volta a uma poca em que Creta dominava 
os mares enquanto a Atenas Micnica encontrava-se quase certamente numa situao de 
vassalagem, forada a oferecer refns ao rei de uma ilha onde os ritos religiosos centrados 
no touro como animal totmico, talvez por ser um smbolo de fertilidade, por um lado 
deixaram impressionantes testemunhos arqueolgicos, e por outro suscitaram histrias 
aterradoras dignas das mais desvairadas fantasias.

 quase impossvel para algum nascido na moderna civilizao ocidental, profundamente 
marcada pelas religies hebraica e crist, entender uma religio que atribua  divindade os 
atos mais vergonhosos, como levar  loucura uma mulher para que se acasalasse com um 
touro. No podemos esquecer, entretanto, que as antigas religies eram principalmente 
dominadas pela obsesso reprodutiva e que qualquer manifestao de perda de controle, 
tanto na sexualidade orgaca quanto na embriaguez do vinho, era atribuda aos deuses; em 
algumas cerimnias religiosas havia cortejos que carregavam grandes imagens flicas, assim 
como agora ns carregamos as imagens da Virgem ou dos santos. Alm disto, em Atenas 
como em qualquer outra cidade da Grcia, podiam-se ver em cada esquina as hermas, 
imagens em meio-busto de Dioniso sobre um plinto do qual sobressaa um pnis ereto, sem 
que ningum se escandalizasse com isto.

Mas voltemos ao mito do Minotauro, bastante interessante uma vez que


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tem dois atenienses entre os seus personagens principais: o heri Teseu, filho de Egeu, e 
Ddalo, o sublime arquiteto. A este ltimo eram atribudas vrias invenes, entre elas a de 
verdadeiros robs: esttuas que podiam andar e se mexer. Desenhou e construiu o 
Labirinto, no qual foi em seguida aprisionado junto com o filho caro, para que no pudesse 
revelar o segredo a ningum. Mas Ddalo, com penas de aves e cera, conseguiu montar 
dois pares de asas com as quais ele e o filho levantaram vo. Todos sabem o que aconteceu 
em seguida: caro no quis escutar o pai, subiu alto demais e, aps derreter a cera que 
mantinha as penas unidas, acabou mergulhando no mar.

Poucos conhecem, contudo, a continuao desta histria cujas ltimas conseqncias 
tiveram como cenrio a Itlia. Segundo uma verso, Ddalo aterrizou na acrpole de 
Cumas, perto do cabo Miseno, e ali dedicou as suas asas ao templo de Apoio. Tentou 
repetidamente reproduzir no friso de ouro do santurio a tragdia do filho, mas em todas as 
vezes a sua mo ficou inerte. Segundo outra verso Ddalo pousou na Siclia, perto de uma 
cidade chamada Camicos, habitada pelo povo scano sobre o qual reinava o bom rei Ccalo. 
Este recebeu-o oferecendo-lhe hospitalidade e Ddalo, agradecido, retribuiu edificando 
uma fortaleza inexpugnvel. Minos no se conformou com a afronta e, ao saber onde o 
artista se abrigava, organizou uma expedio, desembarcou na Siclia e sitiou Camicos. 
Ccalo, entretanto, agiu com astcia: aparentando estar interessado num acordo, convidou o 
rei ao palcio e entregou-o aos competentes cuidados das suas filhas que o despiram, o 
mergulharam num banho perfumado e a o mataram com a maior tranqilidade.

Os cretenses, furibundos com o assassinato do seu rei, organizaram outra expedio e 
sitiaram mais uma vez Camicos, mas a invencvel fortaleza projetada por Ddalo resistiu a 
qualquer ataque. Tomados pelo mais completo desnimo, eles desistiram ento da vingana, 
encontraram um local favorvel na costa e fundaram uma cidade que chamaram de 
Heraclia Minoa.

Esta histria to colorida apresenta-se como um tpico exemplo de reciclagem posterior de 
um mito muito antigo com evidentes fins de propaganda, uma praxe bastante comum, por 
exemplo, na Atenas do sculo VI e, principalmente, do sculo V a.C. Era mais ou menos 
assim que funcionava: quando a cidade queria estabelecer relaes polticas e econmicas 
com alguma comunidade no helnica, espalhava a verso de um dos seus mais importantes 
ciclos picos envolvendo de alguma forma a tal comunidade nas faanhas hericas. Isto 
gratificava o povo do lugar, que passava assim a sentir-se parte do acervo intelectual de uma 
cultura muito mais prestigiosa, favorecia os contatos entre gregos e indgenas, e lanava as 
bases para a eventual formao de santurios extra-urbanos (como o de Segesta, por 
exemplo, ou o de Hera na foz do rio Sele) que se tornavam pontos de encontro e de troca 
entre os mercadores atenienses e os povos locais.



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Neste caso, porm, as coisas so um tanto diferentes: na dcada de 1930 o grande 
arquelogo Paolo Orsi comeou a explorar as encostas de uma montanha a nordeste de 
Agrigento no vale do Platani (o antigo rio Halykos), um macio isolado de gipsita encimado 
por uma aldeia de duas mil almas: Santo ngelo Muxaro. J fazia muito tempo que o 
mercado das redondezas se via inflacionado por antigidades de origem clandestina - cuja 
origem parecia ser justamente Santo ngelo - e era necessrio pr um termo  hemorragia 
de preciosos vestgios que acabavam perdidos. Orsi deu incio a uma escavao sistemtica 
nas encostas da montanha e fez uma descoberta clamorosa: uma necrpole com tmulos 
principescos cavados na rocha com a tpica forma de tholos, isto , de abbada ogival, iguais 
aos bem conhecidos tmulos reais de Micenas.

Os adornos, bastante opulentos, tambm lembravam de algum modo a civilizao micnica. 
Numa das tumbas foram encontradas quatro taas de ouro macio trabalhadas em alto-relevo 
com figuras de animais, enquanto dois anis com o peso de quase cinqenta gramas cada 
vieram  tona durante a aragem de um campo prximo. Algumas dessas tumbas eram dos 
sculos XIII e XII a.C., isto , contemporneas da civilizao micnica; havia outras mais 
recentes, mas os temas iconogrficos das taas e das jias lembravam sem a menor dvida o 
estilo do mundo micnico mesmo quando remontavam somente ao VIII ou VII sculo. 
Tratava-se certamente de algum tipo de imobilismo cultural tpico das reas perifricas de 
uma determinada cultura, mas apontavam mesmo assim para uma origem longnqua e muito 
profunda que ligava aquele stio ao mundo egeu. Nessa altura, portanto, os mtodos 
interpretativos mais adiantados em relao aos mitos viamse diante de uma prova 
impressionante, poderamos at dizer de uma confirmao direta mas muito mais remota, 
que nos forava a fazer recuar para uma poca anterior todo o mecanismo interpretativo.

Como nasceu ento esta histria? O que havia por trs de um conto to complexo e 
ramificado? Responder de forma clara e convincente no s  difcil como tambm 
temerrio, mas talvez possamos mesmo assim reconhecer algum tipo de itinerrio 
ideolgico.

 muito provvel que o mito do Minotauro tenha chegado a ns a partir do conjunto de 
cultos e ritos que, na ilha de Creta e na religio minica, eram centrados no touro. Basta 
lembrar os maravilhosos afrescos de Cnossos nos quais aparecem rapazes e moas seminus 
pulando por cima de poderosos touros de plo malhado e grandes chifres que avanam 
contra eles com fria: um tipo de "tourada" e de contato fsico entre homem (ou mulher!) e 
touro que pode ter gerado lendas como a do Minotauro. Da mesma forma a palavra 
"labirinto", de origem anterior ao indo-europeu, normalmente interpretada como "palcio da 
labrys", isto , do machado de dois


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gumes, por um lado seria uma lembrana das grandes construes residenciais minicas, e 
por outro traria consigo a idia de uma estrutura misteriosa e incrivelmente complexa, tanto 
assim que aquele que nela entrasse nunca mais conseguiria encontrar o caminho de volta. 
Um topos fantstico e incrivelmente bem-sucedido que atravessa trinta e cinco sculos at 
chegar  arrepiante parbola de Stephen King traduzida em imagens por Stanley Kubrik em 
O iluminado.

"Ddalo" significa "artfice" e provavelmente identifica a extraordinria capacidade criativa 
dos artesos e tcnicos atenienses: fica difcil pensar em algum que realmente existiu e 
que acabou sendo transformado numa lenda, justamente porque o nome indica a funo, e 
isto  tpico da elaborao mtica integral. Seria como se o autor da Ilada se chamasse "O 
Vate", como se o artista do vaso do Dipylon se chamasse "O Oleiro".

Quanto a Teseu, verdadeiro heri nacional dos atenienses, as coisas no so to simples: 
neste caso, no se trata somente de um mito mas sim de pica, uma forma expressiva 
diferente e mais complexa, que amide se identifica com a maneira como os povos 
escrevem a prpria histria nas fases mais arcaicas da sua cultura. A finalidade no  afirmar 
a verdade de alguma coisa que jamais aconteceu, mas sim propor modelos de 
comportamento para as classes dominantes e construir uma imagem de prestgio com a qual 
se apresentar ao mundo.

O desenvolvimento posterior do mito cretense que mostra Ddalo na Siclia ou em Cumas 
pertence sem dvida alguma a pocas mais recentes e  provavelmente contemporneo dos 
primeiros estgios da colonizao grega na rea mediterrnea. No perodo entre o VIII e o 
VII sculo a.C., com efeito, muitos jovens de vrias partes da Grcia partiram das suas 
cidades em busca de melhor sorte no Ocidente: na Siclia, na Itlia, na frica, na Crsega, 
na Glia e na Espanha, onde fundaram cidades destinadas a durar milnios. Deixando para 
trs tudo o que mais amavam, a ptria, a famlia, os afetos, esses emigrantes ainda assim 
levaram consigo, alm das lembranas, tambm seus mitos e tradies, adaptando-os s 
novas terras para assim torn-las mais familiares, menos brbaras e estranhas. Talvez tenha 
sido por isto mesmo que justamente nesta poca os poemas homricos foram por fim 
reunidos numa linguagem escrita, pois at ento s haviam sido transmitidos oralmente em 
inmeras e diferentes verses conforme o talento e a inspirao dos poetas e cantores.

Seja como for, se como muitos acreditam Camicos for realmente Sant'ngelo, ento quer 
dizer que neste lugar aconteceu de algum modo uma espcie de enxerto entre mitos mais 
arcaicos e outros mais recentes, e o fato mais curioso  que aqui o cunho j no  ateniense 
mas sim drico. No longe dali fica Agrigento, subcolnia de Gela, por sua vez colnia



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rdio-cretense. Est portanto explicada a presena por l de um mito cretense como o de 
Minos.

Algumas coisas permanecem entretanto sem resposta: por que os colonizadores iriam 
difundir entre os nativos uma histria em que se davam mal e saam perdendo? E por que 
justamente naquele lugar? Talvez num primeiro momento o eplogo da histria fosse outro, 
e tenha sido justamente a presena ateniense na Siclia no fim do sculo V o que 
determinou esta mudana. Como veremos mais adiante, nessa poca a metrpole tica 
estava empenhada no seu mximo esforo blico contra a drica Siracusa e buscava a 
aliana com povos indgenas da Siclia como os scanos e os limos. Nada de mais, portanto, 
que o novo desfecho gratificasse os nativos que moravam na cidadela de Kamikos. At os 
pacatos podiam ajudar a vencer uma guerra ou uma paz.

E os tmulos em forma de tholosl E as taas e os anis ureos de cunho micnico? Aqui  
mais difcil dar uma explicao, mas podemos pelo menos tentar uma possvel interpretao: 
quando os colonizadores dricos se fixaram naquela rea, e particularmente na regio de 
Agrigento, no devem ter demorado a entrar em contato com a fortaleza scana que 
dominava o interior e o acesso ao vale do Platani-Halykos, e a estabelecer relaes de boa 
vizinhana com os nativos. Da, portanto, o enxerto de um mito em que a fortaleza sicana 
seria de autoria daquele mesmo arquiteto que projetara o mais grandioso e ousado edifcio 
de todos os tempos: o labirinto de Creta. Somente mais tarde, durante a penetrao 
ateniense na Siclia, o mito assumiria a sua verso final que, ao gratificar os povos locais, 
decretava a derrota final e a morte dos invasores cretenses.

O grande ciclo pico ateniense, portanto, continua sendo certamente o de Teseu, vencedor 
do Minotauro e de muitos outros monstros que se identificam com as foras mais violentas 
da natureza. Assim como acontece com a maioria dos heris, atribuam-se a Teseu inmeros 
amores, entre os quais um com uma amazona chamada Antope. Conquistou-a durante uma 
faanha levada a cabo no Ponto Euxino ou, segundo outra verso, levantando ncora depois 
de t-la convidado a bordo. As amazonas prepararam ento uma expedio, atravessaram o 
Bsforo Cimrio gelado e atacaram Atenas do norte. Travaram um furioso combate, mas, 
aps alguns sucessos iniciais, foram finalmente rechaadas. J em poca histrica 
mostravam-se fora das muralhas os tmulos dos que haviam tombado no pico embate. De 
Antope (ou, segundo outra verso, de outra amazona chamada Hiplita) Teseu teve um 
filho ao qual deu o nome de Hiplito. Depois, quando Antope morreu, o heri casou com a 
irm de Ariadne, uma jovem chamada Fedra que era muito mais moa do que ele.

Fedra, no entanto, no demorou a apaixonar-se por Hiplito, que quase


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tinha a sua mesma idade, depois de espi-lo algumas vezes enquanto treinava no ginsio, 
nu. Mas o rapaz, insensvel aos chamados do sexo, preferia dedicar-se s artes marciais, s 
caadas e s corridas dos carros, e alm do mais tinha horror s de pensar em trair o pai com 
a madrasta. Repudiada, Fedra foi tomada pelo remorso e pela vergonha, e receando que 
Hiplito fosse revelar as suas tentativas amorosas, enforcou-se em seus aposentos sem no 
entanto deixar de escrever uma mensagem em que dizia no agentar o ultraje de ter sido 
estuprada por Hiplito. Louco de raiva, Teseu investiu contra o filho, expulsou-o de casa 
sem querer ouvir explicaes e, com a ajuda de Poseidon, lanou uma maldio contra ele. 
O deus do mar, que segundo outras verses do mito era o verdadeiro pai de Teseu, 
concederalhe trs desejos e aquele era o ltimo. Teseu no avaliou as conseqncias da sua 
fria: naquele momento ele s queria vingar a sua honra ferida de soberano, marido e pai, 
s pensava em punir a mais vergonhosa das traies. Hiplito subiu em seu carro puxado 
por fogosos corcis, desesperado e em pranto, e saiu correndo ao longo da costa. De 
repente, surgindo das profundezas do mar, um monstro aterrador apareceu entre as ondas. 
Apavorados, os cavalos ficaram agitados e saram em disparada, descontrolados. O carro 
derrapou, uma das rodas bateu contra uma pedra, estilhaou-se e o veculo capotou. Preso 
nas rdeas, Hiplito foi arrastado por um bom tempo sobre as pedras pontudas pelos cavalos 
enlouquecidos; quando finalmente eles pararam, exaustos, o corpo do jovem estava 
irreconhecvel e o seu sangue deixara um longo rastro. Teseu acabou sabendo da verdade, 
mas j era tarde demais: Nmesis iria puni-lo deixando-o sem herdeiros.

As ltimas aventuras da sua vida so faanhas absurdas ou insanas: j cinqento apaixonou-
se por Helena, ainda quase uma menina, e decidiu rapt-la. Combinou com o amigo Pirtoo, 
prncipe dos lpitos, a linhagem guerreira dos tesslios (vizinhos dos centauros). Tentariam 
raptar Helena juntos para depois decidir por sorteio quem ficaria com ela. O vencedor, no 
entanto, teria de ajudar o amigo a encontrar uma esposa de comparvel beleza. E estas 
intenes foram logo postas em prtica: os dois guerreiros rapta- 5 ram Helena, ela ficou 
com Teseu que a escondeu em Afidna, uma pequena " aldeia da tica. Logo a seguir, 
porm, Pirtoo exigiu do amigo o cumpri- $ mento do acordo e revelou o nome da mulher 
que tencionava raptar, um nome que fazia gelar o sangue nas veias: Persfone, mulher de 
Hades e rainha do tenebroso reino dos mortos.

Os dois alcanaram a foz do Aqueronte, as guas turvas dos pntanos estgios, e a desceram 
aos Infernos. Mas haviam sido demasiado audaciosos: Pirtoo foi morto pelo co Crbero, 
Teseu foi preso e acorrentado a um penhasco. Menesteu, um dignitrio ateniense, 
aprpveitou a sua ausncia para fazer com que o povo o aclamasse rei e devolveu Helena 
aos irmos



31

o

fO

Castor e Plux, que haviam chegado com um exrcito para libert-la. Atenas correra o risco 
de ser destruda antes mesmo de Tria! Mas foi suficiente ver Helena num rpido relance 
para que Menesteu ficasse perdidamente apaixonado por ela: e quando chegou a hora de a 
jovem casar com um prncipe aqueu, ele tambm se apresentou como pretendente.

Quem libertou Teseu foi Hrcules, mas nesta altura j se passara muito tempo e o heri 
ateniense retirou-se para um melanclico exlio na ilha de Ciros governada pelo rei 
Licomedes. Contam que certo dia, ao passear por um promontrio a pique no mar, deu um 
passo falso e acabou espatifandose nas pedras. Outra verso conta que na verdade ele pediu 
a Licomedes para ajud-lo a voltar para Atenas e que o rei, sem a menor vontade de 
indispor-se com Menesteu, deu-lhe um empurro.

Nesta altura ningum mais se lembrava dele em Atenas, pois as pessoas tm a memria 
curta, mas muitos sculos mais tarde, quando os atenienses enfrentaram o exrcito dos 
persas invasores em Maratona, dizem que o seu fantasma apareceu de noite aos guerreiros 
para incit-los  luta. Como veremos no decorrer destas pginas, contudo, dezessete anos 
depois o orculo de Delfos exigiu que os seus ossos fossem trazidos de volta a Atenas. 
Cmon, o comandante da frota e heri da guerra contra os persas, desembarcou ento em 
Ciros, mas o povo local, os primitivos e arrogantes dolpios, recusou-se a dar qualquer tipo 
de ajuda. Ento Cmon assumiu o controle da ilha pela fora, subjugou os dolpios e 
comeou a procurar, at que um dia viu uma guia raspando o cho com as garras numa 
colina. Por achar que podia ser um sinal dos deuses, mandou cavar naquele local: e foi assim 
que apareceu a sepultura de um guerreiro de porte descomunal, armado de lana e espada 
de bronze. A ossada do guerreiro, logo identificada como sendo de Teseu, foi exumada, 
transferida a bordo da capitnia e finalmente levada com grande pompa a Atenas, onde foi 
tumulada num santurio dedicado ao heri que recebeu o nome de Teseion.

O papel dos atenienses na epopia troiana  quase irrelevante e isto causa espcie, ainda 
mais se levarmos em conta que a primeira "edio crtica" dos poemas homricos foi 
justamente elaborada em Atenas no fim do sculo VI a.C., durante o governo do tirano 
Pisstrato, um homem extraordinrio, de grande sabedoria poltica, civil e militar. Teria sido 
muito fcil, nesta ocasio, introduzir na Ilada um trecho atribuindo a Atenas um papel mais 
importante. Longe disto, no poema as foras atenienses so bastante modestas, sob o 
comando de Meneste*, filho de Pteo, cuja nica razo de prestgio  a de ter conseguido 
cativar o povo enquanto Teseu estava longe, empenhado na malfadada tentativa de raptar 
Persfone. Em alguns relatos


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ele  apresentado como rei, mas Homero, na verdade, jamais o apresenta como tal.

H dois detalhes bastante curiosos nisto tudo: o primeiro  que os ^atenienses esto 
alinhados ao lado dos guerreiros de Salamina, guiados por jax Telamnio. Esta formao 
at que poderia ser bastante lgica, uma vez que a ilha de Salamina fica muito perto de 
Atenas, mas  bem possvel que se trate de um suplemento sucessivo, obviamente posterior 
 grande batalha de 480 a.C. na qual os atenienses derrotaram os persas justamente nas 
guas de Salamina depois que todos os habitantes da cidade se haviam abrigado na ilha. No 
mesmo trecho (Ilada, w. 546-549) tambm  evocado o mito relativo s origens da dinastia 
ateniense e do papel de Aten como protetora da cidade:

Aqueles que haviam erguido Atenas, cidade bem construda, descendiam de Erecteu que Aten um dia 
criara, gerado pela terra fecunda, e a filha de Zeus guardou-o ao seu lado dentro do seu rico templo.

Menesteu morreu na guerra de Tria, mas os seus filhos voltaram e reinaram em Atenas.

11 de janeiro de 1999

Neste Natal enviei a fita com o meu primeiro captulo a Kostas Stavropoulos junto com um 
carto de boas festas e uma caixa de biscoitos champanhe. Ele adora e  uma das poucas 
coisas que pode comer sem maiores problemas.

Voltei a v-lo ontem, aproveitando uma parada de seis horas em Glifada enquanto esperava 
a minha conexo para o Cairo. As suas condies permanecem estveis, s que com um 
pouco de febre devido a uma gripe. Gostara do captulo e estava muito interessado no 
assunto.

- Quais foram os trechos de que mais gostou? - perguntei.

-O do pedregulho que Aten deixou cair e que se tornou o Licabeto.

-  um fato bastante corriqueiro - expliquei. - Na Itlia, na regio pralpina, h muitas pedras 
errticas, arrastadas pelas geleiras, que depois do fim da ltima glaciao ficaram espalhadas 
pela plancie. Lembro-me de uma delas, cravada na encosta de uma montanha peno de 
Vicenza, que parece estar a ponto de cair a qualquer momento sobre uma aldeia. Dizem que 
foi detida pela Virgem, e at mostram a marca da sua mo. Neste caso a divindade detm 
apedra em lugar de deix-la cair: mas continua sendo o mesmo mecanismo, embora ao 
contrrio. E na Siclia, no mar de Aci Trezza, h uns poderosos penhascos que seriam as 
pedras lanadas por Polifemo contra o barco de Ulisses.

- Eu sei, mas no  esse o aspecto que me interessa - rebateu Kostas. Eu procurei imaginar a 
cena: a jovem divina que deixa cair um pedregulho daquele tamanho, e ns que para subir 
at l em cima temos de usar o telefrico. Deviam achar que os deuses eram bem grandes. 
E pesados. Lembra o livro V da Ilada? Quando Aten sobe no carro ao lado de Diomedes, 
toda a estrutura range devido ao grande peso, "Rangeu o carro sob a ponderosa massa". 
Ares fica ento ferido pela lana de Diomedes e, ao cair, cobre com o corpo sete jugadas, 
isto , um hectare e meio. A meu ver este era o


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seu tamanho natural, e s ficavam parecidos conosco quando queriam passar despercebidos, 
mas o peso continuava o mesmo.  por isto que o carro de Diomedes rangia.

- Imagem bastante potica, Kostas.

- Pois , a poesia. O duelo com Poseidon, apresente da oliveira... tudo isto  muito potico.

- Sem dvida, mas pode ser que o duelo tenha realmente acontecido. Aten devia ser uma 
deusa antiga, provavelmente Micnica, e Poseidon  um deus homem, trazido pelos indo-
europeus: teve de lutar para enxot-la da acrpole.

- E perdeu.

- Isso mesmo. Os deuses homens sempre perdem, apesar de tudo. Os santurios mais 
venerados nos tempos antigos eram todos de divindades femininas, e mesmo hoje os mais 
visitados so aqueles dedicados  Virgem: Lourdes, Ftima, Mediugorje. E o que mais?

- A histria das amazonas que atravessam o Bsforo Cimrio gelado, como Aleksandr 
Nevskji contra os cavaleiros teutnicos... fantstico. Quase parece que estou vendo:  s 
fechar os olhos e l esto elas. J pensou na cena?

- Algum deve ter visto. Quem espalhou o mito viu cavaleiros em suas armaduras 
avanando no mar de Azov completamente gelado.

-E as amazonas? Voc acredita nas amazonas?

- Algumas sepulturas de mulheres guerreiras foram descobertas na sia central... Contam 
que Alexandre da Macednia encontrou algumas a leste do mar Cspio.

Kostas ficou uns momentos em silncio, como se estivesse prestando ateno na sirene de 
uma ambulncia:

- Sabe de uma coisa? - perguntou de repente.

- O qu?

- A meu ver as amazonas representam uma espcie de medo ancestral que os gregos tinham 
das mulheres. A prpria Aten surge armada da cabea rachada de Zeus... Isto no lhe diz 
nada?

- Talvez. Faz-me lembrar de uma pintura que vi numa taa no Museu de r"> Munique: 
Aquiles trespassa Pentesilia, rainha das amazonas, enquanto ela tenta seduzi-lo.

- Tinham medo. - Acende um cigarro tragando profundamente. - Pois ,  a nica 
explicao.

- E qual poderia ser o motivo, a seu ver?

oo



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- Porque se lembravam do matriarcado, quando os homens lutavam at a morte para que o 
vencedor pudesse acasalar com a deusa-rainha-me antes de ser por sua vez sacrificado. 
Deviam lembrar-se disto em nvel inconsciente, ancestral. E deviam considerar o amor pelas 
mulheres como uma espcie de doena perigosa.

No fiz comentrios pois estava acostumado com as suas opinies sempre drsticas e nem 
sempre apoiadas em slidos argumentos, mas estava muito satisfeito com o interesse que ele 
demonstrava pela conversa, no importa qual fosse o assunto. Eu tambm peguei um cigarro 
do mao dele e acendi-o na sua guimba.

- Mais o qu? - voltei a perguntar.

- A descida de Teseu e Pirtoo aos Infernos para raptar Persfone.

- A catbase.  assim que se chama em grego, no ?

- Isso mesmo. E foi copiada por todos, principalmente por vocs italianos: Virglio, Dante 
Alighieri. Mas foi inventada por ns. Como tudo o mais, alis.

- E como explica o motivo da descida aos Infernos?

- Ns gregos procuramos exorcizar todos os terrores ancestrais, tentamos vacinar os homens 
contra os medos que os afligem desde que ficaram conscientes da prpria existncia, de 
terem nascido... e da morte inevitvel. E a os nossos antepassados enviaram em explorao 
para o outro mundo os seus heris: Teseu, Pirtoo, Heracles e Ulisses, que evoca as sombras 
dos mortos como um xam. E procuraram descrever o inferno. Temos menos medo de uma 
coisa depois que a conhecemos, no acha? Primeiro os heris e a, muito depois, os 
filsofos. Mas no foi a mesma coisa... Alis ficou bem pior... Os filsofos prepararam os 
gregos para aceitarem o cristianismo.

- E no acha que foi bom?

Levantou a cabea num gesto de negao tipicamente grego:

- Desespero existencial. J no sobrava mais coisa alguma a ser investigada; at o 
inconsciente eles j tinham explorado: as amazonas, justamente. Edipo que mata o pai e se 
casa com a me, Media que mata os seus prprios filhos para castigar o marido infiel. 
Sobrava apenas o desespero existencial: a mosca presa dentro do vaso, que fica batendo 
contra as paredes at morrer. A f no , afinal, o apagar das luzes? A completa desistncia 
da razo?

- No sei. A existncia de Deus bem que pode ser o resultado da especulao racional, no 
acha? Toms de Aquino, por exemplo, consegue harmonizar a f  com a razo.


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- Mera manipulao do pensamento aristotlico.

- Este parece mais uma espcie de nacionalismo intelectual. No  a maneira correta de 
enfrentar um debate.

- J sei o que voc est pensando. Que ns gregos de hoje, ns atenienses, nada mais temos 
a ver com os gregos de ento. Somos um pequeno pas, alm do mais ainda no 
completamente desenvolvido, mas voc est errado. Samos na frente, antes de todos os 
demais, e fomos os primeiros a chegar. Por isto mesmo ficamos sentados  espera... estamos 
esperando h sculos,  beira da escurido. Sem fazer outra coisa a no ser esperar. Quanto 
 tecnologia, ela no  nada, s serve para construir brinquedos, em sua maioria perigosos.

- Mas os antigos tambm sonharam com a tecnologia. Pense em Ddalo: o vo humano, a 
engenharia avanada, a robtica.

- Pois , e souberam prever exatamente o que iria acontecer, caro que chega perto demais 
do sol e cai. Faetonte que tenta guiar o carro do sol e cai. As suas irms que choram 
desconsoladamente por ele e so transformadas em choupos, com as lgrimas que se tomam 
mbar.

Ouve-se novamente a sirene da ambulncia, mas muito abafada ao longe, como um lamento 
distante.

Ele est com a cabea apoiada no travesseiro, de olhos fechados. Espero que adormea e 
saio sem fazer barulho.

II

O LEGISLADOR

Conhecemos o nome de nove reis entre os que reinaram em Atenas e, como no caso de 
Roma, eles so a lembrana do perodo mais arcaico, que corresponde  poca Micnica e 
terminou no sculo XII. Pouco sabemos daquilo que aconteceu em seguida e, com efeito, 
temos de confiar principalmente nos parcos restos arqueolgicos; e uma vez que Atenas, 
assim como Roma, continuou a viver pelos sculos afora, temos ento uma multido de feios 
edifcios modernos encobrindo as memrias do seu passado. Sabemos ao certo, entretanto, 
que a monarquia j entrou em decadncia a partir do fim da idade Micnica. D para ver 
isto nos poemas homricos: Ulisses vagueia sem destino durante anos antes de voltar, e 
quando chega ao seu palcio encontra-o invadido por um grupo de nobres que esbanjam as 
suas posses e cortejam a sua mulher. O prprio Ulisses, ao chegar  ilha dos feaces, 
encontra o rei Alcnoo cercado por um conselho de ancios que quase certamente tinha 
poderes de controle.

Idomeneu de Creta  forado a deixar a sua ilha; Diomedes de Argos descobre que uma 
conspirao contra ele est em andamento, organizada pela sua prpria mulher Egialia; 
Agammnon  morto em seu palcio pela mulher e pelo amante desta; Menelau erra, ele 
tambm, durante anos antes de voltar  ptria. So sinais de crise e decadncia que talvez se 
seguiram a uma fase de excessiva expanso. De qualquer forma podemos notar neste 
cenrio a ascenso da classe aristocrtica dos grandes criadores e latifundirios que sujeitam 
o rei  sua proteo ou tentam priv-lo de sua autoridade.

 claro que nem todas as monarquias desapareceram; ao se acender novamente a luz sobre 
os fatos histricos dos gregos, isto , l pela metade do sculo VIII, podemos ver que 
algumas haviam sobrevivido: havia um rei em Argos, por exemplo, e at dois em Esparta, 
uma singularidade institucional que jamais se conseguiu explicar de forma convincente. E 
havia reis nas colnias: como em Cirene, embora os colonizadores viessem de Ter, que 
certamente no era um reino. De certa forma tambm havia um rei em Atenas: uni dos nove 
magistrados que em tempos arcaicos talvez formas-


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sem o governo da cidade e eram chamados de arcontes ("os que mandam") tinha o ttulo de 
basileus, isto , rei.

A cidade tinha instituies muito parecidas com aquelas de muitas outras poleis da Grcia: o 
poder estava nas mos dos aristocratas que sentavam no Conselho e que elegiam os rgos 
do governo, como o Colgio dos nove arcontes e a assemblia dos ex-magistrados, chamada 
Arepago, aos quais cabia o controle da vida poltica da cidade. Eles possuam todas as 
terras mais ou menos frteis nas quais produziam principalmente azeite e vinho (o trigo era 
quase todo importado). Os terrenos mais pobres eram destinados  criao de ovelhas e 
cabras, e  apicultura, produzindo um mel muito procurado e de excelente qualidade. As 
florestas, que j haviam sido abundantes tanto em terra firme quanto nas ilhas, haviam sido 
em sua maioria destrudas em prol de novos espaos para a agricultura ou para o uso da 
madeira na construo civil e naval, e isto provocara relevantes fenmenos de eroso que 
resultaram numa ulterior perda da terra disponvel. Na ilha da Eubia, logo ao norte da 
tica, as cidades de Calcdica e de Ertria lutaram vrios anos numa guerra sangrenta s 
pela posse da nica plancie decente da ilha, uns pouco milhares de hectares ao todo, 
equivalentes a uma fazenda mdia no Centro-oeste americano de hoje.

Os pequenos proprietrios passavam fome: imprensados pelos latifndios, no podiam 
enfrentar a concorrncia e mergulhavam cada vez mais num mar de dvidas para comprar as 
sementes ou um animal de carga. Os ganhos sobre os emprstimos eram uma verdadeira 
usura: cem por cento ou mais. Bastava uma chuva de granizo, uma geada inesperada, uma 
seca, e o pobre campons j no conseguia pagar a dvida. Quem no pagasse tornava-se 
escravo do credor. Legalmente.

Eram tempos difceis: no existia qualquer tipo de organismo para defender os fracos, 
qualquer tipo de solidariedade entre os pobres. Cada um cuidava da sua prpria vida e nada 
alm disto! Quando a tenso social se tornava intolervel, a vlvula de escape era, como 
sempre, a emigrao que acontecia de forma muito particular: consultava-se o orculo de 
Delfos que nomeava o "ecista" (oikistes), isto , o fundador que iria chefiar a expedio e 
indicar o lugar onde surgiria a nova colnia. Em seguida sorteava-se em cada famlia um 
homem solteiro que iria participar da colnia, armavase a expedio e os jovens saam 
confiando na sorte em busca de alguma terra de alm-mar onde fundar a nova cidade. 
Tinham a peremptria proibio de voltar, a no ser no caso de no conseguirem encontrar 
um lugar onde se fixar nos cinco anos seguintes.

Os prprios atenienses fundaram vrias colnias, as mais antigas das quais na sia Menor, 
na costa bem em frente  tica; uma delas, Mileto, foi durante um bom tempo a mais 
prspera, rica e civilizada cidade do



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mundo conhecido. Mas os problemas continuavam sem soluo: perto do fim do sculo VII 
a situao chegara a um ponto de ruptura. Os aristocratas mantinham uma atitude altiva e 
desdenhosa. Envaidecidos com sua ascendncia herica e s vezes at semidivina, s 
tinham a obrigao de defender a ptria e lutavam a cavalo ou ento nos carros de guerra, 
armas nesta altura superadas mas mesmo assim de imenso prestgio, verdadeiros pdios 
mveis nos quais o nobre se mostrava em todo o brilho da sua armadura, com a cabea 
protegida pelo elmo cristado, segurando o escudo com os smbolos herldicos da sua famlia. 
Usavam cabelos longos reunidos numa espcie de coque no alto da cabea que funcionava 
como um amortecedor sob o elmo. Quando saam sem capacete perfumavam o cabelo com 
essncias raras e enfeitavam-no com agulhas com a cabea em forma de cigarra de ouro. 
Exigiam constantes presentes e ddivas, e fortaleciam o seu poder com alianas 
matrimoniais dentro do seu cl (ghenos) ou com outros cls de prestgio.

O ghenos (a raiz ghen - indica o nascimento, a gerao, o vnculo de sangue) era o 
fundamento do poder dos aristocratas, e dentro dele o patriarca exercia a justia, dirimia as 
brigas, combinava os casamentos, definia a poltica a ser seguida em relao aos demais 
ghene e em relao ao Estado que eles controlavam completamente. Cada ghenos tinha o 
seu heri fundador (o antepassado da famlia dominante) ao qual se tributava um culto num 
pequeno templo votivo (heroori). Mesmo assim existia um Estado com as suas instituies 
polticas, religiosas, administrativas e militares, mas era quase completamente condicionado 
pelos equilbrios de poder entre os chefes das grandes famlias.

As demais classes sociais eram formadas pelos pequenos proprietrios que cultivavam as 
suas prprias terras e vendiam os seus produtos nos mercados da cidade ou das aldeias da 
tica, e pelos trabalhadores braais quase sempre desprovidos de qualquer posse, 
fornecedores de mo-de-obra sem qualquer vnculo contratual: "homens de nada", segundo 
a definio de Homero. Os pescadores do litoral tambm faziam parte do proletariado e a 
sua condio era muito parecida com a dos trabalhadores braais. Os escravos, obviamente, 
no eram levados em considerao: eram objetos a serem comprados e vendidos, prestavam 
seus servios nas casas e nos campos, nas oficinas, nas minas e nas pedreiras. O seu nvel 
de vida s dependia das condies econmicas e da boa vontade do dono. Mas parece que 
na maioria dos casos eram tratados com humanidade.

Uma situao social como esta no podia certamente continuar muito tempo sem chegar a 
um ponto de ruptura, e foi justamente o que aconteceu. A rebelio serpejava, houve brigas 
e motins na cidade e nos campos, e at as classes dominantes finalmente se convenceram da 
necessidade de ofere-


l

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cer alguma coisa em troca, para manterem o mximo possvel do seu poder e dos seus 
privilgios. Foi, portanto, nomeado arconte com plenos poderes um homem de grande 
sabedoria e cultura para que providenciasse as reformas necessrias. O seu nome era Slon 
e a histria fez merecidamente dele o primeiro estadista europeu. Tambm era poeta e 
costumava apresentar em versos o seu pensamento poltico e as suas convices morais, 
mas infelizmente o pouco que sobrou dos seus escritos no basta para desvendar as suas 
vicissitudes pessoais. Sabemos que era rico e que viajara muito antes de assumir o cargo: 
coisa bastante comum nas classes superiores que geram os homens de idias mais 
avanadas. A anlise filolgica das suas composies poticas revela que tinha como 
modelo Homero, do qual copiava os esquemas com alguma substancial modificao em 
sentido mais moderno.

Se considerarmos que as poesias antigas eram na verdade canes acompanhadas de 
msica, entenderemos melhor at que ponto este homem tinha o pendor pela veiculao da 
mensagem poltica. Numa poca que desconhecia rdio, televiso e jornais, a cano era o 
meio mais eficaz e ao alcance de todos para a difuso bem-sucedida de um determinado 
conceito.

Sabemos que, antes de assumir o cargo, fizera o possvel para convencer os atenienses a 
tirar Salamina do domnio de Mgara, o que demonstra quo aguda era a sua viso 
estratgica: Salamina fica a poucas milhas do Pireu, o porto de Atenas, e Mgara controla a 
entrada do golfo Sarnico do lado oeste, o lado que separa a tica do Peloponeso. Tambm 
sabemos que lutou para defender a autonomia do orculo de Delfos contra a cidade de Cirra 
que pretendia control-lo, e esta tomada de posio tambm  extremamente significativa.

Delfos era o mais importante santurio pan-helnico, um centro de cincia e conhecimento 
que afundava as suas razes numa experincia plurissecular. Ningum na Grcia se 
entregava a um empreendimento de alguma relevncia sem consult-lo, e ningum ousava 
ignorar os seus ditames. O orculo dlfico era com efeito considerado a prpria voz do deus 
Apoio e a sua independncia garantia o equilbrio entre todos os Estados gregos, tanto as 
cidades-Estado do sul como as comunidades tribais do centro-norte.

Ao tornar-se arconte (isto , membro do rgo executivo que mais se parecia com o 
governo da cidade) com amplos poderes, levou logo adiante toda uma srie de reformas. 
Antes de mais nada aboliu o hediondo costume da escravido por dvidas e decretou a sua 
vigncia com efeito retroativo, de forma que tambm foram soltos aqueles que haviam sido 
escravizados no passado; ento dedicou-se s reformas mais propriamente polticas. Dividiu 
a sociedade conforme a renda: a classe mais alta era formada por aqueles que tinham uma 
renda equivalente a quinhentos medimos de trigo ou quinhentos medretos de azeite ou de 
vinho; a mdia, por aqueles com uma



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renda de trezentos medimos. Em seguida havia os pequenos proprietrios que podiam dar-
se ao luxo de uma parelha de bois, e finalmente os trabalhadores braais que nada possuam. 
Para termos uma idia do valor dessas rendas basta pensar que quinhentos medimos 
equivalem a trinta e seis toneladas, isto ,  carga de um moderno caminho pesado, e que 
tal quantidade de trigo ou de vinho  obtida atualmente com o cultivo de uns dois hectares 
de terra. Para os nossos padres atuais, em suma, os prprios ricos levavam uma vida 
relativamente modesta: podemos ento facilmente imaginar as condies dos mais pobres.

Uma vez estabelecida esta diviso baseada no censo, Slon decretou que somente os 
cidados das duas classes superiores poderiam ter acesso aos cargos pblicos de governo, 
enquanto os da terceira classe poderiam aspirar a cargos administrativos menores. Os 
proletrios que nada possuam no estavam qualificados para coisa alguma, mas foi-lhes 
concedido sentar na assemblia que elegia os magistrados, a Eclsia, assim como no tribunal 
popular, a Heliia, que entre as outras coisas julgava o desempenho dos magistrados em fim 
de mandato. Procurava-se desta forma evitar os abusos dos polticos, pois eles sabiam que 
algum dia a sua conduta teria de enfrentar o julgamento do povo. Slon criou um conselho 
dito dos Quatrocentos (cem para cada uma das quatro tribos da tica) que se encarregava de 
preparar a ordem do dia da Assemblia precavendo-se contra eventuais anomalias de tipo 
extremista. Tratava-se de uma espcie de parlamento cujos membros haviam sido 
escolhidos pessoalmente pelo legislador, mas que em seguida passaram a ser eleitos pela 
Assemblia depois da morte dos primeiros.

A grande novidade dessa reforma era a possibilidade de os cidados passarem de uma 
classe para outra superior quando a sua renda aumentasse, tendo ento a possibilidade de 
ingressar na gesto da coisa pblica. Slon abrira o caminho para uma verdadeira revoluo: 
j no havia uma sociedade imvel, presa ao direito imutvel do sangue e da linhagem, mas 
sim uma sociedade dinmica na qual se atribuam mrito e assuno de responsabilidades 
queles que conseguiam melhorar as suas condies de vida.

Nos sculos seguintes, quando os atenienses escolheram para si instituies democrticas, 
procurou-se ver em Slon a sua origem, mas sabemos que no foi bem assim. Basta lembrar 
que nas suas reformas a renda  calculada conforme a produo agrcola, o que  tpico das 
aristocracias baseadas no latifndio. Mesmo assim, no entanto, naquelas reformas j havia, 
de forma at inconsciente talvez, a abertura para a classe burguesa e, portanto, o ocaso das 
velhas aristocracias que faziam remontar as suas origens  idade dos heris homricos ou 
antes. Antes mesmo de passarem cem anos desde as reformas de Slon, deixou-se de medir 
a renda em termos de produtos


42 

agrcolas e passou-se a avali-la em dinheiro, e uma vez que a moeda ateniense, a dracma, 
foi se desvalorizando, aconteceu que cada vez menos cidados podiam ser considerados 
pobres a ponto de serem excludos da eleio para os cargos pblicos.

Como foi que o poder aristocrtico foi corrodo e finalmente exautora-

do pelas classes emergentes?

Entre a metade do sculo VII e o comeo do VI a.C., comeou a definirse de forma cada 
vez mais buliosa uma nova classe social que iria marcar profundamente a histria de 
Atenas, e portanto do mundo inteiro: a dos artesos, dos comerciantes e homens de 
negcios que iriam constituir o ncleo de uma burguesia muito arrojada e agressiva. Esta 
nova classe de geradores de renda percebeu o imenso potencial econmico dos dois 
principais produtos agrcolas da tica: o vinho e o azeite; principalmente em relao ao 
vinho, soube criar um gosto, uma moda, podemos dizer at um estilo de vida, que foi 
exportado para todo o mundo conhecido. Na base deste costume social havia um ritual 
extremamente bem-sucedido: o simpsio. A palavra nada mais significa do que "beber 
juntos", mas indicava uma espcie de drinking-party de cunho exclusivamente masculino. 
Os convivas reuniamse na casa do anfitrio e ficavam deitados em sofs sem costas e de um 
s brao estofado do lado da cabea, no qual apoiavam o cotovelo esquerdo.

Diante de cada sof havia uma baixa mesinha de quatro pernas na qual ficavam as taas e os 
pratos com algumas comidas normalmente muito simples. A coisa mais estranha, para ns 
modernos,  que o vinho era servido bastante aguado, tirando-o de um grande vaso central 
com capacidade de uns dez litros. O vaso chamava-se kratr, cratera, de um radical ker-, kr 
~ que significa justamente "misturar". As propores costumavam ser de um para cinco, o 
que continua a ser um mistrio para ns. Nenhum vinho moderno agentaria tanta gua sem 
perder por completo o seu sabor e o seu aroma. Pode ser que o vinho grego fosse 
concentrado a ponto de ser to forte quanto os nossos atuais vermutes; seja como for, 
sabemos ao certo que tomar vinho puro era considerada coisa de brbaros, dizendo-se at 
que este hbito podia levar  loucura (hiptese no totalmente improvvel). Todos se 
lembram do episdio do ciclope Polifemo ao qual Ulisses serviu vinho puro para que 
perdesse os sentidos (duas taas foram suficientes) antes de ceglo com toda a calma. 
Contavam que o rei de Esparta Clemenes I ficara louco por ter-se acostumado a tomar 
vinho puro  moda dos brbaros.

O que importava, no simpsio, era ficar  vontade entre amigos, conversando sobre 
qualquer assunto: poltica, arte, msica, teatro, esporte, amores e era por isto mesmo que se 
aguava o vinho: para que os hspedes se mantivessem lcidos quanto mais tempo possvel. 
As mulheres livres no eram

admitidas e, com efeito, os gregos no tinham a menor considerao pelas

\



43

mulheres etruscas que, ao contrrio, participavam dos banquetes ao lado dos seus homens. 
As nicas mulheres que podiam ser admitidas no simpsio eram as heteras, palavra que 
significa "companheiras", jovens muito bonitas, elegantes e cultas, capazes de tocar 
instrumentos, danar, conversar assim como,  claro, de fazer amor, um entretenimento 
extremamente normal que acontecia no prprio local do simpsio, naqueles sofs em que os 
hspedes se deitavam. Por via de regra as heteras tocavam uma flauta dupla chamada auls - 
um instrumento bastante parecido com as launedas da Sardenha -, danavam seminuas ou 
at nuas, usando apenas uma touca na cabea ou uma fita entrelaada nos cabelos.

O aparelho do simpsio compreendia um nmero incrvel de peas: conchas, jarras, nforas, 
copos, taas, clices, todos de fina cermica decorada com figuras pretas dentro das quais os 
detalhes anatmicos, as armas e as roupas eram desenhados com leves traos de tinta 
branca. Os oleiros eram to habilidosos que at mesmo as peas mais imponentes como a 
cratera tinham a leveza de bolhas de sabo, e os pintores ceramistas logo se tornaram 
verdadeiros designers que assinavam as suas obras cientes de estarem assim aumentando o 
seu valor comercial.

O aparelho para o simpsio difundiu-se por toda a rea do Mediterrneo e acabou sendo um 
smbolo de status social, tanto assim que se tornou parte do enxoval fnebre das sepulturas 
de maior prestgio. Na verdade os atenienses j tinham uma tradio muito antiga e de alto 
nvel que remontava ao estilo chamado "geomtrico", devido s figuras estilizadas 
geometricamente. No Museu Arqueolgico Nacional de Atenas pode ser vista uma das 
obras-primas desta arte: o vaso chamado Dipylon, uma pea gigantesca com duas asas, de 
colo comprido e quase cilndrico, com cenas de exquias e condolncias. Este vaso devia 
certamente conter as cinzas do morto e era, portanto, ele mesmo o veculo de algum 
simbolismo religioso e ritual.

Eis aqui, ento, a outra caracterstica de destaque da indstria cermica ateniense: a 
decorao. A pintura dos vasos exigia uma habilidade extraordinria uma vez que a 
superfcie era curva e era mais ou menos acentuada conforme os modelos, e as composies 
tinham de levar em conta essas distores do fundo. De qualquer forma a decorao era o 
meio com que transmitir uma mensagem precisa e acabava tendo um contedo propagador 
muito forte, nem tanto no sentido estritamente poltico do termo quanto no sentido mais 
propriamente cultural. Os vasos eram decorados com cenas mitolgicas, picas, teatrais, 
religiosas, familiares, de costume, de sexo, mas nunca de histria verdadeira ou de poltica. 
O produto era assim aceitvel por qualquer tipo de clientela e tornava-se um poderoso 
difusor da cultura que o gerara. Se hoje ns pudssemos gravar num suporte digital toda a 
iconografia da pintura vascular que conhecemos estaramos diante de um


44

verdadeiro filme, de uma espcie de desenho animado da civilizao grega e da tica em
particular. Com efeito, a cermica foi principalmente tica e a prpria palavra vem do nome 
do bairro de Atenas onde os oleiros trabalhavam: o kerameikn.

A qualidade da execuo, o valor da decorao, o uso dos vasos como recipientes de luxo 
para produtos de exportao (particularmente azeite e vinho) os transformaram em objetos 
muitssimo cobiados e, muito em breve, imitados: o custo deles subia ulteriormente devido 
s dificuldades de transporte, quase sempre por via martima e, portanto, bastante arriscada, 
que se refletiam no custo final de cada pea individual. Se considerarmos que um bom 
pintor recebia um salrio dirio equivalente a um ms de trabalho de um operrio braal, 
podemos facilmente imaginar o tipo de clientela que podia se dar ao luxo de comprar vasos 
ticos, ainda mais se assinados por artistas de prestgio.

As importaes, as exportaes e o comrcio em geral implicavam uma intensa atividade 
porturia de forma que, em volta dos dois portos de Munquia e do Falero (o Pireu s seria 
aparelhado mais tarde), criou-se uma prspera atividade de construo naval e de 
armazenagem, com banqueiros, despachantes e seguradores que movimentavam todos os 
dias considerveis quantias de dinheiro. Esse pessoal no demorou a ter um nvel de renda 
que lhe permitia comprar a armadura de soldado da infantaria. Tratava-se de um 
equipamento bastante caro que compreendia elmo, escudo, caneleiras, couraa e dobras de 
couro que protegiam as virilhas. As armas ofensivas eram a lana com ponta de ferro e a 
espada tambm de ferro. Todo este metal trabalhado custava muito caro embora ainda no 
se comparasse com o custo do equipamento de um cavaleiro aristocrtico, que podia se 
permitir manter um

cavalo de batalha.

O nascimento de uma infantaria pesada de linha tambm modificou a ttica militar e relegou 
por uns bons dois sculos a cavalaria dos nobres para funes complementares nas alas. Em 
outras palavras, os novos protagonistas nos campos de batalha foram os hoplitas (de hplon, 
o escudo), e, uma vez que eram a expresso da mdia burguesia em campo econmico, 
tambm exigiram ter algum peso em termos polticos. J fazia alguns sculos que o carro de 
guerra dos aristocratas no passava de objeto de desfile ou, em alguns casos, de adereo 
funerrio, tanto assim que o prprio Homero j desconhecia o seu uso (os heris chegavam 
ao campo de batalha de carro, mas a desciam para lutarem a p!) de forma que a cavalaria 
dos nobres tambm estava decaindo, embora mantivesse o seu prestgio. Muito justo, ento, 
que os que contribuam com suas rendas ao bem-estar da cidade e que a defendiam 
arriscando a prpria vida no campo de batalha tambm participassem da sua vida poltica na 
mesma medida.

i.



45

Apesar disto, contudo, enquanto com as reformas de Slon a burguesia conseguia pouco a 
pouco se aproximar das instituies que antes haviam sido privilgio dos aristocratas, a 
classe dos "que nada valiam", os trabalhadores braais que no tinham posses, continuava 
presa  sua condio miservel e sem a menor possibilidade de resgate. Havia no mercado 
uma considervel disponibilidade de escravos cujo trabalho custava menos ainda do que os 
dois bolos que representavam a paga diria de um operrio. Esta classe urbana desprezada, 
junto com os lavradores arruinados pelas dvidas, acabou formando uma multido cheia de 
rancor que s precisava de uma fasca para explodir.

Contam que Slon, ao concluir a sua tarefa de legislador, confiou ao Arepago o controle 
sobre o funcionamento das instituies e saiu de Atenas dando mais uma prova da sua 
fundamental moralidade. Com o prestgio de que gozava, com efeito, bem que teria podido 
assumir o poder e exerc-lo como tirano, coisa bastante comum naqueles tempos e 
considerada muito desejvel por qualquer grego de nobre linhagem. Mas ele preferiu voltar 
 sua paixo pelas viagens: visitou o Egito e o reino da Ldia que eram, naquela poca, as 
duas maiores potncias do Mediterrneo.

Como nos conta Herdoto em suas Histrias, quando chegou  Ldia foi se encontrar com o 
rei Creso no palcio de Sardes, na sia Menor. Creso era fabulosamente rico e reinava 
sobre um pas bastante prspero, devido s areias aurferas do rio Pactolo, por causa do 
controle exercido sobre as caravanas que chegavam ao mar Egeu vindas do Oriente, ou 
tambm pelo domnio que exercia sobre todas as colnias gregas na sia. O conto de 
Herdoto parece muito mais uma parbola edificante do que o relato de um fato real, mas 
mesmo assim  significativo e vale a pena de ser lembrado. Creso quis que fossem 
mostrados a Slon os seus tesouros, o palcio, a famlia, e no fim perguntou ao sbio se no 
o considerava o homem mais feliz do mundo. Slon respondeu que no, que no era tal a 
sua opinio.

- Diga-me ento quem , a seu ver, o homem mais afortunado do mundo
- insistiu o soberano.

E Slon respondeu:

- Um ateniense chamado Tlis, que teve uma vida prspera, viu com seriedade crescerem 
os filhos e depois os netos sem jamais perder um sequer. E por fim morreu lutando contra os 
eleusnios e mereceu dos seus concidados um monumento fnebre no local onde 
heroicamente tombara.

Creso ficou desconcertado pois no podia acreditar que um cidado qualquer, um perfeito 
desconhecido, pudesse ser mais afortunado do que o poderoso rei da sia, mas conhecendo 
a fama da sabedoria do hspede pediu que lhe outorgasse pelo menos o segundo lugar. 
Slon, no entanto, preferiu contar mais uma histria. Havia uma sacerdotisa em Argos que


46 

tinha de ir com o carro sagrado at o templo de Hera, fora das muralhas, para l celebrar um 
sacrifcio, mas, como os bois estavam todos no campo, no havia animais para puxar o 
pesado veculo. A cerimnia, porm, no podia ser adiada e os filhos da mulher, Clobis e 
Bton, mandaram-na subir no carro, atrelaram-se na canga e puxaram penosamente o veculo 
at o templo. Comovida com tamanha devoo a me pediu que a deusa lhes concedesse o 
mais lindo prmio e Hera ouviu a sua prece. Os dois rapazes entraram no templo e ficaram 
deitados para recuperar as foras depois da exaustiva faanha. Nunca mais acordaram.

S mortos. Slon s colocara mortos na sua lista dos homens mais venturosos do mundo.

- Por qu? - perguntou Creso irritado.

- Porque nenhum ser humano pode se considerar feliz antes de superar o extremo limiar, 
antes de concluir a vida com um saldo positivo. Cada dia pode ser portador de desgraas 
inesperadas, de indescritveis sofrimentos, e no h tesouros nem poderes humanos que nos 
livrem deles. - E continuou sem temor: -  Creso, logo a mim que sei quo invejosa e 
turbulenta  a divindade voc pergunta acerca das vicissitudes humanas? No demorado 
passar do tempo h muitas coisas que temos de ver e padecer mesmo que contra a prpria 
vontade. Considero setenta anos o limite da vida de um homem. E estes setenta anos 
perfazem vinte e cinco mil e duzentos dias, sem contarmos o ms intercalar. Se ento 
quisermos que a um em cada dois anos seja acrescido um ms para que as estaes se 
apresentem na hora certa, ao longo dos setenta anos teremos trinta e cinco meses 
intercalares, o que nos d mil e cinqenta dias. Agora, de todos estes dias compreendidos 
nos setenta anos, que no total so vinte e seis mil e duzentos e cinqenta, nenhum nos traz 
exatamente o mesmo que outro. Sendo assim,  Creso, o homem no passa de mera 
vicissitude... Quem  muito rico nem de longe  mais feliz do que aquele que vive o dia-a-
dia, a no ser que tenha a sorte de

acabar bem a vida...

Alguns anos mais tarde Creso foi derrotado numa batalha campal s margens do Hermo pelo 
exrcito persa de Ciro o Grande. J estava com os demais prisioneiros amontoados para ser 
queimado vivo quando, na hora de atearem o fogo, gritou: "Estavas certo, meu hspede 
ateniense!" Estas palavras salvaram-lhe a vida, pois despertaram a curiosidade de Ciro que 
mandou libert-lo a fim de saber o que significavam, e desde ento o manteve a seu lado 
como conselheiro.

Nada se sabe quanto aos ltimos dias de Slon, o grande sbio que assentou

a pedra fundamental da evoluo das instituies atenienses rumo ao siste-

\



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ma que iria servir de modelo insupervel pelo qual at hoje se regem os Estados no nosso 
planeta: a democracia. Sabe-se apenas que voltou a Atenas bem na hora de assistir ao 
fracasso das suas reformas.

Ele s havia dado o primeiro passo: para a meta ser alcanada era necessrio superar outras 
fases, consumar outras experincias no menos interessantes. Sabemos que se ops com o 
maior vigor a um homem chamado Pisstrato que, aproveitando-se da irrequieta insatisfao 
das classes mais pobres, se servia delas para conseguir o poder pessoal, para estabelecer na 
cidade aquele tipo de governo que a histria iria considerar como o mais detestvel de 
todos: a tirania.






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8 de maro de 1999

Estou mais uma vez em Atenas, trabalhando e estudando. Isto permite-me rever Kostas, ao 
qual enviei h umas duas semanas a fita com o segundo captulo desta minha reflexo sobre 
a histria dos antigos atenienses e sobre o milagre que em apenas cinqenta anos eles 
souberam realizar em todos os campos da cultura e do pensamento.

O dia est lindo, com um vento firme de poente que afasta a pesada camada de smog que 
normalmente oprime a cidade. O motorista de txi esbraveja contras as obras do metr que 
tornaram o trnsito ainda mais louco do que de costume enquanto eu, ao contrrio, fico 
emocionado ao ver os arquelogos que continuam destemidos o seu trabalho de escavao 
na praa Homonia. Aquelas muretas de pedras brancas e de argamassa avermelhada so o 
que sobra das casas dos atenienses do sculo V: fico todo

arrepiado.

- Diminua a marcha... - digo - diminua por favor...

- Gostaria de pular do carro para conversar com os colegas, e segurar uma daquelas pedras, 
revira-la entre as mos, sentir o calor daquele spero contato.

Kostas sarou da gripe, mas est um tanto desgastado. Recebe-me com um sorriso cansado e 
olhos vagamente embaados.

- Como vai, Kostaki...

- Como espera que eu v, com esta velha mquina?... Cada dia pifa uma nova pea. 
Gostaria de um caf?

- Aceito.

- Turco ?

- Sim, claro.

- A albanesa comea a mexer com o fogo.

- Quanto a isto no h problemas. L pelas suas bandas preparam o caf do mesmo jeito.

\

Ficamos conversando sobre as coisas da vida, da poltica, do tempo. Quer saber dos 
meninos, da minha mulher, da minha me, do trabalho.

- Troquei de carro. -Agora est com qual?

- Outro Alfa Romeo. Sempre gostei deles. Lembra a minha Giulietta preta? Era toda 
envenenada, parecia um foguete.

- Lembro. Eu nunca comprei um carro. So caros demais. Preferia ter uns bons ternos; com 
aquilo que se gasta para manter um carro d para encomendar cinco ternos de primeira por 
ano, diria at de grande luxo, e ainda sobraria algum dinheiro.

-  verdade.

Oferece-me um cigarro e acende um para si mesmo enquanto chega o caf.

- No quer saber o que achei do captulo que me enviou?

- Eu estava chegando l.

- Nada disto. Voc quer mesmo  desconversar, e eu at sei por qu.

- Voc sempre sabe tudo.

- S me faltava chegar a esta idade sem entender as coisas da vida!

A televiso est ligada, como eterno pano de fundo para as nossas conversas, sintonizada no 
canal da RAI. Ele nunca a desliga pois assim se mantm afiado em italiano.

-Ento?

- Voc queria evitar o assunto devido quelas palavras de Slon sobre a felicidade... dos 
monos.

- Aquilo faz sentido. E no fico acanhado ao falar na morte com voc at porque, batendo na 
madeira, ningum me garante que eu no v morrer primeiro. Poderia sofrer um desastre de 
carro, o meu avio pode cair, sabe l se vou ter um infarto durante os exerccios matinais. 
Como diz Slon, "o homem  mera vicissitude".

- Belas palavras! Gostaria de ter sido eu a dize-las.

- Acha ento que a vida no passa de simples casualidade ?

- No exatamente. Tambm h o phthnos then, a inveja que a divindade tem de ns. 
Quando algum est bem, a divindade sente inveja e na primeira oportunidade o atira  
misria. Concordo com Slon, cem por cento.

- Qual divindade?

- Qualquer uma. No creio que faa muita diferena. Segundo a mensagem crist fomos 
todos resgatados, remidos do pecado original. Por


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acaso voc reparou em alguma mudana nestes ltimos dois mil anos? Veja bem, os antigos 
atenienses, pelo menos, haviam percebido que no podiam contar com ningum, apenas 
consigo mesmos; nada de deus misericordioso, nada de pai do cu para se consolarem das 
desgraas, das doenas, das guerras, do cansao de viver. Longe disto, achavam por bem 
ficar atentos para precaver-se contra o que podia vir daquele lado. Voc no acha fantstico? 
Talvez seja por isto que conseguiram resultados to extraordinrios. Os filhos de pais 
compreensivos so uns desmiolados, os filhos de pais duros e impiedosos se fortalecem, 
aprendem a vencer as adversidades, a lutar com coragem.

- Pode ser, mas me parece uma imagem um tanto gasta.

- Quer aprova do que estou dizendo? Pense s no que vocs italianos eram antes do 
cristianismo: uma raa de lees que dominaram o mundo inteiro. E depois? De tanto ouvir 
os sermes dos padres que os chamavam de cordeiros, de carneirinhos, acabaram se 
convencendo disto. Deixaramse desarmar achando que o mundo iria logo acabar e que 
Jesus voltaria a aparecer entre as nuvens do cu. Mas s vocs acreditaram. Os brbaros 
nem pensaram em jogar fora as suas armas e a a baguna tomou conta de tudo por pelo 
menos quinhentos anos. Grande coisa!

- Esta viso tambm  muito simplista. A histria  o mais complexo dos fenmenos 
humanos, o resultado de todas as vicissitudes, voc no pode trat-la deste jeito.

- Claro que posso, um cara que est aponto de morrer pode dizer o que bem quiser.

Quanto a isto s podia concordar com ele.

-Admito, de qualquer maneira, que h alguma verdade no que voc diz, embora no me 
parea oportuno generalizar. - Ajudo-o a levantar-se um pouco e ponho na mesa a xcara 
depois de ele tomar o caf. - Mesmo assim, contudo, no  verdade que o mundo no 
mudou nestes ltimos dois milnios. Um monto de coisas melhoraram, at a prpria Igreja. 
Quer comparar os papas que temos agora com os da Idade Mdia e do Renascimento? E h 
muito mais interesse nos direitos humanos, uma maior sensibilidade contra as violaes do 
direito internacional, mais participao na defesa do ambiente e das minorias tnicas.

- Somente no mundo ocidental. Antes de mais nada porque cometemos os crimes mais 
graves e nos sentimos culpados, e depois porque temos um humanismo arraigado nas 
culturas grega e romana. De qualquer forma, no que diz respeito ao indivduo nada mudou. 
S que as pessoas agora escre-



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vem nos muros: "Jesus te ama." Se algum tivesse escrito nos muros de Atenas "Zeus te 
ama", todos teriam cado na gargalhada, embora tivessem o maior respeito pelo deus.

- Voc est de pirraa, assim no d para conversar.

- E mesmo? Pense s em mim e na Alexandra, ento. ramos felizes, gostvamos um do 
outro. No tnhamos filhos mas estvamos muito bem juntos. Bastava muito pouco para nos 
satisfazer: umas roupas, algumas viagenzinhas, jantar no restaurante duas vezes por ms. 
No incomodvamos ningum, a nossa era uma felicidade pequena, discreta. Mas no 
adianta, mesmo uma felicidade to pequena tinha de despertar a inveja da divindade. E 
Alexandra se foi depois de sofrer tudo aquilo que um ser humano pode sofrer...

Os seus olhos brilham, mas no est chorando, e a sua voz  firme.

- Est sentindo muito a f alta dela, no ?

- Muitssimo. Quer comparar Alexandra, com a sua classe, a sua alegria, com esta minha... 
assistente?

Quer fazer piada para esconder as lgrimas. Preciso conter esta sua onda de pessimismo e 
amargura e lembro de repente uma fbula de um casal idoso:

- Voc conhece a histria de Filmon e Bucis?

- Acho que li no ginsio, mas no tenho certeza.

- Era um casal bastante idoso que vivia numa pobre choupana. Cena tarde dois viajantes 
apresentaram-se  sua porta pedindo hospedagem para a noite. Os dois velhinhos 
ofereceram-lhes o parco jantar que haviam preparado, foram dormir numa esteira sem 
comer nada, deixando a cama para os forasteiros. Mas os hspedes eram Zeus e Hermes 
que viajavam disfarados para ver como os homens se portavam. Transformaram o pequeno 
casebre num templo suntuoso do qual Filmon e Bucis iriam ser os sacerdotes. Os dois 
velhinhos ainda viveram um bom tempo e finalmente morreram juntos, no mesmo dia, na 
mesma hora, no mesmo instante. Porque era isto que eles haviam pedido aos deuses, que a 
cada um fosse poupada a dor de levar o companheiro ao tmulo. Foram transformados em 
rvores diante do portal do santurio...

No foi uma boa idia contar esta histria. Embora tente esconder, Kostas est muito 
comovido, e j no tem vontade de conversar.

III

OS TIRANOS

No decorrer do sculo VI a.C. afirmou-se em Atenas, em outras cidades da Grcia 
continental e insular, assim como nas colnias, uma forma institucional anmala que mais 
tarde foi duramente deplorada pelas fontes histricas: a tirania. A palavra "tirano", lastimada 
e odiada nos sculos e milnios seguintes, tem uma origem bastante obscura. No entender 
de alguns, a sua interpretao literal significaria "guardio do queijo", expresso totalmente 
desprovida de sentido para ns, mas tanto faz, pois o nosso conhecimento s chega at a. 
Basicamente, contudo, indica a forma institucional na qual um homem governa sozinho, com 
poderes absolutos.

A execrao que tal instituio mereceu remonta principalmente a fontes moralizadoras do 
sculo IV a.C. e tambm reflete o comportamento desptico de alguns tiranos da Siclia 
grega, como Dionsio I e Dionsio II de Siracusa. Na verdade estes homens quase sempre 
chegaram ao poder empurrados pelo entusiasmo popular, levados pelos escudos dos pobres 
e dos oprimidos que j no agentavam os abusos das classes dominantes, os aristocratas e 
os proprietrios de grandes patrimnios. A respeito deles surgiram inmeras lendas.

Periandro de Corinto, por exemplo, teria ido para a cama com o cadver da mulher Melissa 
que mais tarde iria jogar-lhe na cara o estupro, do alm, com um horripilante orculo do 
nekromantion de Efira: "colocaste o po no forno frio".

Falris de Agrigento mandava prender os adversrios polticos dentro de um touro de 
bronze que tinha canos nas ventas, de forma que quando acendiam o fogo sob a barriga do 
bicho, podiam-se ouvir atravs delas gritos desumanos que pareciam um grotesco mugido.

Dionsio de Siracusa, para deixar bem claro a um seu corteso quo precria e pouco 
invejvel era a vida de um tirano, forava-o a jantar embaixo de uma espada pendurada 
sobre a sua cabea e presa com um cabelo de mulher. O pobre coitado chamava-se 
Dmocles e a ameaadora espada tornou-se um dos lugares-comuns mais universalmente 
conhecidos.


54



A prpria Atenas teve o seu tirano, e isto demonstra que as reformas de Slon, corretas do 
ponto de vista terico, haviam na verdade deixado inalterados os profundos desequilbrios 
sociais do povo ateniense. Chamava-se Pisstrato, era parente de Slon por parte de me e 
vangloriava-se afirmando descender de Pisstrato, filho de Nestor, rei de Pilos e heri da 
guerra de Tria; foi sem dvida alguma um dos mais sbios governantes da cidade. Teve de 
fugir duas vezes, mas sempre voltou e governou at o fim da vida, quando morreu de 
doena. Quem dilapidou o cabedal de decoro e sabedoria que o pai tinha acumulado foram 
os filhos que, com isto, deram a sua contribuio para a lenda negra da tirania.

No sabemos ao certo como Pisstrato chegou ao poder, mas uma estranha histria relatada 
por Herdoto conta que seu pai Hipcrates, enquanto assistia aos jogos olmpicos como 
mero cidado, ofereceu um sacrifcio aos deuses. Naquela mesma hora os lebetos - uma 
espcie de caldeires de bronze apoiados em trips - comearam a ferver sem fogo e 
derramaram a gua e as carnes que havia neles. Um sbio espartano chamado Qulon, que 
assistira ao prodgio, disse a Hipcrates para no se casar com uma mulher capaz de procriar; 
se j fosse casado, para mand-la embora e, se j tivesse um filho, para reneg-lo. Como se 
dissesse que o filho seria um monstro. Hipcrates no lhe deu ateno, e assim um dia teve 
o filho que iria ser o tirano dos atenienses.

Ao que parece Pisstrato chegou ao poder de forma gradual: sabemos que quando Slon 
voltou a Atenas, depois de ter ficado afastado dez anos, encontrou uma situao bastante 
diferente: os megarenses haviam retomado Salamina e ele empenhou-se com todas as suas 
energias para que a ilha fosse reconquistada. O arconte polemarco, isto , o responsvel 
supremo pelas foras armadas, era justamente Pisstrato que, com uma brilhante e 
inesperada operao de contra-ataque, invadiu Nisa, ou seja, o porto de Mgara. Tendo 
chegado a um impasse, os atenienses e os megarenses pediram a arbitragem de Esparta, a 
qual decidiu que Mgara poderia ficar com Nisa desde que cedesse Salamina a Atenas. 
Com isto Pisstrato conseguiu subir muito.no conceito dos concidados, pois se demonstrara 
valoroso no campo de batalha, e para os antigos esta era uma virtude maior do que qualquer 
outra: basta lembrar que quando o grande poeta trgico Esquilo morreu na Siclia, teve uma 
inscrio tumular por ele mesmo ditada anteriormente, que dizia:

Aqui jaz Esquilo filho de Eufrion, ateniense morto em Gela de fartas colheitas. O bosque sagrado de 
Maratona e o medo de longa cabeleira podem testemunhar o seu valor.



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Nem pensa em falar na glria de poeta que o tornaria imortal, mas no esquece o orgulho 
por ter lutado com honra contra os persas em Maratona.

Mas voltemos a Pisstrato e s vicissitudes atenienses daquela poca sobre as quais as fontes 
histricas so um tanto nebulosas: relatam que estava havendo uma guerra civil entre os 
moradores da costa e os do interior da tica e que Pisstrato formou uma faco sua entre os 
diacroi, isto , os montanheses, pessoas que deviam ser muito pobres, para no dizer 
miserveis. Uma vez que ele aspirava  tirania (quem nos conta isto continua sendo 
Herdoto) certo dia matutou um estratagema: ele mesmo feriu-se e a apareceu num carro, 
ofegante e sangrando, na praa do mercado, dizendo que os seus inimigos, isto , os seus 
adversrios polticos, haviam tentado mat-lo. Um heri de guerra, alm de lder poltico, 
estava em perigo e portanto pedia que o povo lhe reservasse uma guarda pessoal. A 
providncia foi aprovada e a partir da Pisstrato passou a circular cercado de guarda-costas 
armados com maas: nada de parecido, por enquanto, com os lanceiros mercenrios 
contratados pelos tiranos.

Slon, que provavelmente j imaginava no que aquilo tudo iria dar, proclamou que qualquer 
um que aspirasse  tirania pediria a proteo de uma escolta armada, mas nessa altura 
ningum quis ouvi-lo. Como era de se esperar, certo dia Pisstrato ocupou a acrpole com a 
ajuda dos seus homens e assumiu o poder. O mais interessante, de qualquer forma,  que 
Herdoto lhe atribui mesmo assim um considervel respeito pelas instituies e uma notvel 
habilidade administrativa. Que raio de tirano foi Pisstrato, ento? Foi realmente um 
precursor dos ditadores modernos, um membro de uma escria execrvel?

Pelo que as fontes nos contam,  evidente que naquele momento a fora do Estado era 
bastante escassa, que a poltica se resumia ao choque entre as duas faces principais 
chefiadas por Mgacles, do cl dos Alcmenidas, e por um tal de Licurgo. Isto leva-nos a 
imaginar uma situao bastante difcil, uma total confuso institucional, uma vida poltica 
reduzida  luta entre quadrilhas. Diante das circunstncias, Pisstrato limitou-se apenas a 
inserirse entre os dois contendores achando que desfrutava de maior prestgio e respeito por 
parte do povo. O fato de ele aparecer como chefe de uma terceira faco  considerado 
negativo, como uma ao que s contribua para tornar a situao ainda mais confusa, mas 
no h a menor dvida de que naquele momento ele ficou do lado dos mais pobres, assim 
como no h dvida de que ele mereceu plenamente a fama de bom estadista e 
administrador da coisa pblica. Quase certamente limitou-se a conter o poder exagerado dos 
aristocratas e dos novos ricos, tentou implantar uma distribuio da riqueza mais justa, trouxe 
de volta a ordem na vida da cidade, promovendo assim


56 

um crescimento econmico que iria fortalecer a classe mdia, refrear o poder dos 
aristocratas e reduzir o nmero de pobres.

Num primeiro momento, entretanto, o seu governo sofreu uma repentina interrupo: os 
dois adversrios que antes se combatiam, coalizaram-se e conseguiram escorra-lo da 
cidade, recomeando logo a lutar brutalmente um contra o outro e levando Atenas mais uma 
vez ao caos mais completo e violento. Mgacles, porm, desconfiando que naquela briga 
corria provavelmente o risco de levar a pior, entrou de novo em contato com Pisstrato e 
selou com ele um pacto de ferro chegando a prometer-lhe a filha como esposa. Nesta altura 
tudo estava preparado para a volta em grande estilo e a coisa aconteceu de forma to 
esquisita que at o grande Herdoto, isto , a fonte destas notcias, no pde deixar de rir. 
Pisstrato pegou uma jovem de uma aldeia prxima, muito bonita e incrivelmente alta, 
mandou que vestisse uma armadura e os trajes da deusa Aten como eles apareciam nas 
esttuas, colocou-a ao seu lado no carro e dirigiu-se  cidade espalhando o boato que a 
prpria deusa estava trazendo Pisstrato de volta  sua acrpole.

A notcia tomou logo conta da cidade, sustentada por um grupo de arautos que circulavam 
pelos vrios bairros proclamando o extraordinrio evento. O boato tomou propores 
gigantescas e uma multido entusistica apinhou-se ao longo do caminho adorando a deusa 
e aclamando Pisstrato. Depois de certificar-se de que o poder estava firmemente em suas 
mos, o homem honrou o compromisso assumido com Mgacles e casou com a sua filha. J 
tinha, porm, dois meninos adolescentes, Hpias e Hiparco, e no queria mais filhos. Alm 
do mais, os Alcmenidas eram considerados malditos devido a um sacrilgio que haviam 
cometido ao massacrarem no recinto sagrado da acrpole os seus adversrios polticos 
chefiados por um certo Cflon, que tentara dar um golpe de estado. Por isto (so as palavras 
de Herdoto) "unia-se a ela de forma no regular". Aconteceu ento algo muito parecido 
com os modernos escndalos de poltica e de sexo: a jovem contou tudo  me e esta 
repassou a notcia ao marido, que a considerou um verdadeiro ultraje merecedor de imediata 
vingana. Mgacles recorreu aos antigos companheiros de faco e aprontou uma ao 
militar.

Pisstrato preferiu ir embora e partiu para Ertria, na ilha Eubia, onde se aconselhou com os 
filhos. Foi justamente um deles, Hpias, quem se empenhou em convenc-lo a tentar 
reassumir o poder. Este detalhe relatado pox Herdoto  muito importante, pois deixa 
transparecer que Pisstrato preferia desistir do poder antes de levar a cidade a um banho de 
sangue para mant-lo, e tambm deixa  mostra uma caracterstica marcante da sua 
personalidade: a de um homem que evidentemente nada sabe recusar s pessoas amadas e 
aos seus filhos em particular - um trao tpico do esprito familiar mediterrneo.



Passaram-se onze anos durante os quais Passei coletando recursos nas cidades que lhe devi?
mais generosos), alistando mercenrios, r bendo o entusistico apoio de Ligdame Samos,
tanto assim que houve quem c. de "internacional tirnica", hiptese suges". de fundamento:
at mesmo na nossa poca hou recproca entre os regimes autoritrios.

Depois de engrossar as suas fileiras com os partida, ("um pessoal que prezava mais a tirania
do que a vida t", estigmatiza-os Herdoto) desembarcou em Maratona, onde et>. do, no
muito longe, o exrcito da cidade. O vaticnio de um vidtselhou um ataque noturno, sob o
luar:

As redes foram lanadas,

as malhas esticadas

e os atuns chegaro na noite de lua.

Os atuns, neste caso, eram os seus infelizes concidados que, depois do jantar, tinham ido
para a cama enquanto outros passavam o tempo jogando dados. Pisstrato caiu em cima deles
de surpresa, na calada da noite, provocou uma debandada geral e abriu caminho para a
retomada do poder pela terceira vez. Cercou-se de mercenrios e favoreceu a classe mdia
urbana procurando evitar a migrao dos camponeses para a cidade. Morreu de doena em
527 a.C. e a sua morte foi muito lastimada.

No foram poucos, com efeito, os seus merecimentos: de temperamento bonacho e
simptico por natureza sabia fazer com que as pessoas gostassem dele e procurou manter
relaes decentes at com os aristocratas. S alguns deles preferiram deixar a cidade: entre
eles Milcades, que se instalou numa grande propriedade pessoal na pennsula de Galpoli -
que ento se chamava Quersoneso trcio - e os alcmenidas que se fixaram em Delfos
promovendo a restaurao do templo de Apoio, certamente no intuito de conseguir alguma
influncia sobre o poderoso orculo dlfico. Pisstrato respondeu  altura com a solene
purificao do outro grande santurio apolneo de Delos. Ordenou que desenterrassem
todos os mortos que'se encontravam no raio de alcance visual do templo e mandou sepult-
los em outro lugar. Nesta ocasio foram provavelmente exumados os despojos dos
habitantes pr-clssicos da ilha: micnicos e talvez at minicos. Mas, como j vimos, esta
no foi a nica escavao arqueolgica anmala no mundo grego antigo.

Durante o seu governo houve um aumento exponencial da produo artesanal,
principalmente a de cermica com figuras negras que, por sua


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beleza e qualidade, acabou se impondo quase sem concorrentes em toda a rea do
Mediterrneo. A tcnica consistia em deitar sobre a superfcie j cozida do vaso uma
levssima camada de argila crua que definia a forma das figuras. Esta camada passava ento 
por um processo de oxidao que lhe conferia uma reluzente cor preta totalmente indelvel. 
Os detalhes do desenho eram obtidos com o auxlio da ponta de um estilo ou com tinta 
branca. Como j vimos antes, a variedade das formas e das tipologias era extremamente rica 
e a fantasia dos ceramistas levava a cada vez mais novas criaes. Uma pea muito especial 
era uma vasilha para beber chamada rhyton, que tinha a forma de cabeas animais ou 
humanas, tanto masculinas quanto femininas. Tambm eram muito apreciados os que 
retratavam modelos exticos como os etopes (negros), que tinham a caracterstica bastante 
realista dos cabelos crespos, dos lbios carnudos e do nariz achatado.

No campo das obras pblicas Pisstrato distinguiu-se devido  construo de alguns 
santurios, entre os quais o de Zeus Olmpico. Alm disto, foi com o seu patrocnio que se 
organizou a primeira "edio crtica" dos poemas homricos, uma obra realmente notvel 
pelo seu imenso valor cultural, verdadeira pedra fundamental, podemos dizer, da filologia 
moderna. Havia mais de um sculo, quando esta operao foi concluda, que os poemas j 
tinham aparecido em edies escritas, mas provavelmente ressentiam-se das muitas verses 
orais que ainda circulavam. Parece de fato certo que at o sculo VIII a.C. o ciclo pico do 
mito troiano e os demais ciclos mitolgicos do mundo grego continuaram circulando de 
forma oral, com composies improvisadas na hora pelos cantores profissionais que 
adaptavam os seus versos s exigncias e  disposio dos ouvintes.

No  fcil dizer de que forma Pisstrato exerceu a tirania uma vez que, pelo que nos foi 
transmitido pelas fontes, respeitou as instituies e as leis de Slon, isto , o Conselho dos 
nove arcontes (um rgo com funes tanto judicirias quanto executivas), o Arepago (uma 
espcie de corte suprema que garantia a aplicao correta das leis e julgava os crimes de 
sangue), o Conselho dos quatrocentos (rgo deliberativo e legislativo) e o Heliia (o 
tribunal popular). O mais provvel  que Pisstrato tenha exercido uma forma de liderana 
baseada diretamente no seu carisma pessoal, na possibilidade de usar ameaas e favores, de 
levar adiante as suas propostas graas ao nmero dos seus partidrios (a maioria, 
obviamente) que ocupavam cargos em todos os organismos de governo da cidade. Embora 
possa parecer estranho, no so poucos os estudiosos que acham que o seu regime de fato 
abriu caminho para a repblica popular imaginada e teorizada por Clstenes, onde o poder e 
a soberania ficavam nas mos do povo, mas monitorizados por um lder de grande carisma, 
inteligncia, e provido de notvel capacidade de governo e persuaso.



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Como vimos, a tirania foi praticamente um estgio obrigatrio pelo qual, embora com
resultados diferentes, tiveram de passar todas as cidades do mundo grego, ocidental ou
oriental. O que no podemos esquecer  que quase sempre esses homens foram levados ao 
poder como rbitros entre as faces em luta e como defensores das classes mais fracas e 
rejeitadas da sociedade urbana. Isto quer dizer que os tiranos, apesar de terem em alguns 
casos exorbitado no uso do seu poder em sentido autoritrio, manchando-se de crimes e 
abusos, exerceram uma funo historicamente decisiva.

Sob Pisstrato a divisa ateniense, a dracma de prata, tornou-se a moeda mais apreciada e 
procurada em toda a rea mediterrnea, o que significa que a economia da cidade se tornara 
evidentemente a mais forte. As moedas tinham de um lado a cabea de Aten coroada de 
louro, e do outro a coruja, animal smbolo da tica e ave consagrada  deusa que tambm 
era chamada glaukopis, "olhos de coruja". O metal precioso para cunh-las vinha das minas 
de prata do Larion onde os escravos e os prisioneiros de guerra trabalhavam em condies 
pavorosas.

Na poca de Pisstrato tambm desenvolveram-se formas de arte destinadas a alcanar o 
maior prestgio, tais como a escultura em mrmore e bronze, a arquitetura e o teatro, unia 
forma expressiva extremamente original que a lenda diz ter sido inventada por Tspis, o 
qual ia de uma aldeia para outra com um carro que funcionava como palco e uma cortina 
que lhe servia de pano de fundo, representando sob a forma de peas episdios da vida dos 
deuses e dos heris.

Aquelas ingnuas apresentaes, das quais nada chegou at ns a no ser o seu longnquo 
eco, foram a base da qual se desenvolveu o teatro grego e, mais especificamente, a 
tragdia, palavra que no comeo no tinha a conotao funesta que lhe damos agora: s 
queria dizer "canto do bode" ou "canto para o bode" ou talvez "canto para o sacrifcio do 
bode", e quase certamente indicava uma ao cnica que se seguia a um rito religioso, algo 
parecido com aquilo que acontece nas igrejas crists com a celebrao da missa.

Os anos imediatamente sucessivos  morte de Pisstrato foram marcados por mudanas 
dramticas no cenrio internacional que acabariam influindo de forma decisiva na histria de 
Atenas: em 525, s dois anos depois de o tirano ter morrido, o imperador persa Cambises, 
filho e sucessor de Ciro, o Grande, invadiu o Egito, o ltimo dos grandes reinos da terra 
ainda independente da Prsia. O fara Psamtico III enfrentou-o em batalha perto de 
Pelsio, no delta do Nilo, contando tambm com um bom nmero de mercenrios gregos 
prevalentemente jnios, mas foi derrotado e aprisionado. Cambises no se limitou a 
subjugar o pas: tratou com desprezo a sua religio e as suas tradies; contam at que matou 
pessoalmente o sagrado boi pis, e meteu-se numa insana expedio contra os etopes, 
provavelmente


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os nbios que viviam ao sul de Abu Simbel. O seu exrcito perdeu-se no deserto e os 
homens entregaram-se a atos de canibalismo para sobreviver depois de j haverem 
devorado os animais de carga. Cambises salvou-se a duras penas, mas morreu logo em 
seguida vtima de uma conspirao. O Egito, de qualquer maneira, nunca mais 
reconquistaria a sua independncia, pelo menos com soberanos indgenas.

A Cambises sucedeu Dario, que a histria chamaria de "o Grande" devido s suas notveis 
faanhas e ao sbio governo. Quem construiu o suntuoso palcio de Perspolis foi ele, assim 
como foi ele que aparelhou a "estrada do rei" que ligava Sardes no Egeu a Susa no golfo 
Prsico, com uma posta para muda de cavalos a cada vinte e cinco quilmetros. Dario 
conquistou o vale do Indo at o seu ltimo afluente, superou o Amu Darja e o Syr Darja 
chegando s margens do lago de Arai; organizou o seu imenso imprio e cunhou uma 
magnfica moeda de ouro, o darico, assim chamada por mostrar no anverso a imagem do 
Grande Rei esticando o arco.

Enquanto isto, em Atenas o poder era administrado pelos filhos de Pisstrato, Hpias e 
Hiparco, principalmente por Hpias, que era o mais velho. O historiador ateniense 
Tucdides, que escreveu cem anos depois e jamais foi acusado de ter simpatia por regimes 
autoritrios, conta que o governo deles no foi mau. Hpias usava o poder com moderao, 
era um homem muito afvel e respeitava as instituies; limitava-se a colocar nos postos-
chaves os seus amigos e procurava salvaguardar a legalidade e promover ao mximo a 
prosperidade da cidade.

Passaram-se assim catorze anos bastante tranqilos at que aconteceu um fato que em 
seguida seria transformado em mito: a conspirao de Harmdio e Aristogton para matar 
Hpias e Hiparco, derrubar a tirania e restaurar a liberdade. Mas a conspirao fracassou: s 
Hiparco tombou sob os punhais dos conjurados; Hpias salvou-se e reagiu com extrema 
violncia. Harmdio foi morto na hora, Aristogton foi condenado e executado mais tarde. 
Os dois mrtires da liberdade tornaram-se smbolos do herosmo libertrio e o seu gesto foi 
eternizado num grupo escultural que chegou at ns por meio de uma cpia marmrea 
guardada no Museu Nacional de Npoles: o primeiro monumento que uma cidade ergueu 
em homenagem

aos seus concidados.

Com toda a sua autoridade Tucdides afirma, contudo, que o gesto dos dois tiranicidas no 
foi certamente inspirado pelo amor  liberdade, mas sim por uma escabrosa histria de 
amores masculinos. Harmdio era um jovem de incrvel beleza, Aristogton era um cidado 
comum da classe mdia que se apaixonara por ele e se tornara seu amante. Acontece que 
Hiparco, o irmo mais moo de Hpias, tambm se apaixonara pelo rapaz e tentara seduzi-lo, 
mas sein sucesso; Harmdio no s resistira s suas propostas



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como tambm fora imediatamente contar tudo ao amante que, tomado de cimes, pensou 
logo em matar o rival que poderia tirar dele o amado com a fora, graas ao prestgio e ao 
poder de que desfrutava. Hiparco, por sua vez, fulo de raiva diante da rejeio de 
Harmdio, humilhou ento a sua irm, recusando-se a deix-la participar de uma cerimnia 
pblica por consider-la indigna (isto , no virgem!). Aquilo j era demais. Os resmungos 
transformaram-se em verdadeira conspirao que no demorou a encontrar o conectivo 
ideolgico na luta dos cidados livres contra a tirania.

Hpias, que antes disto era um homem simples e at bonacho, tornouse desconfiado e 
cruel. Muitos cidados foram aprisionados e condenados  morte s na base de denncias e 
meras suspeitas, outros foram perseguidos e desprovidos dos seus direitos civis.

Os alcmenidas, que j tinham escolhido o exlio nos tempos de Pisstrato, foram justamente 
os organizadores da derrubada da tirania. J se haviam tomado benemritos aos olhos do 
Conselho do orculo dlfico ao reconstrurem o templo com mrmore de Paros em lugar do 
tufo que constava do contrato. Decidiram ento corromper a Ptia, a sacerdotisa de Apoio: 
toda vez que os espartanos viessem consultar o orculo, ela deveria ordenarlhes que 
marchassem contra Atenas a fim de livr-la da tirania.

Para ns modernos  um tanto difcil acreditar que as pessoas no comando, numa cidade 
como Esparta, fossem acreditar que o deus Apoio realmente lhes ordenara expulsar os 
tiranos de Atenas, uma vez que mais tarde o prprio rei de Esparta tambm corrompeu a 
pitonisa por motivos polticos. A explicao normalmente aceita  que devia haver uma 
espcie de vnculo do tipa"mente-brao" entre o santurio e a cidade com encargos e 
atribuies supranacionais, e que Esparta, em particular, desempenhava o papel de polcia 
internacional, como j vimos no caso da arbitragem entre Atenas e Mgara para o domnio 
de Nisa e Salamina.

Os espartanos prepararam-se ento para levar a cabo aquilo que o deus de Delfos ordenara.


22 de abril de 1999

Conversei com Kostas por telefone e pareceu-me estar em condies relativamente boas, 
sempre levando em conta as circunstncias. Talvez sentisse o calor desta primavera j 
adiantada.

- O que achou da maneira com que tratei a tirania?

- Interessante. Achei at que, como um todo, foi alguma coisa basicamente positiva.

- No exatamente. A tirania  um fenmeno negativo porque suprime a liberdade dos 
cidados. Devemos admitir, contudo, que se tratou quase sempre da resposta de alguns 
agitadores aos abusos dos aristocratas e dos

latifundirios.

- Revolucionrios, em outros termos.

- Isso mesmo, de cena forma. Mas  claro que, mais cedo ou mais tarde, uma instituio 
como essa s pode degenerar, e  por isto que a histria acabou condenando-a com um 
veredicto negativo e sem apelao.

-Aquelas histrias de sexo, ento, so incrveis...

- J sabia que voc no deixaria passar o assunto em brancas nuvens.

Mas  isso mesmo.

- Nada mudou: no fim das contas o sexo sempre acaba levando a melhor sobre a poltica.

- Os polticos so homens e mulheres acostumados com o poder, e desde o comeo do 
mundo o sexo sempre andou de braos dados com o

poder.

- E aquele Pisstrato, que filho da me com aquela pobre moa.

- Fofocas. Pode ter sido apenas um pretexto. No d para saber o que realmente aconteceu.

- Eu acredito.

- Eu tambm, no tenho motivos para no acreditar.

- E a histria de Harmdio e de Aristogton?



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- Tambm acho verdade. O amor masculino devia ser violento, sombrio, pois os homens so 
violentos por natureza, e afinal eles no eram afrescalhados, eram homens em todos os 
sentidos. Parece at que o prprio Filipe II, o pai de Alexandre o Grande, acabou sendo 
morto devido a uma escabrosa histria de amores masculinos.

-E o que me diz de Periandro de Corinto? Uma histria de arrepiar...

- Pois . "Colocaste o po no forno frio", coisa de filme de horror, no acha?

- H uma coisa que no consigo entender: mesmo que os sacerdotes do orculo fossem 
umas velhas raposas que metiam o nariz em tudo, como podiam saber o que acontecera no 
quarto de dormir, alis, na capela morturia de Melissa?

-Nunca saberemos, assim como no saberemos de muitas outras coisas misteriosas que 
tinham a ver com os orculos. Afinal de contas o mistrio era a caracterstica intrnseca que 
lhes permitia prosperar.

A curiosidade quase parece um remdio para ele,  s deix-lo curioso que logo reage de 
forma positiva.  uma pena que eu no possa ficar ao seu lado mais vezes.

- Tchau, Kostaki. - Tchau.


IV

A DEMOCRACIA

A morte violenta de Hiparco transformou profundamente o carter de Hpias, o irmo 
sobrevivente. Como em parte j dissemos, a partir de ento tornou-se desconfiado e cheio 
de suspeitas. Cercou-se de guarda-costas, uns mercenrios violentos e brutais, e atacou sem 
a menor hesitao todos aqueles que porventura poderiam at vagamente urdir alguma coisa 
contra ele. A cidade, nesta altura j em pleno desenvolvimento econmico e cultural, no 
podia tolerar esse tipo de grilhes opressores. Os mais irrequietos eram aqueles mesmos 
aristocratas que Pisstrato sempre tratara com algum respeito, ou pelo menos com 
moderao, administrando o poder com o seu tpico bom senso para no perturbar os 
delicados equilbrios internos dos vrios setores da sociedade ateniense.

Vimos que foram justamente os alcmenidas que tomaram a iniciativa, recorrendo a Esparta, 
que naquela poca era governada por um homem de excepcional firmeza de carter: o rei 
Clemenes, filho de Anaxandrides. Contavam a seu respeito que, quando se apaixonara 
pela mulher, ela j era casada com outro espartano. Ele chegou ento armado  casa do 
sujeito e pegou a mulher dizendo que, se o marido quisesse impedir, deveria lutar at a 
morte para mostrar o seu amor. O homem nem tentou reagir diante de um pretendente to 
decidido e entregou-lhe a mulher: a unio foi feliz e os dois amaram-se para sempre.

Clemenes no exercia a soberania sozinho: em Esparta, com efeito, havia dois reis e 
naquele tempo o seu homlogo era Demarato, que porm no agentava a comparao pois 
tinha uma personalidade muito mais fraca. Clemenes era um guerreiro formidvel, de 
excepcional vigor, capaz de romper sozinho em batalha as linhas inimigas e desempenhava 
o seu papel como verdadeiro soberano, administrando o poder do seu prprio jeito e 
entrando, portanto, continuamente em conflito com o Colgio dos foros, os cinco 
magistrados nomeados pela Assemblia dos ancios, que se haviam acostumado a agir como 
verdadeiro rgo executivo relegando os reis ao comando do exrcito e a cerimnias 
religiosas e representativas. Havia,


66 

assim, uma espcie de contnua queda-de-brao e, na ausncia de normas constitucionais 
precisas que definissem a esfera de poder de cada instituio, acontecia que os foros 
acabavam monopolizando o poder quando havia reis fracos ou indecisos, ou ento ficavam 
sujeitos  vontade real quando se viam diante de soberanos firmes e determinados.

Para os alcmenidas e os demais representantes do partido aristocrtico, o rei de Esparta era 
o interlocutor ideal. Primeiro porque a monarquia sempre foi e continua sendo o parmetro 
ideolgico de referncia para qualquer aristocracia, e segundo porque Clemenes era o 
nico lder bastante forte e ambicioso para acabar com um homem como Hpias.

A maneira com que os alcmenidas envolveram Clemenes e os espartanos na operao, 
como j tivemos ocasio de comentar,  no mnimo um tanto desconcertante pois, segundo 
nos conta Herdoto, chegaram a corromper a pitonisa e apelaram para o prprio Apoio a fim 
de provocar a runa de Hpias e livrar Atenas da tirania.

Para ns modernos fica difcil imaginar at que ponto pudesse chegar a influncia de um 
vaticnio do deus, mas sabemos com certeza que ningum podia ignor-lo. O orculo era um 
poo de sabedoria, um verdadeiro "banco de dados" que acumulava conhecimentos sem 
parar desde tempos imemoriais, talvez at mesmo desde a idade micnica, e por isto gozava 
de imenso prestgio. Sabemos por meio de provas arqueolgicas que mesmo nos sculos 
mais sombrios da chamada idade mdia helnica os grandes santurios, e em particular o de 
Delfos, continuaram sendo os nicos centros comerciais capazes de oferecer mercadorias 
muito caras e um estilo de vida suntuoso, o que nos diz muita coisa sobre o poder que 
podiam exercer. Nenhuma cidade se entregava a qualquer tipo de empreendimento 
importante sem antes consultar o orculo, e a interpretao do vaticnio ficava sempre aos 
cuidados de sacerdotes que tinham um incrvel poder discricionrio. O orculo podia at 
declarar "guerras santas" contra Estados que se tivessem manchado de impiedade em 
relao ao santurio - por exemplo, cultivando terras que lhe pertenciam -, e todos tinham a 
obrigao de aderir ao chamado para que o culpado recebesse ajusta punio.

Sabemos muito pouco acerca dos mecanismos internos do orculo, do relacionamento entre 
a pitonisa e os sacerdotes, e entre estes e a assemblia poltica que, representando um 
determinado nmero de regies da Grcia central, exercia a administrao do santurio. 
Mas sabemos muito bem que os espartanos acataram as ordens do orculo e organizaram 
duas expedies contra o Pireu. A primeira tentativa falhou, mas a segunda, guiada pelo rei 
Clemenes, teve sucesso. Hpias teve de buscar abrigo na sia Menor, onde pediu e 
conseguiu a proteo do Grande Rei Dario. Por algum tempo, no se falou mais a respeito 
dele.



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Nesta altura os alcmenidas voltaram a Atenas e providenciaram para que a tirania nunca 
mais pudesse vingar. O autor da nova constituio foi um deles, Clstenes, filho de 
Mgacles, o autor dos primeiros preceitos democrticos na histria da humanidade. No era 
exatamente o que os espartanos tinham em mente: com a sua interveno, com efeito, eles 
tencionavam instaurar em Atenas uma oligarquia aristocrtica que tivesse com eles uma 
dvida de gratido alm de um relacionamento de algum modo subserviente, mas as coisas 
seguiram outros caminhos. Clemenes bem que tentou mudar a situao para torn-la mais 
condizente com os desejos de Esparta, provavelmente impelido tambm pela aristocracia 
ateniense, mas os cidados-soldados da nova democracia defenderam com sucesso as suas 
conquistas.

Ao tornar-se arconte, Clstenes lanou uma reforma bastante complexa agindo antes de mais 
nada no plano territorial: juntou as aldeias e os vilarejos da tica em comarcas chamadas 
demos, palavra que significa ao mesmo tempo "povo" e "vilarejo", assim como acontece no 
espanhol moderno com a palavra pueblo. As duas cidades principais, Atenas e Braurnia, 
foram por sua vez divididas em vrios demos. Os demos foram em seguida reunidos em 
conjuntos de dez, com cada conjunto representando uma das trs regies que formavam a 
tica, e a partir destes trinta grupos foram estruturadas dez tribos que deviam eleger, cada 
uma, cinqenta representantes que iriam formar o rgo legislativo chamado Bule 
("conselho"). Cada um destes grupos de cinqenta representantes detinha a direo do 
Conselho (Prtanid) pela dcima parte de um ano. Alm disto, cada tribo era formada por 
trs componentes que representavam os habitantes da costa, da plancie e das montanhas 
para que os colgios eleitorais fossem bem equilibrados tambm do ponto de vista social.

Estas reformas, de qualquer maneira, no aboliam as instituies sociais tradicionais nas 
quais se articulava a sociedade: permaneciam as fratrias em que eram subdivididas as quatro 
velhas tribos da tica - grupos de famlias que provavelmente derivavam de antigas 
confrarias de guerreiros - assim como permaneciam as heterias (literalmente "sociedades"), 
irmandades secretas dos aristocratas. Cabia s fratrias manter atualizadas as listas dos 
cidados, uma vez que quando nascia uma criana de sexo masculino o pai devia apresent-
la aos membros da fratria na ocasio de uma determinada festa anual (as Apatrias) para que 
fosse reconhecida e aceita como membro da comunidade. E era dentro da fratria que os 
jovens celebravam o rito de iniciao  virilidade cortando os cabelos que at ento haviam 
usado longos. Esta espcie de cl tinha tamanha importncia para a vida dos indivduos que, 
no caso de um membro ser assassinado sem que a famlia pudesse ving-lo, a prpria fratria 
iria se encarregar de levar a cabo a vingana.


68



Mais tarde os demos assumiram a responsabilidade de compilar as listas dos cidados, mas 
mesmo assim em segundo escrutnio pois ningum podia ser includo na lista se no 
pertencesse a uma fratria. A primeira inscrio, ern resumo, era uma espcie de registro de 
famlia enquanto a segunda, a do demo, iria servir tanto como ttulo de eleitor, quanto para 
fins de alistamento militar. Com o passar do tempo, o demo assumiu tamanha importncia 
que acabou fazendo parte dos onomsticos das pessoas. Deixou-se, ento, de identificar as 
pessoas pelo patronmico (por exemplo: Eupito, filho de Antenor), passando-se a distingui-
las pelo demo de origem (Eupito do demo de Acarne).

Os cidados tambm elegiam um colgio de dez estrategos, um para cada tribo, que iriam 
guiar o exrcito na guerra, alternando-se um por dia no comando.

Este detalhe deve certamente surpreender o leitor moderno que sabe quo fundamental , 
numa guerra, a unidade do comando e a continuidade decisria, mas na praxe militar da 
Grcia entre os sculos VI e V a.C. isto era muito menos importante. O fato blico, com 
efeito, era uma batalha que se desenvolvia em plena luz do dia, num determinado lugar, 
entre dois exrcitos cujas formaes eram equivalentes em largura e profundidade, e 
consistia num choque frontal que provocava a maioria das baixas na primeira meia hora. A 
formao que era forada a recuar, tendo ento de deixar seus mortos e feridos no terreno 
ocupado pelos adversrios, tinha perdido a batalha campal: pedia uma trgua, negociava a 
devoluo dos mortos e dos prisioneiros e as condies de paz que seriam vlidas at o 
combate seguinte. Diante disto, como podemos ver, o papel do comandante era bastante 
limitado do ponto de vista estratgico. A sua importncia era grande somente em nvel ttico 
e psicolgico, pois o seu posto ficava na extrema direita da primeira linha e o seu exemplo 
podia ser determinante.

Podemos at supor que Clstenes, ao ditar a sua constituio, talvez pensasse numa espcie 
de emulao entre cada estratego no campo de batalha, para estimul-los a afirmar a prpria 
excelncia e a da sua tropa em relao aos demais. Mas voltaremos a tocar no assunto mais 
tarde.

O que agora queremos frisar  que as normas promulgadas em 508 a.C. (esta  a data da 
reforma de Clstenes) tinham como base o sufrgio universal, o sorteio dos cargos (a fim de 
evitar fenmenos de corrupo) e o equilbrio de todas as classes sociais na gesto da coisa 
pblica. Para algum ter acesso aos cargos do governo, com efeito, no era necessrio o 
braso de uma nobre ascendncia nem um determinado nvel de renda, mas, sim, apenas o 
fato de ser cidado, condio que competia a todos os homens que podiam demonstrar a sua 
ascendncia ateniense por pelo menos trs geraes. Eram excludos do voto as mulheres, 
obviamente os escravos, e os



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residentes estrangeiros (metoiko) que no entanto podiam exercer qualquer profisso. 
Garantia-se a todo cidado a integridade fsica, a propriedade e a liberdade pessoal; em 
troca, exigia-se dele o respeito s leis, a fidelidade s instituies e a defesa da ptria em 
batalha, se disto houvesse necessidade. O equipamento pessoal, isto , a custosa armadura 
da infantaria de linha, ficava neste caso por conta dele. Esse equipamento consistia numa 
celada ou elmo de bronze com lminas laterais para proteo do rosto, numa couraa de 
bronze ou de couro ou de linho macerado e prensado (o conceito era o mesmo do colete de 
vrias camadas  prova de balas) e reforado com placas metlicas.

As couraas metlicas eram bivalves, amide de forma anatmica, presas lateralmente com 
tiras e fivelas; as de couro ou de linho prensado ficavam penduradas em duas ombreiras 
amarradas na frente a argolas que sobressaam do peitoral. O hoplita tambm ficava 
protegido no abdome por largas tiras de couro reforadas com placas metlicas que no lhe 
atrapalhavam os movimentos: asseguravam uma boa proteo contra os fendentes, mas no 
contra os golpes de picada. As pernas eram protegidas do tornozelo ao joelho por caneleiras 
anatmicas e, mais raramente, por coxotes sempre amarrados posteriormente. O escudo era 
considerado a arma (hoplon) por excelncia. Redondo ou oval, cobria do queixo aos joelhos 
e era sustentado pelo brao esquerdo de forma que, em combate, tambm protegia o lado 
direito do companheiro de linha. Costumava ser enfeitado com imagens e smbolos 
herldicos relativos  condio do guerreiro que o embraava. As armas ofensivas eram o 
pique e a espada.

O progresso, mesmo em relao  constituio de Slon, que sob certos aspectos continuou 
a vigorar, foi enorme. S faltava mais uma coisa para se alcanar uma democracia realmente 
completa: o acesso das classes mais baixas aos cargos de primeiro escalo e a superao da 
gratuidade dos cargos pblicos. Ningum que ganhasse a vida com o prprio trabalho, com 
efeito, podia se permitir assumir um cargo pblico pois assim perderia a sua fonte de renda e 
j no teria meios para viver. Este direito continuava portanto a existir no papel mas nem 
todos, na verdade, podiam exerc-lo.

 claro que numa sociedade dessa poca no se podia esperar o direito de voto para as 
mulheres: a plenitude de direitos decorria da plenitude de deveres, e antes de mais nada da 
defesa da comunidade - honra/nus primeiro somente dos aristocratas, depois de todos os 
cidados, mas de forma alguma das mulheres. Se de fato hoje em dia as mulheres podem 
usar sem maiores problemas as mesmas armas mortferas dos homens, naquele tempo seria 
impossvel imagin-las lutando em campo aberto com lana e escudo, uma vez que a diviso 
dos papis (defesa para o homem, reproduo para a mulher) era muito rgida. O mito das 
amazonas, como j vimos, perdia-se


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num passado remoto e nebuloso e, detalhe curioso, mesmo assim elas eram sempre 
representadas como guerreiras a cavalo, com armas leves tais como arco e escudo em forma 
de meia-lua, mas nunca como soldados da infantaria pesada.

Paradoxalmente, as mulheres eram mais autnomas e livres na sociedade fechada e 
militarista de Esparta do que na democrtica Atenas. Por l as iovens exercitavam-se nos 
ginsios usando o curto quito militar (os demais gregos, um tanto escandalizados, 
chamavam-nas de "coxas de fora"), ou at danavam nuas em certas festividades; j 
casadas, podiam livremente circular em pblico, possuir e transmitir patrimnios como os 
homens, e a elas cabia a honra de oficiar a solene cerimnia da entrega dos escudos aos 
filhos que partiam para a guerra, pronunciando a terrvel advertncia: "[voltars] com ele ou 
em cima dele" (isto : morrers antes de abandonar o teu posto em combate). Os guerreiros 
mortos ou feridos eram de fato trazidos de volta deitados em seus escudos em cujas 
braadeiras os companheiros enfiavam as hastes das lanas transformando-os em maas.

Coisa bastante rara numa sociedade patriarcal, em Esparta temos at uma tradio de cunho 
quase feminista que chegou parcialmente at ns graas a Plutarco numa obra intitulada 
Ditados de mulheres espartanas. H ujii episdio particularmente esclarecedor quanto  
condio feminina na cidade. Quando os delegados gregos da Jnia foram pedir ajuda 
militar ao rei de Esparta Clemenes, encontraram-no andando de quatro com a filhinha 
Gorg nas costas. Diante daqueles olhos incrdulos, o rei disse: "Talvez no seja a maneira 
correta de receber hspedes estrangeiros, mas se vocs so pais ento iro entender." O 
que nos faz supor que em Esparta as meninas eram certamente amadas e paparicadas pelos 
pais mais do que os meninos, que deixavam a famlia ainda pequenos para morar nos 
quartis. Temos notcias de mulheres espartanas titulares de fazendas de criao de cavalos 
de corrida cujas quadrigas participavam das olimpadas, mais ou menos como os puros-
sangues ingleses que agora correm em Ascot defendendo as cores da rainha ou de alguma 
dama da aristocracia britnica.

A reforma de Clstenes tornou irreversvel o processo democrtico e a verdadeira tirania 
nunca mais voltou a aparecer em Atenas. Para evitar que isto acontecesse os atenienses 
adotaram uma medida radical e, de certa forma, profundamente injusta: o ostracismo, ele 
tambm atribudo  obra constituinte de Clstenes. Quando um cidado se tornava poderoso 
demais ou a sua liderana podia de alguma forma ameaar a democracia, a Assemblia dos 
cidados tinha o poder de votar uma moo para que ele fosse desterrado. Cada um escrevia 
o nome da pessoa em questo riscandoo na tinta preta de um caco de cermica (ostrakon), o 
papel para rascunhos dos antigos gregos. Se na hora da contagem os cacos superassem o 
quorum

necessrio, o homem tinha de deixar a cidade e no voltar antes de pelo menos dez anos, a 
no ser que fosse oficialmente chamado de volta com um decreto especfico. Foi assim que 
muitas vezes Atenas acabou perdendo os seus melhores cidados, sem contar que nos 
momentos mais demaggicos o ostracismo tornou-se para alguns uma maneira muito 
cmoda de livrar-se dos adversrios polticos.

Uma anedota de cunho conservador pode ser bastante esclarecedora a respeito do 
problema. Contam que, quando os atenienses se reuniram em assemblia para votar o 
ostracismo de Aristides - o adversrio poltico de Temstocles -, um campons analfabeto 
que no o reconhecera aproximouse e pediu-lhe para escrever no caco o nome de Aristides. 
Sem pestanejar, Aristides escreveu o prprio nome e devolveu o caco ao desconhecido 
adversrio. Limitou-se a perguntar:

- Mas o que  que voc tem contra este tal de Aristides, para querer exil-lo?

E o campons:

- Nada, s que estou farto de ouvir todo o mundo cham-lo de "o justo".  bvio que a 
anedota circulou no intuito de desacreditar a democracia,

de mostrar que nas mos de incompetentes e ignorantes aquele sistema era uma arma 
perigosa e prejudicial, e de qualquer maneira no se pode negar que o ostracismo era uma 
condenao cruel baseada em meras suposies, aquilo que hoje chamaramos de processo 
s intenes. Mas teremos a oportunidade de falar a respeito do radicalismo da democracia 
ateniense mais tarde. A coisa que mais surpreende  que um aristocrata como Clstenes, 
membro de uma famlia que sempre gostara do poder, conseguiu produzir um sistema 
poltico destinado a tornar-se modelo de convivncia civilizada para os povos do mundo 
inteiro e que agora, depois de vinte e cinco sculos, continua insuperado.  claro que a 
constituio de Clstenes foi apenas a coroao de um longo processo iniciado primeiro por 
Slon e depois, paradoxalmente, continuado por Pisstrato, que criou as premissas 
econmicas e sociais sobre as quais a democracia poderia assentar as suas bases. No 
podemos esquecer, com efeito, que o reconhecimento dos direitos civis a todos os cidados 
de uma comunidade no passa de boa inteno se ao mesmo tempo eles no tiverem a 
possibilidade de exerc-los, e isto s acontece quando as condies de vida so pelo menos 
dignas para a maioria deles.

Livre da tirania, a cidade retomou o caminho do crescimento desenvolvendo-se at do 
ponto de vista demogrfico. Nada, ou quase nada, sabemos acerca do "amaciamento" das 
novas instituies. De como o pessoal do campo se deixou convencer a abandonar os seus 
afazeres para participar da assemblia na colina da Pnice nem de qual foi a reao dos 
nobres. No resta dvida de que o prestgio destes ltimos ficou intato dentro das fratrias


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e provavelmente continuaram a ter bastante influncia dentro das novas instituies. O 
Arepago, que reunia todos os ex-arcontes numa assemblia vitalcia, manteve a maior parte 
do seu prestgio. O que muitos continuam at hoje a se perguntar  como foi que aconteceu 
aquela espcie de milagre pelo qual os cidados das classes mais baixas, em lugar de se 
juntarem  volta dos nobres em busca da sua proteo (como aconteceria mais tarde em 
Roma com o sistema das clientelas), preferiram manter-se em sua maioria autnomos 
escolhendo a vida de homens livres. A resposta mais provvel  que eles tenham entendido 
a fora do voto e do conceito de "maioria" intrnseco  democracia. Sabiam que, graas ao 
seu grande nmero, eram importantes mesmo sendo pobres e humildes.

Na frente internacional, nuvens de tempestade iam-se acumulando no horizonte. Em 449 
a.C. o rei Dano da Prsia empreendeu uma expedio na Europa contra as tribos citas da 
atual Ucrnia. Mandou construir uma ponte sobre o Danbio e deixou na margem 
meridional uma guarnio sob o comando de Istieu, tirano de Mileto e seu strapa, o qual 
por sua vez tinha deixado o poder em Mileto nas mos de Aristgoras. A expedio no deu 
certo: assim como os seus epgonos russos fariam com Napoleo vinte e trs sculos depois, 
os citas retiraram-se para o interior deixando atrs de si terra queimada e Dario teve de 
enfrentar uma penosa retirada. Durante algum tempo nada se soube dele e do seu exrcito, 
e o nobre Milcades, que morava em seu castelo nos arredores de Galpoli desde os tempos 
de Pisstrato, foi se encontrar com Istieu para convenc-lo a derrubar a ponte e deixar Dario 
entregue ao seu destino.

Enquanto isto, em Mileto, Aristgoras decidira atacar a ilha de Naxos para anex-la  
satrapia persa que Istieu lhe confiara e ganhar assim algum mrito aos olhos do Grande Rei, 
mas a expedio foi um desastre: os ilhus rechaaram o ataque infligindo a Aristgoras 
pesadas perdas das quais teria certamente de prestar contas a Dario quando ele voltasse. O 
homem teve ento a idia de proclamar a rebelio contra os persas dos gregos da Jnia (a 
costa ocidental da Anatlia) e de lider-los. Esta , pelo menos, a interpretao de 
Herdoto, que nos apresenta Aristgoras como sendo um aventureiro oportunista e sem 
escrpulos. Seja como for, Aristgoras sabia muito bem que no tinha a menor chance de 
resistir a Dario quando ele voltasse, a no ser buscando a ajuda dos gregos da ptria me. 
Partiu ento para Esparta onde, como j vimos, encontrou o rei Clemenes engatinhando no 
cho, brincando com a filhinha Gorg, uma garotinha bastante impertinente.

O rei deu-lhe hospedagem, mas Aristgoras achou tudo muito desconfortvel, tremendo de 
frio naquela casa onde, assim como em qualquer outra



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na cidade, era proibido por lei acender o fogo, mesmo no inverno, antes do pr-do-sol. 
Estava-com tanto frio que no tirava as mos de baixo da capa e pedia a um escravo para 
atar-lhe os cadaros dos sapatos. Para olhos espartanos aquilo era to estranho que a 
pequena Gorg chegou a pensar que o hspede estrangeiro no tinha mos!

Aristgoras preparara-se bem, tinha at trazido consigo um mapa gravado sobre uma lmina 
de bronze no qual aparecia uma boa parte do imprio persa. Disse que se os espartanos 
decidissem juntar-se a ele, os persas seriam desbaratados e o caminho estaria aberto at a 
capital Susa. Clemenes ficou um tanto perplexo, deu uma olhada no mapa e perguntou a 
que distncia ficava aquela cidade, Susa, que ele mencionara. Aristgoras respondeu que 
ficava a uns trs meses de marcha da costa.

- Meu hspede - rebateu Clemenes -, voc no est desejando coisas boas para os 
espartanos se queres lev-los a trs meses de marcha do mar.

Evidentemente a faanha de Xenofonte e dos seus "Dez mil", e ainda mais a de Alexandre, 
naquela poca eram completamente inimaginveis. O resultado foi uma gentil mas firme 
recusa. Parece que Aristgoras tentou de outras formas, inclusive com presentes e dinheiro, 
mas sem conseguir o que desejava. Decidiu ento recorrer aos atenienses.

Por mais corajoso que fosse, o exrcito de Atenas no podia ser comparado com o de 
Esparta, to temvel que muito poucos ousavam enfrent-lo em campo aberto, e quem 
tentava acabava quase sempre se machucando, mas havia outra coisa a ser considerada: 
Atenas era a metrpole (isto , a "cidade-me") de Mileto e portanto no podia ignorar o 
chamado do sangue. E foi o que aconteceu: o mpeto oratrio de Aristgoras abriu uma 
brecha na assemblia que decidiu enviar vinte navios com uma tropa de mais ou menos 
cinco mil homens. "E isto prova", comenta Herdoto, "que  mais fcil convencer muita 
gente de uma s vez, do que uma s pessoa tentando vrias vezes." Mais cinco navios com 
cerca de mil homens foram enviados por Ertria, uma cidade na ilha Eubia aliada de 
Atenas. Era uma deciso bastante leviana, pois com ela Atenas praticamente declarava 
guerra ao resto do ecmeno, uma vez que o imprio persa j dominava todos os potentados 
do mundo conhecido, fazendo fronteira com o territrio de Cartago a oeste e com os 
principados do vale do Indo e das montanhas do Tibete a leste.

E acreditamos que desta vez Aristgoras achou por bem no mostrar aos atenienses o mapa 
de bronze que havia sido to malsucedido com Clemenes em Esparta.

Na primavera de 494 a.C. as foras conjuntas dos rebeldes jnios e das duas cidades gregas 
atacaram Sardes, a capital da satrapia da Ldia que j havia sido a sede de Creso, e 
saquearam-na. A acrpole defendida pela guarnio persa no foi atingida, mas, embora os 
gregos sempre negassem


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mais tarde qualquer responsabilidade, naquela ocasio foi destrudo pelo fogo o templo da 
Grande Me dos deuses. Era um venervel santurio e tal ao mpia despertou muita 
incredulidade e inquietao.

"Foi o comeo de todos os males", escreve Herdoto que, sendo filho de pai grego e me 
asitica, tinha a mente aberta e tambm compreendia as razes de quem no falava grego e 
no adorava os doze deuses do Olimpo. Enquanto isto, embora a duras penas, o Grande Rei 
conseguira reatravessar o Danbio com o seu exrcito, alcanar a margem meridional 
guarnecida pelo fiel Istieu e estava agora se aproximando a marchas foradas para punir o 
traidor Aristgoras e sufocar a rebelio dos jnios. O choque decisivo deuse no mar, nas 
guas da ilhota de Lade bem em frente da baa de Mileto, e acabou sendo um desastre para 
os aliados. Herdoto quase parece rir com sarcasmo ao falar dos mercadores e dos 
burgueses de Mileto que, sentados aos remos, ficaram logo com as mos cheias de bolhas e 
no souberam acompanhar o ritmo da voga.

A cidade foi tomada e incendiada sem piedade, os rebeldes foram presos e sumariamente 
executados, as jovens mais lindas foram destinadas ao harm do Grande Rei, enquanto os 
rapazes mais bonitos foram castrados para se tornarem eunucos no mesmo serralho; a 
populao inteira foi desterrada para o interior da sia. Quando tudo acabou, Dario quis 
saber quem ajudara os seus sditos a se rebelarem contra a sua autoridade.

- Os atenienses - foi a resposta.

- E quem vm a ser estes atenienses? - teria perguntado Dario, ao mesmo tempo surpreso e 
indignado. Mas a coisa parece muito improvvel uma vez que tinha um hspede ateniense 
no seu prprio palcio, Hpias, o ex-tirano da cidade, que s esperava voltar para l todo-
poderoso, mesmo que fosse com o cargo de strapa da Prsia. De qualquer maneira, 
continuando com o relato de Herdoto, Dario teria mandado um seu subalterno repetir todos 
os dias, no seu ouvido, "Rei, lembre-se dos atenienses", uma maneira como outra para dizer 
que Dario no gostara nem um pouco da interveno ateniense na sia, que a considerava 
uma intolervel ingerncia nos seus negcios internos e que tencionava tomar medidas 
drsticas para punir os culpados. Enviou ento um exrcito para a Trcia apoiado por uma 
frota a fim de tentar uma invaso pelo norte. A notcia caiu como um raio em Atenas e, com 
ela, espalhou-se o medo. No fazia muito tempo que um jovem poltico chamado 
Temstocles, que em pouco tempo estaria na boca de todos, apresentara na Assemblia uma 
proposta para destinar um fundo especial  fortificao do Pireu, que se prestava a tais obras 
muito melhor do que a ampla e desguarnecida baa do Falero. Os cidados aprovaram a 
moo e na certa no iriam se arrepender.

Estvamos agora em 492 e neste ano um poeta trgico chamado Frnico



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apresentou uma tragdia intitulada A tomada de Mileto, na qual se encenava o martrio da 
cidade jnica pelos persas. O impacto no pblico, talvez no acostumado a ver tragdias que 
representavam fatos reais, foi devastador. Tanto assim que as autoridades atriburam o 
primeiro prmio ao autor, mas o multaram "por ter lembrado coisas desagradveis aos 
cidados" e proibiram reprisar a pea no s em Atenas como na tica inteira. Este exemplo 
de censura aplicado por um regime democrtico merece alguma reflexo: evidentemente os 
magistrados atenienses receavam mais os perigos decorrentes de comportamentos 
irracionais da opinio pblica, do que problemas de ordem moral como acontece com as 
democracias modernas. A pornografia, por exemplo, ou at a mera representao da 
sexualidade e do nu, rigidamente regulamentadas pelas nossas autoridades, parecem no ter 
incomodado minimamente os antigos atenienses. Justamente nesse perodo a pintura 
cermica mostra-nos cenas de simpsio muito ousadas, com prticas sexuais explcitas e 
extremas. H quem interprete este fenmeno como uma forma de compensao para os 
aristocratas que procuravam encontrar no mbito particular as satisfaes que as novas 
instituies democrticas agora lhes negavam no pblico, mas  provvel que a prpria 
democracia estimulasse os artistas a buscarem a liberdade at neste campo.

Felizmente para os gregos, o exrcito persa foi dizimado pelos trcios e a frota naufragou 
nos recifes do monte Atos. A humilhao foi imensa e Dario resolveu tentar de novo dois 
anos mais tarde com uma expedio via mar que desembarcaria o exrcito invasor 
diretamente nas terras da tica.

A frota partiu na primavera de 490 a.C. sob o comando do almirante persa Dtis, deixando 
um rastro de sangue e morte por onde passava. Ertria foi tomada de surpresa e arrasada; 
depois a esquadra virou para o sul, dirigiu-se para a tica e atracou num local desabrigado 
que o povo chamava de "campo do funcho silvestre", e que nos milnios seguintes ficaria 
famoso como smbolo da luta de homens livres contra a tirania do invasor estrangeiro: 
Maratona. Era o mesmo lugar onde, muitos anos antes, Pisstrato desembarcara de volta do 
seu exlio em Eubia, e quase certamente deve ter sido Hpias, presente ao lado das tropas 
persas, quem aconselhou o local para o desembarque.

Atualmente h ali uma pequena cidade com uma praia muito freqentada, e o antigo tmulo 
dos atenienses cados em batalha est cercado de canteiros de flores, hotis e restaurantes; 
mas naquela longnqua primavera de
490 era um areai descampado com somente alguns casebres de pescadores. A frota persa 
fundeou, os soldados desembarcaram, puxaram os navios para a areia e ento acamparam 
sem dar sinal de querer sair dali to cedo. Talvez Dtis no tivesse vontade de embrenhar-
se nos terrenos montanhosos do interior para no se expor inutilmente ao risco de ciladas: a 
experincia da


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desastrosa expedio por terra de 492 ainda era uma ferida aberta, e achou melhor esperar 
que os atenienses dessem o primeiro passo.

Enquanto isto, estes ltimos j estavam a par da sorte infeliz que coubera aos eretrienses e 
sabiam que o exrcito persa estava acampado em terras ticas a dois dias de marcha da 
cidade. Enviaram a Esparta um corredor famoso chamado Filpides, que percorreu a 
distncia entre as duas cidades em apenas dois dias, com um desesperado pedido de ajuda. 
Os espartanos disseram que iriam intervir, mas no antes da celebrao das festividades de 
rtemis rtia que s aconteceriam no plenilnio. Desconsolado, Filpides voltou com a 
decepcionante resposta da mais poderosa cidade da Grcia e tambm contou uma estranha 
histria: enquanto corria para Esparta aparecera diante dele o deus Pa. Urna alucinao 
talvez devida ao grande desgaste, ou quem sabe algum cabeludo pastor vislumbrado perto 
de uma nascente? Nunca saberemos, mas os atenienses acharam por bem construir mais 
tarde, no sop da acrpole, um pequeno santurio ao deus Pa para lembrar o fato.

Atenas estava s: somente a pequena Platias, cidade limtrofe em territrio becio, 
respondeu ao chamado alinhando dois mil soldados ao lado dos dez mil atenienses. 
Considerando um homem vlido para cada quatro habitantes, e que mais uns seis ou sete mil 
homens haviam ficado para presidir a cidade, podemos concluir que Atenas e a tica tinham 
ao todo de sessenta a setenta mil habitantes: nada em comparao com os trinta ou quarenta 
milhes que com toda probabilidade povoavam o imenso imprio persa, nica superpotncia 
do mundo de ento, que alm do mais j mantinha relaes no Ocidente com os 
cartagineses e talvez tambm com os etruscos, que mais tarde se tornariam seus aliados.

O responsvel pelas atividades militares, o arconte polemarco Calmaco, reuniu o colgio 
dos estrategos. Provavelmente apresentaram-se armados da cabea aos ps, como era 
costume no caso de alerta mximo, para ouvir as propostas do governo da cidade e dizer o 
que pensavam. Entre eles estava Milcades, de volta do Quersoneso trcio depois da derrota 
dos pisistrtidas, o nico a saber alguma coisa acerca dos persas e da sua maneira de lutar. 
Era um aristocrata, um senhor que dominava com absolutismo o seu principado na Trcia, e 
isto demonstra o prestgio e a considerao de que ainda gozavam os nobres em caso de 
guerra, mesmo depois da constituio de Clstenes. Afinal, havia sido ele quem sugerira que 
Istieu derrubasse a ponte sobre o Danbio e deixasse o Grande Rei entregue  sua sorte nas 
estepes cticas.

Milcades tinha idias muito claras: era preciso chegar quanto antes a Maratona e acampar 
bem em frente dos persas para prevenir qualquer movimento deles e impedir que se 
provessem de mantimentos. Ele foi to determinado que os demais generais desistiram do 
revezamento dirio no coman-



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do em seu favor, para que o companheiro pudesse levar adiante o seu plano de batalha.

As tropas atenienses chegaram  plancie de Maratona, acamparam a meia milha de 
distncia das foras persas e a os dois exrcitos ficaram um diante do outro, estudando-se 
sem ousar tomar a iniciativa. Os soldados de Atenas e Platias eram doze mil ao todo, 
enquanto nas palavras de Herdoto os persas somavam cem mil, mas quase ningum 
acredita que de fato pudessem ter trazido por mar um contingente desse tamanho: uma 
estimativa mais razovel poderia ser de uns trinta ou quarenta mil homens, de qualquer 
maneira uma superioridade esmagadora.

Preocupado com as dificuldades de suprimento do seu exrcito que tinha as montanhas atrs 
de si, e achando que os espartanos, mesmo que viessem, jamais chegariam a tempo, 
Milcades decidiu tomar a iniciativa. Reuniu o estado-maior e explicou o que tinha em 
mente: uma verdadeira loucura. Sabia que o ponto forte do exrcito inimigo eram os 
inmeros arqueiros que, com seus arcos de curvatura dupla podiam soltar em parbola 
enxames de dardos com mortferas pontas de ferro. Se os persas conseguissem manter as 
formaes gregas a distncia durante bastante tempo, as baixas iriam ser muito pesadas: 
menos da metade dos guerreiros chegariam a ter contato fsico com o inimigo. Era 
absolutamente necessrio superar correndo o espao crtico ao alcance dos arcos inimigos, 
de forma a tornar mnimo o tempo em que estariam expostos aos mortais enxames de 
flechas dos arqueiros persas.

Fcil de dizer: na verdade significava superar em disparada e sem romper a formao 
duzentos metros sob o peso de uma armadura completa (cerca de trinta e cinco quilos de 
ferro, bronze e couro), chegar ofegante ao embate com o inimigo esperando no ter 
esgotado as melhores energias, e a engalfinhar-se num corpo-a-corpo que se anunciava dos 
mais furibundos. Os hoplitas atenienses e gregos em geral estavam habituados a praticar o 
hopldromos (a corrida com o escudo), uma especialidade atltica que tambm se disputava 
nas olimpadas e que tinha a finalidade de acostumar os jovens com o peso do grande 
escudo que, sustentado pelo brao esquerdo, desequilibrava o baricentro do guerreiro para 
aquele lado.

Provavelmente Milcades alinhava em suas fileiras somente os jovens na flor da idade e do 
vigor, enquanto os mais velhos haviam ficado para presidiar as muralhas da cidade, e podia 
ento contar com este vio atltico para a estratgia que tinha em mente. Sabia muito bem, 
com efeito, que a infantaria persa dava o melhor de si na luta a mdia distncia, mas que no 
corpo-a-corpo no iria agentar o impacto da avalanche de bronze e ferro da falange 
hopltica. Foi assim que na madrugada do oitavo dia as sentinelas despertaram alguns 
guerreiros em voz baixa e a, passando a palavra sem


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rudos, sem toque de cometas, a tropa inteira acordou. Todos consumaram a primeira 
refeio de p e em seguida alinharam-se em suas posies. A palavra de ordem passou de 
homem para homem, de fileira para fileira. Os olhos de todos fixaram-se no brao levantado 
do comandante supremo,  espera do sinal de ataque, naqueles longos momentos em que 
cada um pensava na esposa e nos filhos e tentava juntar todas as energias fsicas e psquicas 
preparando-se para ficar cara a cara com a morte.

Ao sinal do chefe, a falange avanou a passo, como um todo, e a, a uns duzentos metros do 
inimigo, comeou a correr, cada vez mais rpido enquanto o ar se enchia do estrondo das 
armas. O impacto foi pavoroso: o muro de escudos metlicos chocou-se com as postaes 
persas com extrema violncia e empurrou-as para trs. O armamento leve dos irnicos, que 
usavam escudos de vime e coletes de couro, no agentou o embate a curta distncia contra 
as armas pesadas dos hoplitas de Atenas e de Platias, e as tropas de Dtis comearam a 
recuar para a linha da praia deixando inmeros mortos e feridos no caminho. Finalmente, 
tomados de pnico, os soldados persas procuraram em massa refgio nos navios.

Herdoto conta incrveis episdios de herosmo, como aquele de um guerreiro ateniense 
chamado Cingiro que, pendurado na popa de um navio, procurava iar-se a bordo. Uma 
machadada amputou-lhe a mo, mas ele conseguiu mesmo assim pular para dentro e jogar 
para o mar os inimigos empurrando-os com o escudo. O arconte polemarco Calmaco 
morreu em combate com cento e noventa e um dos seus soldados, mas o tributo de sangue 
pago pelos persas foi muito maior. Nesta altura Dtis pensou numa ao de contra-ataque e 
ordenou que levantassem velas para o Pireu. A cidade s era defendida por um pequeno 
presdio de reservistas enquanto o grosso da tropa ainda estava em Maratona. Alm do mais, 
ao verem aparecer a frota persa, os atenienses iriam certamente pensar que a batalha havia 
sido perdida, que a sua melhor juventude havia sido ceifada, e que agora s lhes restava 
pedir rendio.

Milcades percebeu logo que, a no ser que informasse imediatamente o seu governo, a 
vitria conseguida no campo de batalha podia tornar-se v devido  astuciosa manobra do 
inimigo. Chamou Filpides, o corredor, e mandou-o de volta  cidade para avisar que no se 
rendessem de forma alguma, pois o seu exrcito havia vencido e estava prestes a chegar.

Depois de ter lutado ao lado dos companheiros a manh inteira, Filpides despiu as armas e 
saiu correndo em direo a Atenas. Uma boa parte do caminho era entre ngremes colinas, 
mas o jovem sabia que a salvao da cidade estava em jogo. Chegou ao entardecer, gritando 
com as suas ltimas foras "Nike! Nike!" (Vitria! Vitria!) e tombou ao cho sem vida, 
vencido pelo esforo sobre-humano. A cidade fechou as portas e reforou os



79

postos de guarda, e quando a frota de Dtis entrou na enseada, o almirante persa percebeu 
logo que a vantagem da surpresa com que contava havia desaparecido. Os atenienses 
sabiam que haviam vencido e estavam prontos a repelir qualquer ataque. No teve outra 
escolha a no ser voltar atrs e enfrentar a ira do seu soberano. Os espartanos chegaram 
quando a batalha j havia acabado e tomaram o caminho de volta sem nem mesmo 
desembainhar as espadas. Filpides percorrera em poucas horas mais de quarenta 
quilmetros: a cada quatro anos o seu sacrifcio  lembrado nas olimpadas modernas quando 
atletas de todos os cantos do mundo competem na mesma distncia percorrida por ele em 
busca do reconhecimento mais prestigioso e cobiado, o de corredores "maratonistas".


4 de julho de 1999

_ Voc sabia que eu estava em Maratona quando Marnatos desencavou o tmulo dos 
plateienses? - Kostas ficou emocionado ao ler a batalha de Maratona e estava agora 
segurando a velha edio de Herdoto que usava na escola.

- E por que estava l?

-A prefeitura de Atenas estava muito interessada naquelas novas escavaes, e eu tambm 
pensava que os plateienses deviam ter sido enterrados em algum lugar no muito longe dali. 
E voc, j esteve em Maratona?

- No mesmo ano em que a gente se conheceu, e depois voltei uns oito, dez anos atrs, no 
lembro mais, justamente para ver a escavao de Marnatos.

- Marnatos j morreu, no ?

- Sim, e Andrnikos tambm j se foi, o arquelogo que encontrou o tmulo de Filipe em 
Vergina. Dois grandes arquelogos, que nada tm a invejar aos maiores do passado.

- O que  que vocs sentem ao segurarem nas mos os ossos de homens que fizeram a 
histria?

- Depende. Os arquelogos no so diferentes de todos os demais pesquisadores. Alguns 
pensam prncipalmente no que vo ganhar em termos de prestgio, de carreira, de 
reconhecimentos internacionais, e h outros que so tomados por emoes muito fones. 
Lembro que j vi um colega chorar comovido. Mas so poucos.  preciso manter-se jovem 
e de alguma forma ingnuo para ainda sentir emoes. Muitos acham que um verdadeiro 
cientista no se deixa levar pelos sentimentos, mas no meu entender esta atitude s pode 
ocultar pobreza de esprito.

- Tambm acha. Sabia que a minha albanesa foi-se embora?

- Embora para onde ?

- Embora, talvez de volta para casa



81

- Ficou sozinho? Precisa de alguma coisa?

- No. Antes de ir embora encontrou uma substituta, uma garota kosovara bastante esperta. 
Sabe de uma coisa? Hoje mesmo pensei naquela marca de sapatos esportivos...

-Nike.

- Ela mesma. Tiraram o nome do grito de Filpides.

- Eu sei. Mas agora pronunciam "Naike", do jeito americano.

- Nem me fale... At os gregos pronunciam assim!

- E os italianos tambm.  o que chamam de colonizao cultural. A palavra  nossa, mas s 
nos parece digna de ser pronunciada se voltar transformada e distorcida numa lngua 
estrangeira que nos parece mais prestigiosa, mais internacional...

- Naike... coitado do Filpides.

- Pois , coitado do Filpides. Tchau, Kostaki.


v

SALAMINA

Como todos fazem quando esto prestes a enfrentar alguma coisa considerada impossvel, 
os atenienses tambm haviam feito uma promessa  sua deusa protetora: se vencessem a 
batalha, sacrificariam uma cabra para cada inimigo morto. Mas, uma vez que no dispunham 
de tantos milhares de cabras, decidiram prorrogar o pagamento  deusa e por um 
determinado perodo sacrificaram-lhe quinhentas cabeas por ano no dia de uma festividade 
particular, e tambm remediaram a sua falta de considerao para com o cabeludo Pa que se
queixara com Filpides, erguendo-lhe um templo na acrpole.

A batalha de Maratona tornou-se um acontecimento memorvel: o valor dos que l lutaram
virou um exemplo. Podemos imaginar facilmente como os guerreiros foram recebidos na 
volta pelos seus concidados, pelas tribos, pelas fratrias e pelas suas famlias. Cada um deles 
tornou-se um heri e j mencionamos como o poeta Esquilo, que lutou contra os persas, quis 
que a laje tumular lembrasse a sua participao naquela batalha campal antes que a sua 
glria como poeta trgico.

Uma cidade, sozinha, humilhara em campo aberto as foras do maior imprio de todos os 
tempos, que de fato ia da Macednia at o Indo. Podemos at pensar,  claro, que Dario 
tinha subestimado a determinao e o valor dos seus adversrios, mas o resultado no muda.

Os cento e noventa e dois atenienses mortos foram cremados no local, uma honra imensa 
que s raramente era concedida, e sobre as suas cinzas ergueu-se um tmulo que pode ser 
visto at os nossos dias. O mesmo aconteceu com os plateienses, cujo tmulo foi encontrado 
h no muitos anos pelo arquelogo grego Marinatos. Milcades pediu que o governo da 
cidade erguesse uma estrela comemorativa de mrmore em sua homenagem como 
lembrana da sua vitria contra os persas. Responderam-lhe que isto certamente seria feito 
se ele tivesse ganho a batalha sozinho: uma resposta que deixa entender at que ponto o 
esprito igualitrio tpico das democracias estava arraigado na sociedade ateniense. Mas 
Milcades era e continuava sendo um aristocrata, e procurou outros caminhos para afirmar o 
seu prest-


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eio- pediu e conseguiu uma frota para uma expedio punitiva contra Paros. O pedido foi 
aceito sem maiores objees, mas, na verdade, embora se possa ver na manobra de 
Milcades a inteno de castigar as ilhas que haviam abrigado presdios persas tornando-se 
desta forma uma ameaa para o povo da tica, aquilo tudo no passava de um verdadeiro 
ato de pirataria

 1CQ empreendimento foi um fracasso total: talvez faltasse o fator surpresa ou ento a 
experincia nas tcnicas de cerco; acontece que depois de seis semanas Milcades foi ferido 
e forado a levantar o stio. Ao voltar a Atenas foi processado e condenado a pagar uma 
multa enorme: cinqenta talentos. Para termos uma idia do absurdo desta quantia, basta 
pensar que mesmo no perodo do seu maior esplendor - quando chefiava a liga de Delos - o 
tesouro da cidade somava quatrocentos talentos. . , .

Apesar das suas posses no Quersoneso e de ser o genro de um rei tracio, no conseguiu 
pagar e foi ento jogado na cadeia, onde morreu, talvez devido aos ferimentos sofridos. 
Desconhecemos o motivo de um tratamento to duro e severo, mas pode ser que o povo 
ateniense que proferiu a s^tena estivesse a par de coisas a respeito da expedio que ns 
ignoramos. U limo de Milcades, Cmon, ainda era um rapazola quando herdou aquela 
enorme dvida e tentou tomar conta do melhor jeito possvel da irm Elpmice, mas era to 
pobre que no podia conseguir-lhe uni dote  altura. A jovem era realmente linda e a 
convivncia dos dois provocou muitas fofocas maldosas- contavam que eram amantes, e 
Plutarco chega a dizer que, segundo alguns testemunhos, Elpinice, no podendo aspirar a 
um casamento digno da sua posio, preferiu casar oficialmente com o irmo, coisa alias 
permitida pela lei ateniense.

As duas notcias no parecem ser l muito confiveis: o que por sua vez sabemos com 
certeza  o fato de ambos terem sido muito bonitos e providos de irresistvel fascnio. 
Cmon, de temperamento rude mas franco, era alto, atltico, com uma grande cabeleira 
negra e encaracolada, e gostava das mulheres, com as quais alis tinha bastante sucesso. 
Acabou casando com Isodice, uma bisneta de Clstenes, tornando-se assim parente dos 
alcmeomdas. Tudo indica que foi um grande amor e, quando ela faleceu, o rapaz caiu no 
mais profundo desespero. Segundo outras indiscries que chegaram ate ns do mundo 
antigo, Elpinice teria sido a amante de Polignoto, o maior pintor da poca, e talvez at seu 
modelo. Os mexericos diziam que o rosto de uma das heronas da guerra de Tria 
representada por Polignoto no prtico Pecile ("enfeitado") era na verdade o de Elpinice. __

Grandes mudanas aconteceram nessa poca na cidade. A produo cermica teve uma 
expanso extraordinria graas a pintores de vasos de excepcional talento, tais como 
Esmicro e Eufrnio; nas suas criaes ainda



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podemos perceber a rivalidade entre os dois graas a uma srie de aluses e alfinetadas 
satricas que aparecem na forma de curtas frases atribudas aos personagens pintados e que 
tornam a coisa toda parecida com uma histria em quadrinhos. Toda a viso plstica da arte 
sofreu uma transformao: foram abandonados os modelos estticos da poca arcaica em 
prol de composies mais dinmicas. O Efebo de Crtio, por exemplo, embora mantenha a 
coroa arcaica de caracis todos iguais em volta da testa, possui uma moldagem de massas 
musculares macia e delicada, e o apoio sobre a perna esquerda proporciona ao seu corpo 
uma harmoniosa leveza totalmente nova no que diz respeito  tradio dos kouroi, sempre 
representados de frente, de braos rgidos e esticados ao longo do corpo, de punhos 
fechados, sorriso estereotipado nos lbios e olhos exageradamente arregalados.

Tambm desapareceu, nessa poca, o hbito de os aristocratas construrem imponentes e 
caros simulacros para os tmulos dos seus mortos, e pode ser que esta tenha sido mais uma 
conseqncia do aparecimento da democracia. Os rostos das esttuas passam a expressar 
sentimentos verdadeiros, como no caso dos guerreiros representados no fronto do templo 
de Afaia em Egina. Quem viu estes grupos na Glyptothek de Munique no pode esquecer a 
expresso de esgotamento e dor no rosto do guerreiro moribundo na ponta direita do fronto 
oriental, ou a dramtica postura do seu companheiro que, na outra ponta, se apoia 
agonizante no escudo. So representaes de uma intensa e dolorida conscincia da morte 
que, se por um lado relembram a tradio herica e aristocrtica devido aos temas 
apresentados, por outro refletem a individualidade humana com uma participao at ento 
desconhecida, o que  sinal de uma evoluo cultural que se expressava de vrias formas e 
por meios diferentes, mas que tendia sem dvida ao desenvolvimento da dignidade e da 
personalidade do indivduo.

 bem verdade que a nossa viso da escultura antiga em mrmore  um tanto distorcida pelo 
fato de estarmos acostumados a v-la toda branca, enquanto originalmente era pintada em 
cores muito vivas. No podia ser de outra forma: o brilho da forte luz mediterrnea sobre 
superfcies brancas teria criado reflexos ofuscantes e amortecido a unidade dos volumes e 
das formas. Mas um observador moderno, j acostumado  brancura do mrmore na luz 
discreta dos museus e  fascinao dos fragmentos, ficaria provavelmente chocado ao ver as 
esttuas do fronto de um templo grego no triunfo das suas cores originais. Precisamos 
contudo confiar no gosto dos gregos e aceitar a idia de que os seus templos eram lindos 
exatamente do jeito imaginado pelos seus criadores.

Nesta poca o teatro tambm teve um notvel desenvolvimento. A tragdia evoluiu para 
formas mais complexas, com um maior nmero de atores em cena e com representaes de 
grande intensidade emocional, en-


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quanto se aperfeioava um gnero que teria muito sucesso junto ao pblico e um grande 
impacto sobre a vida poltica: a comdia. As origens da palavras so at hoje motivo de 
controvrsia. H quem diga que vem de komodia ("canto da aldeia"); outros, de "canto do 
komos", a dana ritual dionisaca, coisa no muito provvel, uma vez que as representaes 
aconteciam principalmente durante as Grandes Dionisacas (as festas em honra do deus 
Dioniso ao qual era dedicado um bonito teatro na encosta meridional da acrpole). Seja 
como for, a comdia tinha uma conotao debochada e at obscena tanto no dilogo quanto 
na caracterizao dos atores, o que no escandalizava nem um pouco os sacerdotes do deus 
sentados na primeira fileira. Este seu esprito, no mnimo mordaz, condizia perfeitamente 
com a stira poltica, de forma que muitos lderes pblicos de primeiro escalo tiveram de 
acostumar-se com as troas que os escarneciam no palco, sem recorrerem a qualquer tipo de 
censura a no ser em casos muito raros.

A paixo dos atenienses pelo teatro tornou-se incontida: nas Dionisacas, os espetculos 
comeavam de manh e acabavam ao anoitecer, durante vrios dias sem parar, e o povo 
trazia consigo o almoo e s vezes at o jantar para comer nas arquibancadas. No 
encontramos vestgios de mictrios nos teatros gregos (como tampouco, alis, nos anfiteatros 
romanos, que eram bem maiores), e isto nos leva a crer que os espectadores saam vez por 
outra do teatro para satisfazer as suas necessidades. Em poca posterior as caractersticas da 
representao teatral seriam teorizadas pelos filsofos, mas a sua funo pedaggica e 
deliciosamente poltica foi logo percebida pelas autoridades e pelos polticos mais espertos. 
Eram eles que financiavam as encenaes e nomeavam os responsveis pelos coros e pela 
escolha dos atores. Pode ser at que tivessem alguma influncia na redao dos textos e na 
dramatizao: afinal, eles no eram muito diferentes dos produtores

de agora.

Os atores s podiam contar com a prpria voz e com a mmica do corpo, mas no com a 
expresso do rosto, sempre escondido atrs de uma mscara que se identificava com o 
personagem representado. Para ns modernos, acostumados a reparar em cada detalhe 
expressivo dos atores filmados em primeiro plano, esta maneira de representar parece 
inconcebvel, tanto assim que, quando tragdias antigas so reapresentadas nos teatros 
clssicos, os atores nunca recorrem ao uso de mscaras; mas naquele tempo os espectadores 
teriam considerado absurdo que personagens consagrados pelo epos - como Hrcules ou 
Teseu - mudassem de aspecto (com a troca dos atores) a cada apresentao, e que um ator 
emprestasse o seu rosto a personagens diferentes. Uma brilhante descrio da psicologia 
popular a respeito disto nos  fornecida por Garcia Mrquez em Cem anos de solido, em 
que se descreve o escndalo dos espectadores ao verem "ressuscitar" num



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filme um sujeito que haviam visto morrer em outro. E mesmo hoje em dia os produtores 
procuram recorrer sempre ao mesmo ator para interpretar o personagem de algum seriado, e 
s vezes o desaparecimento do ator tambm determina a morte do personagem, pois o 
pblico se recusa a aceitar um rosto diferente daquele ao qual se acostumou.

A felicidade e o orgulho por terem derrotado praticamente sozinhos os persas em Maratona 
iriam ser, para os atenienses, motivo de propaganda poltica durante muitos anos junto aos 
demais gregos, mas nos anos imediatamente seguintes  vitria eles viveram com o medo 
constante de uma segunda invaso. Se Dario tinha reprimido to duramente a rebelio j 
nia, como  que poderia engolir agora um sapo daquele tamanho? Egina, de qualquer 
maneira, continuava sendo uma ameaa, uma vez que entregara em sinal de submisso terra 
e gua aos embaixadores persas em 490 e detinha uma posio estratgica bem no meio do 
golfo Sarnico.

A coisa chamou a ateno at de Esparta, onde o rei Clemenes tentou convencer o 
governo a ordenar uma expedio punitiva contra os eginos. Provavelmente sentia na pele a 
frustrada participao em Maratona e queria reafirmar aos olhos dos gregos a imagem de 
Esparta como potncia protetora e hegemnica. A proposta encontrou a dura oposio do 
outro rei, Demarato; Clemenes corrompeu ento a Ptia Periala e ela vaticinou que o seu 
colega era bastardo, isto , filho de uma relao adulterina da me, e que portanto no era 
digno de reinar. Demarato partiu para o exlio e, assim como j havia feito Hpias, foi buscar 
asilo no palcio do Grande Rei. Mas o engano de Clemenes veio  tona: Periala foi 
escorraada do santurio e Clemenes foi destitudo. Chamado de volta por medo que 
organizasse um golpe militar, foi em seguida preso a mando dos foros com a desculpa de 
ter-se entregue  "moda brbara" de beber vinho puro e ter, por isto mesmo, ficado louco.

Os foros ordenaram que fosse acorrentado a uma coluna numa praa da cidade sob os 
olhares atentos de um hilota. O fim do valoroso rei espartano foi de gelar o sangue: certa 
manh, ao alvorecer, percebeu que o hilota tinha adormecido, pegou a faca que o escravo 
tinha no cinto e comeou a rasgar as prprias pernas do tornozelo  virilha, para depois 
cortar o ventre e tombar numa poa de sangue. Uma morte que mereceria uma meditao 
mais atenta, pois na certa esconde algum misterioso ritual (to estranhamente parecido com 
o haraquiri) com o qual o rei quis jogar na cara da cidade o seu sangue. Sucedeu-lhe o meio-
irmo Lenidas, enquanto Leotquides ficou no lugar de Demarato.

Atenas tampouco se manteve isenta de problemas internos: so destes


gg 

anos as notcias que Herdoto nos d a respeito dos primeiros ostracismos de pessoas 
consideradas "amigos dos tiranos", o que nos deixa pensar que Hpias ainda era vivo. Mas 
se for verdade que em Maratona bastou um espirro para que ele cuspisse um dente, j devia 
estar bem velhinho e bastante caqutico. O prprio Temstocles correu esse risco, numa 
votao que entretanto no alcanou o quorum. As escavaes arqueolgicas na agora 
forneceram-nos um bom nmero de cacos com o nome e o patronmico dele riscados no 
fundo negro: "Temstocles, filho de Neocles." Evidentemente a sua carreira poltica havia 
sido muito rpida e o seu poder crescera a ponto de suscitar aquele tipo de reao.

Enquanto isto, as obras de fortificao do porto e das docas do Pireu continuavam, at 
mesmo devido a ameaas bastante prximas, como a de Egina. O rei Dario no teve a 
chance de vingar a humilhao sofrida porque foi forado a cuidar de uma grande rebelio 
que estourou no Egito em 486 e quando morreu, logo a seguir, parece que as suas ltimas 
palavras no ouvido do filho Xerxes foram as famosas: "No se esquea dos atenienses."

E Xerxes no esqueceu. Logo que conseguiu dominar outra revolta, desta vez dos 
babilnios, aprontou a maior expedio que jamais se vira. Herdoto fala de cinco milhes 
de homens e de mil navios, o que na verdade soa um tanto exagerado, mas muitos 
consideram bastante realista o nmero de trezentos mil soldados, que para a poca  sem 
dvida nenhuma uma enormidade. Bem sabendo do desastre de Mardnio, o general que 
chefiara a primeira tentativa de invaso em 492, o imperador mandou cortar um canal na 
pennsula do monte Atos para que a frota pudesse evitar os recifes e ordenou a construo 
de uma ponte atravs do Bsforo que permitisse a passagem do gigantesco exrcito. A 
primeira tentativa foi um fracasso: parece que Xerxes usou duas equipes de engenheiros, 
uma fencia e a outra egpcia. A tcnica era a da ponte de barcaas, mais tarde comprovada 
em muitas travessias fluviais dentro do Imprio persa. Provavelmente puxaram os dois 
cabos-guias de uma margem para a outra rebocando-os com navios de guerra e ento 
esticaram-nos com guindastes atravs das caneluras de quatro roldanas, duas na sia e duas 
na Europa, fincando-os firmemente no cho. Prenderam, ento nos dois cabos esticados e 
paralelos as barcaas sobre as quais deitaram esteiras cobertas de terra. Mas a houve uma 
borrasca. O cabo de cnhamo tranado pelos fencios, ao molhar-se, encolheu muito mais do 
que o de papiro dos egpcios que, no entanto, ficou muito mais encharcado do que o de
cnhamo. Toda a estrutura desequilibrou-se e foi rapidamente destruda pela fria das ondas.

Xerxes mandou cortar a cabea dos engenheiros para que os seus sucessores fossem m^is
cuidadosos com os clculos e mandou chicotear o mar
1 IfW1 Proferidas estas palavras:

 89

O Grande Rei te inflige este castigo porque lhe causaste um grave dano sem dele ter recebido afronta
alguma. E por isto mesmo ningum te oferece sacrifcios,  desprezvel correnteza, turva e salgada.

A as obras recomearam. Desta vez estudou-se o movimento das correntezas - muito fortes 
no Bsforo - e foram instalados dois cabos duplos de cada lado, um de papiro e outro de 
cnhamo, a fim de balancear com perfeio os repuxos, e no comeo da primavera o imenso 
exrcito principiou a desfilar diante dos olhos do Grande Rei: persas, medos, babilnios, 
citas, partos, ircanos, indianos, egpcios, frsios, ldios, etopes e capadcios, um contingente 
como jamais se vira antes. Chegaram  Europa e os rios secavam com sua passagem, as 
cidades esvaam-se em sangue para alimentlos: a narrao de Herdoto assume tons picos 
ao descrever a sia inteira derramando-se como uma inundao sobre a pequena Grcia.

Os atenienses e os espartanos convocaram ento em Corinto um congresso das cidades 
gregas para decidir o que fazer, e desta vez tambm participaram os velhos inimigos de 
Atenas, os megarenses e os eginos. Enquanto isto, uns e outros consultaram o orculo de 
Delfos para saber o que podiam esperar; a resposta foi uma ducha fria: aos atenienses foi 
aconselhada uma fuga apressada, pois a fora invencvel dos medos iria destru-los e a 
pitonisa j podia ver os templos dos deuses molhados de suor diante da perspectiva de 
serem arrasados e queimados.

O desespero dos emissrios foi to grande que eles no se atreviam a voltar a Atenas e 
ficavam ali mesmo, nos degraus do templo, entregues ao terror e  mais completa aflio. 
Passou por l um sujeito e perguntou o que havia com eles. Ao saber da resposta, 
aconselhou que voltassem para dentro e ameaassem jejuar at a morte se o deus no lhes 
desse um orculo mais animador. E o vaticnio chegou: havia uma esperana de salvao 
desde que os atenienses construssem uma muralha de madeira. Herdoto tambm relata 
que na ltima parte do orculo havia uma referncia a Salamina, mas isto  um tanto difcil 
de se acreditar e parece mais um pressgio proferido com a sabedoria de quem j sabe o 
que aconteceu, isto , a vitria naval nas proximidades da ilha. Aos espartanos foi dito: 
"Quanto a vocs, habitantes de Esparta de largas ruas, ou seu alto penhasco ser pelos 
homens persas conquistado ou, se isto no se der, tero de prantear a morte de um rei da 
estirpe de Heracles." Como se dissesse que se os persas no ocupassem a cidade, teriam 
mesmo assim de lamentar a perda de um dos seus reis.

Aqui tambm a primeira parte do orculo  a mais verossmil, enquanto a segunda parece ter 
sido difundida aps a morte de Lenidas nas Termpilas. O ponto firme sobre o qual no 
podemos ter dvidas  que o


Q 

orculo de Apoio desencorajava com firmeza a resistncia contra os persas, como se tivesse 
tomado partido a favor deles. O Conselho que controlava o santurio, com efeito, era 
formado principalmente pelos representantes dos pequenos Estados tribais da Grcia 
central, os mais expostos a uma invaso persa, e no podemos descartar a hiptese de eles 
j terem comunicado ao Grande Rei a sua disponibilidade para um acordo.

Esta atitude do orculo representava um obstculo formidvel, muito difcil de ser removido. 
Pelo que nos conta Herdoto, em Atenas, Temstocles tinha resolvido o problema de forma 
brilhante interpretando a absurda resposta dlfica como uma exortao para construir uma 
frota (a muralha de madeira) e conseguira convencer a Assemblia a destinar os 
rendimentos das minas de prata do Laurion para a construo de cem trirremes: 
embarcaes com trs ordens de remadores inventadas pelos corntios e com um coeficiente 
de penetrao muito alto, o melhor que a tecnologia militar naval da poca tinha a oferecer.

Mas como convencer os gregos a lutar contra os persas se isto contrariava a vontade do deus 
Apoio? A nica soluo possvel era separar as responsabilidades do Conselho anfictinico 
da vontade do deus, e provavelmente foi mais uma vez Temstocles que criou uma 
verdadeira obra-prima poltica: os confederados juraram que depois de ganhar a guerra 
"aqueles que, embora sendo gregos, medizavam [estavam do lado dos medos, isto , dos 
persas] iriam ser dizimados em prol do deus de Delfos".

A mensagem era muito clara: por um lado desmascarava os Estados que escondiam o seu 
assentimento ao invasor atrs das palavras do orculo, por outro confirmava a fidelidade dos 
confederados ao deus de Delfos ao qual se prometiam as dzimas tiradas dos traidores. 
Nesta altura os representantes da Lcrida, da Fcida e da Drida, que tinham o controle da 
Anfictionia, ficaram encostados na parede e viram-se at forados a dar uma explicao. 
Responderam com um lance igualmente astucioso: mandaram dizer que estavam prontos a 
combater ao lado dos confederados, mas que no podiam fazlo sozinhos; ficariam bem 
felizes em juntarem as suas fileiras s dos outros, mas s se estes viessem defender os 
passos entre a Macednia e a Tesslia.

Sabiam que isto no era possvel e que nem mesmo os relmpagos de Zeus iriam tirar os 
espartanos das imediatas cercanias do Peloponeso. Os confederados tiveram de pelo menos 
ensaiar uma tentativa de ajuda, e mandaram um pequeno contingente, nada mais do que um 
grupo de explorao, ao qual s coube reconhecer a impossibilidade de defender os passos 
ao

norte da Tesslia.

Mas os problemas no acabaram por a: na hora de se definir a linha defensiva, os 
espartanos fincaram o p: no estavam dispostos a tirar um homem sequer do istmo de 
Corinto, a estreita faixa de terra que ligava a sua



91

"ilha" ao continente helnico, confiando que nenhuma fora no mundo poderia romper as 
suas postaes e que dali poderia partir a contra-ofensiva. Temstocles teve de chegar s 
raias da chantagem deixando pairar no ar a idia de que os atenienses, caso fossem levados 
ao desespero, poderiam at considerar outros ajustes.

A ameaa funcionou e os espartanos concordaram em fixar a linha de defesa nas 
Termpilas, uma estreita passagem entre o monte Eta e o mar da Grcia central, entre a 
Becia e a Tesslia. Nos dias de hoje o local seria irreconhecvel se no fosse pelo 
monumento que na dcada de 1950 trezentos espartanos emigrados para os Estados Unidos 
mandaram erguer s suas custas. O rio que por ali passa, com efeito, com os seus 
sedimentos empurrou a costa quase um quilmetro para trs. Ainda podem ser vistas, no 
entanto, as antigas termas que j no passado davam o nome ao lugar (literalmente: "as portas 
quentes").

Na verdade os espartanos continuaram a entrincheirar-se no istmo e s mandaram s 
Termpilas trezentos guerreiros. Tratava-se sem sombra de dvida de uma tropa de elite, 
destinada  guarda pessoal do rei, mas no passava mesmo assim de um punhado de 
homens. Juntaram-se a eles setecentos tespienses e cerca de sete mil aliados do Peloponeso 
e de outros recantos da Grcia.

Para conseguir este resultado no propriamente brilhante Temstocles teve de abrir mo do 
comando supremo da frota em prol do navarca espartano Euribades, mas na verdade o 
comandante real continuava a ser ele, pois sete oitavos da esquadra aliada eram formados 
por navios atenienses. Tambm foi pedida ajuda aos gregos das colnias, particularmente 
aos siracusanos, que j dispunham de uma frota numerosa. Mas o tirano deles, Glon, disse 
que s aceitaria se lhe fosse confiada a chefia suprema da frota confederada, e ento a coisa 
no deu em nada.

Para dar proteo a Lenidas do lado do mar, a esquadra tomou posio no canal de Euripo, 
entre a Eubia e a costa grega, e l travou o primeiro combate com a frota persa, perto do 
promontrio Artemsio, saindo vencedora.

O resto do relato de Herdoto  quase um poema pico, tanto assim que as vicissitudes dos 
trezentos nas Termpilas tm inspirado a literatura ocidental por mais de vinte e cinco 
sculos. O rei de Esparta manteve heroicamente a sua posio por muitos dias, rechaando a 
gigantesca mar do exrcito invasor at que um traidor, um tal de Efialtes, indicou aos 
persas uma senda que subia pelas montanhas at descer do outro lado, por trs das linhas 
gregas.

Quando percebeu que todos os caminhos  sua volta estavam bloqueados, Lenidas 
dispensou os aliados e ficou com os seus trezentos homens, aos quais se juntaram os 
setecentos tespienses que se recusaram a deixar o


92



rei de Esparta entregue ao seu destino. Parece que naquela noite Temstocles enviou um 
navio para proporcionar uma sada por mar aos seus aliados, mas Lenidas recusou: as suas 
ordens eram para manter aquele passo e no iria arredar p. Limitou-se a enviar a Esparta 
dois guerreiros (Herdoto legounos os seus nomes: Eurito e Aristodemo) com uma 
misteriosa mensagem da qual nunca chegamos a conhecer o contedo. Sabemos, porm, 
que logo se espalhou o boato de os dois terem feito de tudo para receberem o encargo e 
assim salvarem a sua vida, merecendo ento o escrnio de todos e as acusaes mais 
aviltantes. Um deles, tomado pelo mais negro desespero, acabou se enforcando numa viga 
da sua casa; o outro sumiu para reaparecer um ano depois no campo de batalha de Platias a 
fim de procurar a morte e resgatar a prpria honra aos olhos dos companheiros.

Quando os persas desembocaram no passo, encontraram os espartanos cuidando dos 
cabelos, um ritual com que se aprontavam para morrer. Embora cercado de todos os lados, 
no entanto, os guerreiros lacedemnios formaram um quadrado no topo de um pequeno 
morro e venderam muito cara a sua pele. Tanto assim que em certa altura Xerxes mandou 
recuar a infantaria e avanar os arqueiros, que ficaram atirando no pequeno contingente at 
~ acabar com o ltimo dos soldados de Lenidas. O corpo do rei foi degolado e crucificado, 
e a o exrcito de Xerxes invadiu a Grcia central.

Esparta pagara um preo muito alto em nome da causa comum, sacrificando um dos seus 
reis e trezentos dos seus melhores guerreiros: agora podia dedicar-se  defesa do istmo 
enquanto do lado do mar cabia aos atenienses desempenhar a contento o seu papel. No 
podemos afirmar que Lenidas e os seus tenham sido conscientemente sacrificados desde o 
comeo, mas a coisa no  totalmente impossvel. Plutarco conta que, ao partir para a 
misso, Lenidas disse  mulher Gorg (a mesma que, ainda menina, vimos brincar com o 
pai Clemenes): "Case com um homem bom e d-lhe

bons filhos."

Mais tarde, no tmulo dos trezentos, Esparta mandaria colocar uma

lpide com os dizeres:

Forasteiro, anuncia aos espartanos que ns aqui tombamos obedecendo s suas leis.

Segundo Ccero, estas palavras eram do poeta Simnides, o mesmo que depois comps uma 
lamentao intensamente comovida em honra deles.

Logo aps o massacre das Termpilas a Assemblia dos atenienses foi convocada para votar 
uma proposta dramtica. Sabendo que a cidade no pode-



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ria agentar um cerco que a esgotaria por terra e por mar, Temstocles pediu que os seus 
concidados abandonassem suas casas, embarcassem na frota e se retirassem para a ilha de 
Salamina, em cujas guas iriam enfrentar a frota persa. O debate deve ter tido tons 
intensamente trgicos: pela primeira vez a jovem democracia via-se diante da possibilidade
real da destruio do seu solo ptrio, tendo de tomar uma deciso ao mesmo tempo urgente
e aflitiva: valeria realmente a pena apostar tudo numa nica cartada, numa batalha naval
terrvel e aleatria?

Os atenienses enviaram as mulheres e as crianas para Trezena, na Arglida (que,  bom 
lembrar, era a cidade na qual se hospedara o menino Teseu), e embarcaram: abandonaram 
as casas nas quais haviam nascido, os templos dos deuses aos quais haviam oferecido 
sacrifcios nos dias de festa, e dirigiram-se para Salamina. Todos sem exceo, aristocratas e 
mercadores, artesos e operrios. Cmon, que entre os aristocratas era talvez o mais atento 
s tradies, subiu na acrpole e dedicou  deusa as rdeas e o freio do seu cavalo: um 
gesto muito significativo. Aqueles objetos eram os prprios smbolos da aristocracia e 
costumavam acompanhar o falecido quando as suas cinzas eram enterradas. Dedicando-os  
deusa queria dizer que a partir daquele momento j no havia "cavalheiros" e povo, mas sim 
apenas povo, e que todos eram chamados a lutar pela sobrevivncia de uma ptria que nesta 
altura se identificava com os seus cidados. A ele tambm embarcou, soltando 
provavelmente o cavalo nos campos para que no morresse de fome. Da mesma forma 
soltou o seu co que, porm, no quis abandonar o dono: quando viu que se afastava a 
bordo de uma trirreme pulou no mar, superando a nado o espelho d'gua entre a tica e 
Salamina e juntou-se a ele, morto de cansao, naquele extremo limiar de terra pedregosa 
que se tornara o ltimo baluarte da liberdade. Este episdio relatado por Herdoto deve ter 
certamente comovido e encorajado os fugitivos convencendo-os que, em Atenas, nem 
mesmo os cachorros estavam dispostos a aceitar a dominao do invasor.

Dos penhascos de Salamina os atenienses viram espessas nuvens de fumaa e sinistros 
clares tomarem conta da noite, enquanto as chamas se alastravam descontroladas pela 
cidade. Viram os templos dos deuses que ardiam como tochas no cu negro da tica. Para 
Xerxes era a vingana do templo da Grande Me queimado em Sardes pelos jnios e os 
atenienses. Para estes ltimos, era o fundo do poo da humilhao.

L pelo fim dos anos 50 um estudioso americano publicou uma inscrio encontrada em 
Trezena, na Arglida, que continha o decreto de Temstocles para a evacuao de Atenas. 
Mais tarde descobriu-se que o achado era falso, tendo sido quase certamente elaborado em 
meados do sculo IV a.C. a fim de reavivar o tema da luta dos atenienses contra os bar-


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baros no momento em que surgia a ameaa macednia. Mas o cuidado com o qual foi 
preparado e a verossimilhana que induziu ao erro inmeros estudiosos ilustres fazem com 
que valha a pena reproduzi-lo. Poderemos assim ter uma idia de como Atenas enfrentou a 
crise com as providncias mais apropriadas.

O conselho e o povo decidiram: Temstocles, filho de Neocles, do demo de Freares, props. Que se confie a 
cidade a Aten, protetora de Atenas, e a todos os demais deuses para que a protejam e mantenham o brbaro 
longe do pas. Que os prprios atenienses e os estrangeiros residentes em Atenas abriguem as mulheres e os 
filhos em Trezena sob a proteo de Piteu, heri e fundador do pas; que os velhos e os bens mveis fiquem 
ento a salvo em Salamina. Os tesoureiros e as sacerdotisas, que fiquem na acrpole guardando aquilo que 
pertence aos deuses; que todos os outros atenienses e os estrangeiros no vigor dos seus anos sejam 
embarcados nos duzentos navios preparados para este fim e lutem contra o brbaro na defesa da liberdade 
prpria e dos demais gregos, junto com os espartanos, os corntios e eginos e com quem mais quiser participar 
do perigoso empreendimento.

A partir de amanh, os estrategos indicaro duzentos comandantes de trir- reme, um para cada navio, 
escolhidos entre os proprietrios de bens imveis residentes em Atenas que tenham filhos legtimos e uma 
idade inferior a cinqenta anos, aos quais os navios cabero por sorteio. Alistaro ento dez soldados de 
infantaria naval para cada navio, de idade compreendida entre vinte e trinta anos, e quatro arqueiros; ao 
mesmo tempo em que se sortearem os comandantes de trirreme, tambm sero escolhidos por sorteios os 
marujos destinados  manobra de cada navio. Os estrategos tambm escrevero em tbuas brancas os nomes 
dos demais membros da tripulao de cada navio, baseando-se para os atenienses nos registros em que so 
inscritos os cidados, e para os estrangeiros nos nomes lanados no arquivo do polemarco; e isto ser feito 
para cada navio, para cada equipagem, dividindo os homens em grupos de cem sobre os quais haver o nome 
da trirreme e do comandante e dos marujos encarregados da manobra, para que cada equipagem saiba em 
que trirreme ter

de embarcar.

E depois de definirem as tripulaes destinadas por sorteio a cada trirreme, o Conselho e os estrategos 
completaro os quadros dos duzentos navios aps tributarem um sacrifcio propiciatrio a Zeus Onipotente, a 
Aten, a Nike, a Poseidon Protetor. Logo que o aparelhamento dos navios for concludo, cem deles 
acorrero em defesa do Artemsio da Eubia, enquanto os outros cem ficaro nos arredores de Salamina a fim 
de proteger o territrio do resto da tica. E para que, unnimes, todos os atenienses lutem contra o brbaro; 
aqueles que foram desterrados por dez anos tambm se dirijam a Salamina e l permaneam  espera de o 
povo decidir a seu respeito.

Enquanto isto, a frota persa composta de embarcaes fencias, egpcias e at jnias, superou o cabo Snio e 
entrou no golfo Sarnico deixando



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ostensivamente  mostra a sua esmagadora superioridade: cerca de quinhentos navios de 
guerra contra os trezentos dos confederados. Temstocles abrigara a frota dentro do estreito 
de Salamina, pois sabia muito bem que em mar aberto no teria a menor chance contra o 
nmero preponderante de barcos inimigos, mas mesmo assim as suas guarnies ficaram 
bastante impressionadas. Indecisa quanto  oportunidade de aventurar-se naquele estreito 
espelho d'gua, a esquadra persa parou ao largo enquanto, provavelmente, o seu estado 
maior tentava escolher a estratgia mais aconselhvel. Temstocles sabia o que estava 
fazendo, mas o medo serpejava entre os oficiais do alto comando: permanecer por ali queria 
dizer ficar bloqueados sem a menor possibilidade de fuga. Chegaram a pensar em rumar 
para o norte, a fim de encontrar uma sada atravs do canal de Mgara. Para fazer com que 
o seu plano prevalecesse, Temstocles enviou ento s escondidas um bote supostamente 
"traidor" que avisou o comando persa das intenes gregas de fugirem para o istmo de 
Corinto a fim de evitar o choque. Os persas deslocaram imediatamente a frota egpcia que 
deu a volta  ilha pelo lado oeste e bloqueou ao norte o canal de Mgara, enquanto o resto 
da esquadra avanava fechando a estreita passagem entre a costa tica e a ilhota de Psitalia.

Os persas fundearam por l e esperaram a noite toda sem que nada especial acontecesse.  
provvel que nem tenham percebido uma desero: um comandante da Jnia chamado 
Pencio, da ilha de Tenos, aproveitou as trevas e passou com o seu navio para o lado dos 
gregos. Herdoto, trinta anos mais tarde, leu o seu nome no trpode que os confederados 
dedicaram ao deus de Delfos, depois do fim da guerra, com os nomes de todos aqueles que 
haviam lutado contra os brbaros.

Mais um personagem foi anunciado no meio da noite a bordo da capitania da esquadra 
ateniense: era Aristides, "o justo", que havia sido exilado com um processo de ostracismo. 
Vinha de Egina e, deixando de lado os antigos rancores, informou que a frota persa tinha 
bloqueado ambos os lados do canal de Salamina. Aquilo era msica para os ouvidos de 
Temstocles, que no esperava outra coisa e logo tomou as providncias para o caso.

Naquele mesmo dia o imperador Xerxes havia mandado erguer um trono para si no topo do 
monte Escaramang para melhor assistir, no dia seguinte,  vitria da sua esquadra.

Ao alvorecer a situao estava bem clara na cabea dos chefes gregos, isto , que no lhes 
sobrava outra sada a no ser lutar, e o alto comando reuniu-se para ouvir o plano de 
Temstocles: uma obra-prima de estratgia que um complexo sistema de sinalizao entre a 
capitania e vrios pontos da costa iria coordenar. No fim da reunio, cada comandante 
retirou-se para a prpria unidade de combate e esperou pelo sinal de partida. A frota grega, 
que se alinhara perto da margem com a proa para o leste, zarpou ao raiar do


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sol e deslocou-se para o meio do canal. Enquanto isto, os megarenses e os eginos ficaram 
de tocaia um pouco mais ao sul, dentro da baa de Ambelaques, onde podiam se esconder 
atrs do promontrio de Cinosura que a fecha do lado meridional. Os corntos, com uma 
frota de cinqenta navios, dirigiram-se para o norte com velas desfraldadas a fim de proteger 
o resto da esquadra no caso de os egpcios chegarem por trs atravs do canal de Mgara. 
Isto deve ter convencido ainda mais os persas de que os gregos no tinham inteno de 
travar batalha: com efeito, quando estavam se preparando para a luta, as guarnies sempre 
amavam os mastros dos navios para que os remadores pudessem manobrar com mais 
rapidez.

O almirante fencio que estava no comando dos persas no teve mais dvidas e mandou a 
sua frota entrar no canal. A armadilha de Temstocles estava funcionando. A um sinal da 
capitania, os megarenses e os eginos saram do seu esconderijo atacando a esquadra jnia 
que foi forada a separarse do resto da frota para enfrentar o perigo que vinha do oeste. Os 
demais, no entanto, continuavam avanando no encalo dos navios gregos que recuavam 
para o norte at o ponto mais estreito do canal, entre a costa tica e

a ilhota de Farmacusses.

E ento Temstocles deu o sinal: um estandarte levantou-se na capitania, toques de cometas 
ricochetearam de um navio para o outro; os gregos inverteram a rota e lanaram-se em 
frente a toda velocidade, talvez alcanando uns nove ou dez ns. O impacto foi brutal e o 
fado quis que, por sorte dos gregos, o almirante fencio fosse um dos primeiros a tombar. Ao 
perceberem que naquelas guas e sem comandante a situao era-lhes desfavorvel, os 
fencios tentaram recuar para o mar aberto, mas se chocaram com os demais barcos persas 
que vinham do sul, criando a maior confuso. Para piorar as coisas, naquela altura levantou-
se um forte vento de siroco que empurrava os navios da retaguarda persa contra os fencios, 
que procuravam recuar.

As trirremes de Temstocles, esbeltas e velozes, lanaram-se no meio daquela balbrdia 
como lobos entre um rebanho de ovelhas, abalroando um depois do outro os pesados navios 
inimigos com seus espores. Ao verem isto, os jnios jogaram ao mar os seus comandantes 
persas e juntaram-se em massa aos irmos gregos. Ao entardecer o canal estava cheio de 
carcaas de barcos  deriva, de nufragos e de cadveres que a correnteza empurrava 
lentamente para o litoral da tica ainda guarnecido pelos seus companheiros. Do trono na 
montanha Xerxes s pde assistir impotente  runa da sua frota, e talvez o vento tenha 
levado at ele o eco do pe de vitria que vinha dos navios gregos.

Ferragosto* de 1999

Estou em casa, sozinho, esperando os amigos para o tradicional jantar de Ferragosto. Fico 
pensando que em Atenas deve estar fazendo um calor infernal e que no apartamento da 
Larisis 20 no h ar condicionado. Decidi chamar Kostas pelo telefone e, apesar de tudo, 
encontrei-o bastante animado e conversador.

- Como  que eles sabem que o documento para evacuar a cidade  falso? Pareceu-me 
perfeitamente autntico, e alm do mais realmente excepcional.

- Quanto a ser excepcional, no h a menor dvida, e tambm devo dizer que h quem 
defenda com todo o vigor a sua autenticidade.

- O que  que voc acha?

- Eu estou do lado daqueles que o consideram falso. Veja bem,  uma questo um tanto 
complicada: h motivos de ordem filolgica, conceptual e histrica.  linear demais, 
demasiado bem organizado. Contm conceitos, como o de eleutheria (liberdade), que 
naquela poca no existiam e que s se desenvolveram durante o sculo IV. E ai aquela 
referncia aos corntios, megarenses e espartanos parece um convite para uma aliana toda 
particular. Se o escrito fosse verdadeiro, isto , realmente daquela poca, mencionaria todos 
os aliados, e no s trs. E alm do mais deixa entender que a evacuao  coisa 
perfeitamente prevista e organizada, quase uma escolha estratgica, em vez de uma 
dolorosa necessidade como de fato foi. E h tambm outros indcios...

- J basta, confio em voc. Mas para que o truque, ento?

- Sabe como , objetos deste tipo eram muito importantes do ponto de vista da 
propaganda: ficavam expostos em lugares pblicos, as pessoas

* Do latim Ferae Augusti, feriado de Augusto, isto , de agosto. Festa pag com a qual se celebrava em 15 de agosto o vero europeu e que, 
cristianizada, sobreviveu at hoje. (N. do T.)


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passavam, acabavam lendo. Ora, se por exemplo Atenas se preparava para resistir a um 
exrcito macednio durante uma das muitas guerras que se seguiram  morte de Alexandre, 
tornava-se quase natural inventar um documento no qual se apresentava uma antiga aliana 
vitoriosa contra um precedente invasor como garantia de vitria tambm na situao 
presente. No sei se estou me explicando direito.

- Entendi muito bem. Gostaria de saber se documentos desse tipo chegaram realmente a 
influenciar a opinio pblica.

- Se os preparavam com todo esse cuidado e de forma to verossmil, ento quer dizer que 
influenciavam. Ningum trabalha em troca de nada. No havia televiso, nem rdio, nem 
jornais:  provvel que o impacto de uma inscrio pblica fosse muito maior do que 
podemos imaginar.

- Tambm lembrei-me daquela vez que voc e o seu amigo acabaram num polgono de tiro 
no Escaramang s porque queriam ver o lugar do

trono de Xerxes.

- Faltou pouco para eles nos acertarem. Sabe l onde deve estar agora aquele jovem tenente 
que nos tirou dali e nos ofereceu uma garrafa de Metax. Talvez tenha-se tornado um 
general. Como  que se diz "general" em grego moderno?

- Strategs.

- Claro. Tchau, Kostakis. At a vista.

- Tchau. Lembranas a todos.

VI

A LIGA NAVAL

O jbilo pela vitria foi imenso e logo surgiram em toda parte as histrias mais mirabolantes 
sobre quem tinha afundado o maior nmero de barcos inimigos, sobre quem tinha sido o 
primeiro a travar combate com as foras inimigas, mas tambm sobre quem procurara fugir e 
s voltara quando tudo havia acabado. Contaram que um comandante tico estava 
perseguindo um vaso inimigo quando este abalroou um navio persa, pondo-o a pique. O 
perseguidor deu ento meia-volta achando que devia se tratar de um dos barcos jnios que 
haviam desertado e passado para o lado dos gregos. Tratava-se no entanto de um navio 
aliado dos persas, um vaso sob o comando de Artemsia, mulher de um potentado da Caria, 
aliada de Xerxes e sua amante. Com este estratagema conseguiu livrar-se da captura, mas 
deixou os atenienses to furiosos que eles chegaram a oferecer um prmio pela sua cabea: 
achavam insuportvel o fato de uma mulher ter ousado atac-los numa ao militar. 
Artemsia, porm, acabou juntando-se ao resto da frota persa que se abrigara na baa do 
Falero onde foi dar com o Grande Rei prostrado e abalado com a inesperada derrota.

O outono j estava no ar e era preciso tomar uma deciso: Xerxes deixou a maior parte do 
exrcito invernando na Tesslia e rumou para os estreitos, antes que os gregos tivessem a 
idia de derrubar a ponte. Idia, alis, que j passara pela cabea de Temstocles, mas que 
no fora do agrado do alto comando espartano, que por sua vez achava melhor facilitar ao 
mximo o caminho do inimigo em fuga. Ao que parece, Temstocles teria ento enviado 
uma mensagem ao Grande Rei afirmando que havia sido ele quem convencera os gregos a 
no derrubarem a ponte, para que no futuro o monarca se tornasse seu devedor por no ter 
ficado enredado na pennsula helnica.

Esta afirmao de Herdoto parece ser mera maledicncia, mas no so poucos aqueles que 
nela acreditam: Temstocles j enviara ao Grande Rei uma mensagem que, do ponto de vista 
persa, tinha tudo para parecer verdadeira: por que ento no deveria parecer verdadeira esta 
tambm? Afinal, o lder ateniense sabia muito bem quo aleatria era a sorte de um homem 
na


100 

sua cidade, e como era fcil cair em desgraa. A possibilidade de encontrar abrigo, algum 
dia, junto do poderoso senhor da sia devia parecer-lhe uma boa medida de segurana 
contra qualquer infortnio. Mas tambm  possvel que esta notcia tenha sido criada a 
posteriori, quando de fato o fugitivo Temstocles encontrou refgio junto do rei Xerxes.

Na verdade uma tempestade j se encarregara da destruio da ponte, o que prova que a 
estrutura era de qualquer forma inadequada  situao climtica e  perigosa fora das 
correntezas daquele trecho de mar. Xerxes acabou atravessando os Dardanelos em navios 
de guerra, mas os cabos da ponte ficaram na Europa aos cuidados do strapa Artaozo, no 
caso de se apresentar a ocasio para uma nova tentativa.

Enquanto isto os atenienses voltaram para a sua cidade onde um espetculo desolador 
esperava por eles: as casas saqueadas e arrasadas, os templos dos deuses queimados, 
despojados e profanados, as esttuas derrubadas e despedaadas ou desfiguradas, as mais 
valiosas roubadas. Entre estas ltimas, o grupo brnzeo de Antenor que representava 
Harmdio e Aristogton, os dois tiranicidas. Um sculo e meio mais tarde, Alexandre, o 
Grande, encontrou-o no palcio de Susa e enviou-o de volta a Atenas num daqueles seus 
gestos tpicos que tinham um excepcional valor propagativo. Ao se recuperarem depois do 
saque, os atenienses encomendaram outro grupo, provavelmente ao escultor Crtio, que foi 
inaugurado trs anos mais tarde: uma cpia dele, em mrmore, pode ser vista no Museu 
Arqueolgico Nacional de Npoles, mas a posio das duas figuras, resultado de uma 
restaurao no sculo XVIII,  bastante duvidosa.

No  fcil imaginar direito como eles se sentiram ao voltar  cidade: de uma forma ou de 
outra era possvel dar um jeito nas casas, pelo menos para enfrentar o inverno, mas o que 
fazer com as lojas e as fbricas que haviam sido destrudas ou saqueadas, com os campos 
pisoteados, os animais domsticos mortos para saciar o apetite do exrcito inimigo? Azeite, 
vinho, trigo: tudo havia sido levado embora. Talvez tenham recorrido a emprstimos e a 
compras nos mercados adjacentes que haviam sido poupados pela guerra, talvez uma boa 
parte dos mantimentos tivessem sido enviados a Salamina antes da evacuao. Seja como 
for, o povo arregaou as mangas e recomeou tudo partindo de zero. Por si s, isto j pode 
ser considerado um ato de coragem e de incrvel confiana, uma vez que ainda havia um 
poderoso exrcito inimigo na Becia. As esttuas dos deuses e dos heris profanadas pelos 
persas na acrpole foram enterradas numa vala sagrada.

Aquilo que para os atenienses era uma obra de profanao, para os persas era, ao contrrio, 
a meritria destruio de simulacros dos demnios (daiw), e Xerxes gabou-se disto numa 
inscrio na parede do seu harm em Perspolis. Esta jactncia, entretanto, iria ser por sua 
vez duramente puni-



101

da por Alexandre, o Grande, que destruiu o prprio palcio real e a capital inteira.

No comeo do outono Temstocles enviou uma embaixada a Esparta solicitando que o 
exrcito confederado tomasse posio entre a tica e a Becia, mas o pedido foi recusado. 
Exaustos e desanimados, desta vez os atenienses no tiveram nimo para enfrentar de novo 
os persas sozinhos, como em Maratona, e, quando o exrcito inimigo virou para o sul com o 
apoio dos traidores tebanos, abandonaram novamente a cidade e buscaram refgio em 
Salamina. Os persas tentaram ento convenc-los a se aliarem a eles, mas s conseguiram 
uma desdenhosa recusa: os guerreiros que em Maratona tinham vinte anos estavam agora 
com trinta, e nada no mundo faria com que se desonrassem, nem mesmo a obtusa 
insensibilidade dos espartanos. As negociaes continuaram at algum conseguir que os 
coriceos lacnios entendessem que de nada adiantaria eles se entrincheirarem no istmo de 
Corinto se a frota ateniense no defendesse a costa e presidiasse o mar. Toda aquela 
inflexibilidade, portanto, no era conveniente: os espartanos acabaram compreendendo, e os 
persas acharam por bem retirarse para o norte e passar o inverno na Tesslia.

O filho de Lenidas, Plistarco, naquele tempo era ainda um menino e o governo nomeou 
ento um regente: o escolhido foi Pausnias enquanto, como j vimos, Leotquides havia 
substitudo Demarato. Os mensageiros dos reis lacedemnios percorreram a Grcia livre 
conclamando os guerreiros de todas as cidades e naes helnicas para a derradeira batalha 
contra o brbaro, e a resposta foi impressionante. Na primavera seguinte perfilou-se em 
Platias o maior exrcito grego de todos os tempos: quarenta mil hoplitas de armadura 
pesada mais sessenta mil homens de infantaria leve, alm de alguns esquadres de 
cavalaria. Praticamente todos os homens disponveis ao sul do passo das Termpilas.

O exrcito persa sob o comando de Mardnio desceu da Tesslia e acampou, j preparado 
para a luta, perto da fronteira da tica, enquanto bandos de cavaleiros percorriam os campos 
em contnuas aes de desgaste: Pausnias, que talvez tivesse confiado demais no grupo 
formidvel que conseguira juntar sob a sua bandeira, deve ter percebido logo que descer 
em campo aberto daquele jeito no havia sido afinal uma idia to boa.

Para piorar as coisas, os persas envenenaram a nascente Gargfia tirando assim dos gregos o 
acesso  gua potvel. O regente espartano tomou ento uma deciso bastante arriscada, 
mandando os seus homens recuarem para Platias, onde poderiam se postar em posio 
mais vantajosa. A tropa movimentou-se durante a noite, mas com os primeiros raios do sol os 
persas perceberam logo o que havia acontecido e soltaram a cavalaria que se precipitou 
sobre o exrcito em marcha, fustigando-o com nuvens de flechas. As


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tropas gregas, que durante a marcha se haviam dividido em duas partes, ficaram por isto 
mesmo numa situao ainda mais difcil. O primeiro contingente conseguiu de qualquer 
forma postar-se com firmeza perto das runas do templo de Hera em Platias, enquanto o 
grosso das foras de Pausnias foi forado a parar e ficar em formao de combate para 
deter o lento mas constante aumento do nmero de baixas provocado pela ao da cavalaria 
inimiga, muito rpida e precisa em seus ataques. O regente espartano mandou um pedido 
urgente ao outro grupo para que se juntasse a ele, mas eles responderam que no iriam se 
mexer: cabia a ele mesmo sair do problema e tentar alcanar uma posio mais defensvel 
nas proximidades do heraion. Pausnias, no entanto, no podia sair dali, pois estava 
perfilado diante do inimigo e formar fileiras para marchar seria naquela altura um verdadeiro 
suicdio. J certo da vitria, Mardnio preparou-se para desfechar o golpe decisivo. Sob o 
sol a pique que fazia derreter os soldados dentro das armaduras, o exrcito pan-helnico 
cerrou fileiras e segurou na horizontal as pesadas hastas de freixo. Atenienses e espartanos, 
cor itios e megarenses, junto com os demais contingentes de cada canto da Grcia, 
compactaram-se num bloco impenetrvel que se opunha ao ataque inimigo com uma 
muralha de escudos. Mardnio tinha esquecido, ou simplesmente removido da lembrana, 
Maratona e as Termpilas, e talvez no soubesse que as mes espartanas podiam aceitar um 
filho morto mas no fugitivo, nem se desse conta de que os atenienses jamais iriam querer 
ver a sua cidade invadida e

saqueada pela terceira vez.

Se o comandante persa tivesse insistido em sua ttica de mobilidade recorrendo 
principalmente  cavalaria, que podia sangrar lentamente o inimigo de longe, teria decerto 
vencido. Mas deixou-se tentar pelo embate a curta distncia e pelo corpo-a-corpo, e a sua 
infantaria, embora valorosa, esmigalhou-se contra a barreira impenetrvel de lanas e 
escudos. Contam que foi justamente nesta altura que um dos dois sobreviventes espartanos 
das Termpilas, do qual nada mais se soubera, reapareceu para resgatar a prpria honra e 
perecer no campo depois de distinguir-se "com atos dignos

de serem lembrados".

O prprio Mardnio foi mortalmente ferido enquanto tentava conduzir os seus homens ao 
ataque e o seu fim deixou o exrcito completamente desnorteado. As tropas gregas postadas 
perto do Heraion de Platias avanaram ento abrindo uma nova frente enquanto a cavalaria 
persa, agora sozinha, j no sabia como reagir diante da repentina mudana da situao.

O sol ainda lanava os seus ltimos raios quando os restos daquele que havia sido o maior 
exrcito de todos os tempos retiravam-se em pnico para os passos setentrionais, antes que 
o ambguo rei Alexandre II da Macednia,



103

que no comeo se mostrara favorvel a um entendimento com os persas, decidisse 
recuperar o apreo dos gregos, atacando-os no caminho de volta.

Pausnias entrou na barraca de Mardnio com os oficiais do seu estado maior e mandou os 
cozinheiros persas servirem o jantar, esquecendo desta vez a tradicional austeridade 
lacedemnia. Herodoto conta que ficou muito impressionado, chegando mesmo a afirmar: 
"Isto, sim,  que  vida!"

Agora que os persas haviam sido expulsos do solo grego, deu-se incio a uma cerimnia 
terrvel e solene: em todas as cidades que haviam cado sob o domnio do inimigo apagou-se 
o fogo sagrado que ardia perenemente na acrpole, aquele mesmo do qual os colonizadores 
tiravam os ties antes de partir para terras longnquas onde iriam fundar novas cidades, 
aquele mesmo que na imaginao popular havia acompanhado a comunidade desde o 
comeo, o presente que Prometeu havia roubado dos deuses. Esta tradio do fogo sagrado 
tinha as suas mais remotas razes no paleoltico, quando o fogo representava a sobrevivncia 
do grupo humano e a sua ausncia era sinnimo de morte e esquecimento. Apagar este fogo 
era como virar a pgina, como recomear do nada. E um novo fogo foi de fato consagrado 
em todas as cidades, ateado pela chama que ardia na presena do deus de Delfos. Dedicou-
se a Apoio Dlfico um trpode de bronze feito com a fuso das armas persas apreendidas em 
Platias, no qual estava gravado o nome de todas as cidades que haviam participado da liga 
sagrada. A sua base era formada pelas caudas de trs serpentes entrelaadas que subiam 
formando uma espcie de coluna, at as suas cabeas se afastarem para sustentar a bacia 
superior.

Quase oito sculos mais tarde aquele trpode foi levado, juntamente com outras gloriosas 
relquias, como o Paldio de Tria e os pregos da cruz de Cristo, para Constantinopla pelo 
imperador Constantino, para ser colocado no meio do hipdromo. S chegou at ns a parte 
inferior, em forma de coluna entrelaada, que pode ser vista na praa Sultan Ahmet, em 
Istambul. Esta coluna, que  quase o smbolo da identidade do Ocidente no seu primeiro 
enfrentamento com a sia, est agora exposta  intemprie sem qualquer proteo, e corre 
o risco de sofrer danos irreparveis.

Xerxes certamente no se dera por vencido e uma nova frota j estava se reunindo ao longo 
das costas da sia Menor, fosse para manter sob controle os gregos das colnias, fosse para 
retomar as hostilidades em grande estilo. A frota pan-helnica, sob o comando do outro rei 
de Esparta, Leotquides, mas formada em sua maioria por vasos atenienses, apresentou-se 
em massa diante do promontrio de Micale onde os persas, receando um confronto em mar 
aberto, haviam entrincheirado a sua infantaria depois de deixar em seco as embarcaes.


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Herdoto conta que um navio de Leotquides passou bem perto da costa, ao alcance da voz, 
e um arauto gritou aos jnios, em grego, que na hora da luta se lembrassem das suas origens 
e dos deuses comuns. A palavra de ordem seria "Hera kai Nike!" (Hera e Vitria!). Em 
seguida o rei de Esparta ordenou o ataque. Deve ter sido uma verdadeira operao de 
desembarque, com milhares de soldados da infantaria naval descendo das trirremes para 
atacar as postaes persas e queimar os barcos em seco na praia. Os jnios passaram em 
massa para o lado dos gregos e a batalha foi decidida num piscar de olhos. A Jnia inteira 
levantou-se escorraando os presdios persas e, pela primeira vez desde os tempos da 
talassocracia micnica, o Egeu tornou-se um lago grego.

O vero de 479 a.C. mal comeara. As guerras persas haviam chegado ao fim. Quando o 
vero terminou os atenienses j haviam retomado a posse da sua cidade, e desta vez para 
sempre.

A obra mais urgente era sem dvida a reconstruo das muralhas, mas a, estranhamente, os 
espartanos se opuseram. Disseram que em toda a Grcia a nica fortaleza inexpugnvel era 
o Peloponeso, controlado pelos seus presdios, que qualquer conjunto de muralhas na 
pennsula poderia ser usado pelos persas e que, portanto, aquela cerca fortificada era 
desaconselhvel. Temstocles foi pessoalmente a Esparta para discutir o assunto; na verdade 
s contemporizou com todo tipo de estratagema at saber que os seus concidados, todos, 
homens e mulheres, meninos e velhos, e at escravos, trabalhando noite e dia sem parar, 
usando esttuas e lajes funerrias, colunas e qualquer tipo de material disponvel, tinham 
reconstrudo as muralhas em sua altura original e com o comprimento total de seis 
quilmetros. Uma empresa que poderia parecer impossvel, mas  preciso pensar que no 
fundo se tratava mais de uma restaurao do que de uma reconstruo ex novo. Afinal de 
contas, os persas no deviam ter tido o tempo, nem a vontade, de derrubar a cerca at os 
alicerces.

Temstocles limitou-se a deixar que os espartanos constatassem o fato, e foi justamente o 
que eles fizeram com um sorriso amarelo; disseram que nunca havia sido sua inteno 
intimar coisa alguma, que os deles no passavam de meros conselhos. Estavam mentindo, 
era evidente, pois desejavam manter a sua posio de Estado-guia dos gregos, e talvez 
estivessem at um tanto assustados com a fora e o prestgio de Atenas que cresciam to 
impetuosamente.

Enquanto isto os atenienses tambm cuidavam do abastecimento de trigo. Durante todo o 
perodo das guerras persas, quando os estreitos estaem mos inimigas, tiveram de 
interromper as importaes da Crimia



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e procuraram outro mercado, o do vale do P, no norte do Adritico, onde estabeleceram 
contatos privilegiados com os vnetos, com os etruscos de Spina, uma cidade de madeira 
que se erguia no delta do rio. Haviam provavelmente delegado a esses povos as operaes 
de polcia daquele mar empesteado de piratas. Em troca de trigo e cavalos exportavam as 
suas mais belas cermicas, vasos extremamente delicados dos mais famosos artistas que 
foram encontrados pelos arquelogos italianos a partir dos anos 20 quando comearam as 
obras de saneamento nos alagadios de Comacchio e se encontraram as necrpoles da 
regio de Spina. Era necessrio, porm, reabrir  navegao os estreitos, de forma que uma 
frota ateniense sob o comando de Xantipo desembarcou um contingente em Sesto, no 
promontrio do lado ocidental do estreito, e atacou a cidade que controlava a entrada dos 
Dardanelos.

Perto dali, no presdio persa sob o comando do strapa Artaozo, estavam guardados num 
armazm os cabos de trao da grande ponte de barcaas que Xerxes havia lanado no 
Helesponto. Alm de ter em custdia aquele material estratgico, provavelmente 
recuperado depois que a tempestade derrubara a estrutura, o strapa tambm se tornara 
culpado aos olhos dos gregos por ter profanado o santurio de Protesilau, personagem da 
epopia homrica que contavam ter sido o primeiro a pisar no solo da sia quando os 
aqueus desceram em campo contra Tria, e que ali tombara trespassado por uma flecha 
inimiga. O infeliz oficial persa foi capturado e pregado vivo numa tbua de madeira para 
que o seu terrvel castigo aplacasse o esprito zangado do heri Protesilau. A a esquadra 
inverteu a rota e voltou para as suas bases na tica antes que o tempo piorasse.

Mas a entrada do Bsforo ainda continuava sob o controle da Prsia e no ano seguinte uma 
nova frota confederada, desta vez s ordens de Pausnias, dirigiu-se primeiro a Chipre para 
livr-la dos presdios persas, e depois a Bisncio, que logo capitulou. Pausnias instalou-se 
como comandante supremo, mas a sua gesto do poder irritou os aliados jnios que no 
estavam acostumados com toda aquela arrogncia. Os espartanos chamaram-no de volta para 
submet-lo a um inqurito, mas desta vez Pausnias escapou. As coisas no correram to 
bem para ele quando, mais tarde, um jovem chamado Argueilos, que havia sido seu amante, 
o enganou marcando um encontro num local isolado onde se haviam escondido espies do 
governo e induziuo a falar sobre seus contatos secretos e particulares com a corte persa. O 
rapaz, desprezado, queria sem dvida ir  desforra, e provavelmente Pausnias tinha muitos 
inimigos at na sua prpria cidade. Seja como for, foi preso e murado vivo no templo de 
Aten "da Casa de Bronze", e s foi tirado do santurio quando estava quase morrendo para 
que o seu cadver no o contaminasse. Ao contrrio do que se costumava fazer com os 
traidores, o


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seu corpo no foi jogado no rio Queadas: permitiram que fosse enterrado num tmulo, pois 
afinal se tratava do vencedor de Platias, mas o seu fantasma continuou a assombrar as 
noites dos espartanos por muitos anos.

Estes fatos, obviamente, estragaram o relacionamento dentro da confederao, e o 
contingente do Peloponeso (espartanos e aliados) separou-se do resto da frota. Esta atitude 
um tanto fanfarrona quase fez sorrir os aliados: os barcos lacedemnios no passavam de 
umas duas dzias contra os mais de duzentos dos tico-jnios, mas a coisa no deixaria de 
ter conseqncias bastante desagradveis. No deu em nada, por exemplo, a idia de se 
formar um exrcito pan-helnico com comando unificado como estrutura permanente de 
defesa comum e as diferenas entre Esparta, potncia continental, e Atenas, potncia 
martima, tornaram-se cada vez mais evidentes.

Nada ou quase nada sabemos acerca do que foi debatido nas assemblias populares em 
Atenas nesse perodo to crucial: a euforia da vitria devia estar tomando conta de todos e a 
cidade no seu conjunto deve ter ficado at atnita diante do seu novo papel de grande 
potncia - pelo menos em nvel regional - e das conseqncias que isto acarretava no seu 
relacionamento com os aliados, assim como com a superpotncia persa que, apesar de 
vencida, no estava atemorizada nem, muito menos, subjugada. E em Susa tambm, na 
capital imperial, foi preciso fazer o balano de um fracasso sem apelao. Em vinte anos de 
embates furiosos por terra e por mar, os persas jamais haviam conseguido levar a melhor 
sobre os gregos do continente.

No ano seguinte, em 477 a.C., conforme solicitao de Aristides, reuniram-se em Delos os 
representantes de algumas cidades da Jnia, das ilhas Cclades e dos estreitos, presididos 
pelos representantes do governo de Atenas, e estipularam uma aliana com a frmula: "Os 
teus inimigos sero meus inimigos, os teus amigos sero meus amigos", que com algumas 
leves modificaes sobrevive at hoje, quase testemunhando a sua remota origem, em 
certas sociedades secretas, at criminosas, na rea do Mediterrneo. A sua finalidade era 
manter o controle do Egeu com uma marinha de guerra de carter permanente. Cada cidade 
teria de contribuir com um determinado nmero de navios, de remadores e de guerreiros 
embarcados, mas em seguida quase todas elas preferiram oferecer dinheiro vivo aos 
atenienses, ficando ento livres para continuar as suas atividades econmicas e comerciais.

Atenas, que provavelmente se entregara a essa aventura de forma bastante desavisada, 
aceitou a troca, que em poucos anos iria transformar a liga num imprio. De fato, quem 
contribui para uma aliana com um batalho de armados pode retir-lo a qualquer momento, 
enfraquecendo a aliana e ao mesmo tempo reforando a si mesmo; quem, ao contrrio, faz 
isto com o dinheiro acaba se entregando nas mos dos que detm o poder. At aquele



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momento nenhum Estado, nem mesmo o Imprio persa, mantivera uma marinha militar 
permanente: tratava-se de um empreendimento difcil e arriscado. Os navios de guerra eram 
incmodos, com muito pouco ou nenhum espao para a carga e para o descanso dos 
marujos, e no proporcionavam abrigo contra a intemprie nem o sol escaldante. Um 
modesto depsito na proa e um pequeno poro na popa permitiam guardar gua potvel e 
uma quantidade mnima de comida. E mais, o barco tinha dimenses extremas no sentido do 
comprimento, para acomodar o maior nmero possvel de remadores, mas isto criava 
problemas hidrodinmicos, principalmente num mar de ondas curtas e violentas como o 
Mediterrneo. O nico modelo em tamanho real e capaz de navegar que j se construiu, a 
trirreme Olympias, no demorou a ficar com a sobrequilha rachada aps algumas sadas para 
o mar aberto.

Uma frota permanente iria, alm do mais, precisar de muitas bases relativamente prximas 
umas das outras e de muitos recursos financeiros para a construo e a manuteno dos 
navios, para os salrios e os mantimentos dos remadores e dos soldados embarcados. 
Quando Alexandre, depois de invadir a sia, se viu obrigado a pagar as guarnies da 
marinha ateniense, sua aliada, preferiu dispensar a frota antes de deixar-se sangrar pelo 
custo para mant-la. Calcula-se que na poca da liga de Delos isto chegava a algo entre 
quatrocentos e quinhentos talentos por temporada, isto , para cada seis meses, se levarmos 
em conta que durante o inverno a frota ficava parada nas bases devido ao clima e  
necessidade de reparos.

A esquadra, entretanto, gerava empregos e uns quarenta anos mais tarde Aristfanes, numa 
das suas comdias, ironizava as atitudes belicosas dos tetos (a classe dos trabalhadores 
braais indigentes) "sempre dispostos a empurrar os barcos para o mar para ganhar os seus 
dois bolos por dia (um tero de dracma) de salrio". Tambm aumentavam as encomendas 
para os estaleiros do Pireu e para as fbricas de armas. Lsias, um famoso orador ateniense 
contemporneo de Pricles, levava uma vida abastada com os ganhos da sua fbrica de 
escudos. Os tetos, alm do mais, podiam ser substitudos pelos escravos que chegavam em 
nmero cada vez maior. Alguns deles eram at empregados em operaes policiais, 
provavelmente devido  escassez de homens vlidos que agora se dedicavam  guerra.

Nesta altura a boa estrela de Temstocles pareceu comear a perder o seu brilho. Sabemos 
que patrocinou uma tragdia inspirada nas guerras persas, escrita por um poeta chamado 
Frnico; tambm sabemos que promoveu a construo de uma muralha dupla (as chamadas 
"Longas Muralhas") que ligava as fortificaes do Pireu aos paredes que guarneciam 
Atenas: isto permitiria que a cidade continuasse a receber mantimentos constantes, mesmo 
em caso de cerco por terra.


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Apesar disto, podemos reparar que a figura que aparece cada vez mais  Cmon, sem dvida 
menos brilhante do que Temstocles, menos sutil, mais guerreiro e menos poltico, mas de 
belo aspecto, carismtico, grande lutador e amante fogoso de lindas mulheres, um 
verdadeiro destruidor de coraes. Ele continuou a limpar o Egeu dos presdios persas e 
sitiou ion, uma cidade trcio-macednia na foz do rio Estrmon. O comandante persa da 
guarnio, no podendo de forma alguma resistir, jogou no rio o tesouro da cidade e depois 
deixou-se queimar numa fogueira com a mulher e os filhos. Herdoto, que conhecia muito 
bem os costumes persas, fala nele com a maior admirao.

Algum tempo depois, um orculo de Delfos ordenou que Cmon trouxesse de volta a 
Atenas a ossada de Teseu, o heri nacional da cidade e da tica. O general comeou a 
procurar em Ciros, a ilha onde, conforme a lenda, Teseu teria sido assassinado, e mandou 
cavar no local em que vira uma guia raspar o cho com as garras. Teve sorte: uma picareta 
destampou o tmulo de um guerreiro da idade do bronze, bastante imponente para parecer 
Teseu e, quem sabe, at bem prximo dele do ponto de vista histrico, sempre admitindo 
que Teseu tenha realmente existido. A ossada foi trazida com grande aparato e ento com 
cortejo solene at o templo especialmente construdo na agora que, por isto mesmo, 
recebeu o nome de Theseion.

Cmon acreditava que era necessrio manter boas relaes com os espartanos, enquanto 
Temstocles achava que nesta altura Atenas j devia pensar numa liderana absoluta, mesmo 
que para tanto tivesse de compactuar ou at aliar-se aos persas para dominar a Grcia e 
esmagar a rival. Talvez ele ainda sentisse algum rancor desde a poca em que tivera de 
receber ordens de almirantes espartanos que, de mar, sabiam bem pouco. O choque entre os 
dois homens pblicos estava se tornando inevitvel.

A vitria sobre os persas e o comando de uma grande liga naval transformaram Atenas 
profundamente. Do ponto de vista psicolgico, os seus cidados ficaram cheios de orgulho e 
patriotismo, sentimentos que receberam posterior alento graas  riqueza cada vez maior 
gerada pela expanso econmica. A construo naval, o grande estaleiro das Longas 
Muralhas, as infra-estruturas e as necessidades de abastecimento, ligados a uma grande frota 
operacional, no s determinaram um considervel fluxo de dinheiro, de bens e servios, 
como tambm de benefcios indiretos. Arquitetos e engenheiros, mestres-de-obras, 
operrios qualificados, assim como banqueiros e comerciantes, seguradores e cambistas 
instalaram em Atenas e no Pireu as suas firmas e os seus escritrios.

A construo civil tambm recebeu um grande impulso e, para planejar os novos bairros no 
Pireu, chamou-se um arquiteto muito famoso, Hipdamo de Meto, homem de grande valor 
que, no entanto, tinha atitudes



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excntricas e vestia roupas espalhafatosas que alimentavam boatos e fofocas, como 
acontece com alguns designers de hoje. O desenvolvimento econmico tambm teve 
conseqncias no meio ambiente: os bosques do Himeto foram destrudos e a montanha, 
erodida pelas enxurradas, reduziuse a rocha nua, aspecto que basicamente se mantm at os 
nossos dias. Com o passar do tempo e a cada vez maior demanda de madeira, as demais 
florestas da tica tambm ficaram depauperadas.

Aumentou o nmero de escravos e de residentes estrangeiros, mas Atenas continuava sendo 
uma cidade relativamente pequena se comparada com os padres modernos, mal chegando, 
talvez, a uns cem mil habitantes. Isto fazia com que pudesse manter uma incrvel identidade 
cultural e poltica, e mesmo os residentes estrangeiros gozavam das garantias e da proteo 
da lei, embora no tivessem o direito de voto. Para o despacho dos seus negcios 
comerciais ou legais recorriam a uma instituio bastante parecida com os nossos 
consulados, cujo representante era um cidado ateniense que mantinha relaes especiais 
com as cidades de origem deles.

Do ponto de vista ideolgico, o tema das guerras persas manteve-se bem vivo tanto nos 
mais altos nveis da produo literria e teatral, como em nvel mais corriqueiro, conforme 
podemos ver na pintura vascular que mostra cenas que mais parecem charges humorsticas.

Num vaso com figuras vermelhas conservado no Museu de Hamburgo, um grego nu e de 
pnis ereto na mo corre para alcanar um persa (reconhecvel pelas roupas orientais e pelo 
corte da barba) o qual, dobrado em dois, oferece as ndegas com cmica e resignada careta. 
 a transposio figurativa das piadas que certamente circulavam entre os marujos da frota e 
os soldados do exrcito, e que continuam at hoje sendo motivo de riso nesses ambientes.

Em nvel mais alto, sublime alis, no podemos esquecer a montagem e a encenao de Os 
persas, de Esquilo, pea patrocinada em 472 a.C. por um rapaz com pouco mais de vinte 
anos do cl dos alcmenidas do qual muito se ouviria falar mais tarde: Pricles. Uma 
apresentao como esta poderia ser atualmente comparada a um grande filme de guerra com 
tons marcadamente ideolgicos, mas  preciso lembrar que para os gregos, e mais ainda 
para os atenienses, a tragdia tambm tinha um valor ritual. Esquilo respeita os inimigos 
vencidos, descreve a aflio da derrota por parte dos persas e particularmente da rainha-me 
Atoxa, mas tambm ressalta o conceito de hybris, a arrogncia de quem se recusa a 
reconhecer os prprios limites humanos, fundamental na tica dos gregos.

O Grande Rei foi punido com a derrota por ter violado as normas impostas ao seu poder 
pela natureza, por ter posto um cabresto no mar e cortado a terra, dando prova de insolente 
altivez. Desta forma a tragdia tambm tinha


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uma funo educativa para o pblico, que acompanhava as apresentaes com apaixonada 
ateno. Mas, na verdade, a prpria Atenas, bria com o seu sucesso e a sua potncia, no 
muito depois iria manchar-se do mesmo pecado de orgulho. Entre os seus homens pblicos 
havia pessoas extremamente ambiciosas, de grande inteligncia mas tambm de grande 
arrogncia, como Temstocles, os quais achavam que nada poderia limitar o seu atrevimento. 
E havia homens moderados, como Cmon, que acreditavam mais no equilbrio: se 
funcionava internamente entre os vrios poderes do Estado e as vrias camadas da 
sociedade, tambm deveria funcionar em poltica exterior, entre os vrios potentados da 
Grcia.

Como veremos mais tarde, Atenas decidiu seguir at o fim o caminho de grande potncia, e 
de nada adiantaram os conselhos dos mais avisados que procuravam det-la em sua louca 
corrida. De qualquer maneira, um certo pessimismo existencial tpico da natureza grega 
alimentava a convico fatalista de que as cidades, assim como os homens, tm seu destino 
traado. As palavras que Herdoto pe na boca de um oficial persa na poca da invaso de 
480 expressam, na realidade, uma convico profunda sua: "Hspede, o que tem de 
acontecer por vontade divina  muito difcil que o homem consiga evit-lo. E o pior dos 
sofrimentos humanos  justamente este: prever muitas coisas sem ter controle algum sobre 
elas."

15 de setembro de 1999

Telefonei para Atenas como j  meu hbito. A voz de Kostas est muito mais fraca e 
trmula, e quando transcrevo do gravador as nossas conversas s vezes tenho de voltar atrs 
para entender as suas palavras. Mesmo assim o seu esprito continua firme.

- Achei muita graa naquela histria do grego que persegue o persa de pinto na mo, e o 
outro que oferece a bunda.

- Tinha certeza disto. Por outro lado  uma boa maneira para deixar bem claro o que diziam 
e faziam as pessoas comuns. No podemos ficar falando de Temstocles e de Cmon o 
tempo todo.

- Deus me livre. E as pessoas comuns deviam dizer o mesmo que a gente: "Vamos deixar 
os persas com umas hemorridas e tanto!"

- Mais ou menos isso.

-E a histria daquela trirreme que reconstruram tal e qual? Voc chegou a ver?

-A Olympias?

- Ela mesma. Eram navios realmente to poderosos?

- Pode crer. No s a vi, cheguei mesmo a navegar nela. Uma experincia fantstica, com 
um marcador de voga que gritava "Two in, three out!" (Dois para dentro, trs para f ora!), 
querendo dars ordens dos remos. Cena vez, num ensaio geral, conseguiram alcanar doze 
ns de velocidade:  algo extraordinrio para uma embarcao como aquela. Foram 
encomendados trezentos mil pregos de cobre para segurar o seu madeirame, todos feitos  
mo, e mandaram sentar nos bancos remadores profissionais. S olhar para ela no mar j era 
uma emoo indescritvel. Era como estar em Salamina, ainda mais porque as provas 
aconteciam justamente naquele mar.

- E onde est agora?

- Quebrou. A sobrequilha rachou durante uma das suas sadas, e no creio que tencionem 
consert-la.  uma pena: vai acabar apodrecendo.
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Veja s,  o nico modelo jamais construdo em escala 1:1, e funciona! Acho que cena vez 
Napoleo III tentou algo parecido, mas foi um fracasso total: acredito que o barco dele nem 
conseguia se mexer. Este, ao contrrio, conseguiu dar vrias sadas antes de quebrar.

- E voc tem certeza de que eram construdas daquele jeito mesmo ? Com trs ordens de 
remadores sobrepostas?

- No viu as fotos que lhe mandei?

- Vi, mas no soube distinguir os detalhes. J no enxergo to bem,

voc sabe.

- Temos praticamente certeza de que havia trs ordens de remadores

sobrepostas.

- E como chegaram a essa concluso?

- Bom, h pinturas vasculares, uns afrescos de poca posterior, e at um verso de 
Arstfanes que no deixa dvidas.

- Como assim?

- Diz que os remadores da segunda ordem tinham a bunda na altura da boca dos da terceira, 
com as conseqncias que voc bem pode imaginar.

Posso ouvir as suas risadinhas no outro lado do telefone. As piadinhas meio grossas sempre 
o deixam de bom humor.

- O que foi que o impressionou mais neste captulo?

- A concluso: aquela frase de Herdoto contm todo o pessimismo poltico e existencial do 
mundo.

~ Ele, no entanto, coloca-a na boca de um oficial persa.

- No creio que isto mude as coisas. O que pesa na alma  a inevitabilidade do destino 
contra o qual o homem no pode lutar. E o fato de podermos prever os problemas que 
esperam por ns no serve de consolo.

- Vamos esquecer o assunto, prefiro Arstfanes, que  mais divertido. Estou lendo agora 
mesmo Os acarnianos, pois vou precisar da pea mais tarde:  fantstica. Lembra aquela vez 
que a vimos juntos no teatro de

Herodes tico?

~ Lembro muito bem. Todos os seus amigos estavam l, e todos morreram de tanto rir.

E d uma boa gargalhada. Acho que Arstfanes lhe faz bem.

VII PRICLES

A vitria de Salamina continuou durante um bom tempo a ser o foco do cenrio cultural e 
publicitrio de Atenas e da Grcia. A tragdia As fencias, de Frnico, tambm tratava da 
derrota dos persas e comeava com uma cena dentro do palcio de Xerxes, onde um 
servial preparava os assentos para os poderosos do Imprio. Podemos supor que a 
popularidade do vencedor fosse proporcional ao prestgio daquela vitria. Em 470 
Temstocles apareceu em Olmpia para assistir aos jogos e mandou montar uma tenda onde 
se alojar de gosto um tanto espalhafatoso e, digamos assim, parvenu, provocando 
comentrios bastante custicos por parte dos nobres. Mesmo assim, quando entrou no 
estdio, foi mais aclamado do que os prprios atletas vencedores das provas.

Hoje em dia ningum ficaria surpreso com isso, pois a televiso faz entrar dentro de casa as 
imagens de todos os personagens importantes, de forma que eles podem ser reconhecidos  
primeira vista. Antigamente, no entanto, a circulao das imagens das pessoas s acontecia 
por meio das esttuas e dos retratos.  evidente, portanto, que os que haviam sido os 
primeiros a reconhec-lo deviam ter espalhado a notcia entre os espectadores de maneira 
rpida e eficiente.

Naquele mesmo ano Temstocles foi banido e  bem possvel que a imensa facilidade com 
que podia ser reconhecido  primeira vista tenha tido o seu peso no seu afastamento. O 
grande capito fugiu para Argos e ento circulou por vrios lugares do Peloponeso durante 
todo o ano seguinte enquanto Cmon, no comando da frota confederada, alcanava o maior 
sucesso da sua vida: depois de chegar  foz do rio Eurimedonte, na costa meridional da 
Anatlia, travou batalha com a frota persa e derrotou-a, depois desembarcou e venceu as 
foras terrestres deixando-as em debandada. Quando uma esquadra fencia apareceu para 
dar apoio ao inimigo, ele levantou mais uma vez as ncoras e travou novo combate naval em 
que desbaratou a frota adversria. Duzentas trirremes acabaram sendo destrudas e um 
nmero ainda maior foi capturado, juntamente com vinte mil soldados


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inimigos, que foram vendidos como escravos. Cmon voltou ento a sua

ateno para Chipre.

 dinheiro do saque e o lucro na venda dos escravos engordaram os

financiamentos para a construo das Longas Muralhas.

A glria de Cmon no podia ser maior, ainda mais porque as vicissitudes de Pausnias em 
Esparta haviam permitido que os foros pusessem as mos na sua correspondncia, 
descobrindo assim documentos que tambm comprometiam seriamente Temstocles. Os 
foros pediram ento aos atenienses que condenassem  morte Temstocles. Aquele que 
humilhara em batalha o rei dos reis acabou tendo de fugir perseguido de todos os lados, 
primeiro para o piro, de l para Corfu, e finalmente para a sia Menor, onde foi 
amavelmente recebido por Artaxerxes, o sucessor de Xerxes. Parece bastante claro que por 
trs desta operao que viu agentes atenienses e espartanos trabalhando lado a lado numa 
ao conjunta poderamos vislumbrar a entente cordiale entre as duas cidades e a poltica de 
Cmon, que visava a partilha das esferas de influncia - martima para Atenas, continental 
para Esparta -, poltica contra a qual Temstocles sempre lutara. Sendo assim, tampouco 
podemos descartar que os papis encontrados no arquivo secreto de Pausnias fossem mais 
ou menos inventados: infelizmente a falta de elementos seguros fora-nos a recorrer a todo 
tipo de ilaes.

Temstocles estava certamente a par de estratgias confidenciais e de dados de fundamental 
importncia no mbito militar e econmico, e por isto mesmo o Grande Rei Artaxerxes 
reservou-lhe um tratamento principesco destinando-lhe a renda de trs cidades inteiras, 
costume tpico dos persas, do qual tambm se fala vrias vezes na Anbasis de Xenofonte. 
Talvez o fugitivo se tenha beneficiado com as cartas que tinha escrito anteriormente, 
admitindo que as escreveu, mas no h dvida de que ele tenha de fato se beneficiado com 
os seus conhecimentos, que podiam ser muito teis ao inimigo. As nossas fontes, no entanto, 
relatam que, quando o rei persa pediulhe ajuda contra Atenas e contra os gregos, ele ficou 
to aflito por no poder demonstrar a sua gratido pela hospitalidade recebida - uma vez que 
jamais trairia o seu povo - que preferiu se matar. Morreu em Magnsia com apenas sessenta 
anos, depois de despedir-se de um por um dos amigos com um aperto de mo, tomando um 
veneno de efeito imediato. Deixou muitos filhos e filhas, entre as quais uma se chamava 
estranhamente Itlia e outra sia. Plutarco visitou a sua sepultura quase seis sculos mais 
tarde na praa

principal de Magnsia.

Enquanto Cmon estava atarefado em Chipre, a cidade de Tasos, na ilha do mesmo nome, 
decidiu sair da liga com deciso unilateral; o general ateniense respondeu com o bloqueio 
naval da ilha e o stio da cidade que, no entanto, precisou de dois anos para ser bem-
sucedido. O motivo do atrito



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entre Atenas e Tasos eram as minas de ouro do monte Pangeu e a ambies atenienses de 
controlar com uma colnia a passagem do rio Estrmon numa localidade chamada "nove 
estradas". A tentativa fracassou num mar de sangue quando os colonizadores que haviam 
adentrado o interior foram aniquilados pelos trcios perto de Drabescos.

Como j dissemos, o stio de Tasos foi mantido, tanto assim que os habitantes enviaram uma 
mensagem a Esparta pedindo que invadisse a tica para forar os atenienses a sair da ilha 
no intuito de defenderem o seu prprio territrio. Tucdides - o grande historiador que levou 
adiante a obra de Herdoto, mas com uma metodologia original at hoje reconhecida - conta 
que os espartanos estavam a ponto de partir quando aconteceu um grande cataclismo: um 
terremoto de fora devastadora arrasou toda a cidade, deixando de p, conforme a tradio, 
um nico edifcio.

Cmon, que voltara a Atenas, foi acusado diante da Assemblia pelos seus adversrios 
polticos, principalmente Efialtes e, mais moderadamente, Pricles, que haviam assumido o 
papel de depositrios da poltica antiespartana de Temstocles. Um mexerico difundido 
naquele tempo, e que chegou at ns graas aos escritos de Plutarco, conta que a irm de 
Cmon, Elpinice, foi visitar Pricles em particular para induzi-lo a retirar a moo contra o 
irmo. Pricles teria respondido com desdm: "Ests velha demais, Elpinice, para este tipo 
de coisas." Provavelmente Elpinice ainda era uma formosa mulher, mas talvez 
superestimasse o seu poder de seduo, se de fato havia algum fundamento nessa histria.

A acusao era a de Cmon ter aceito o ouro oferecido pelo rei Alexandre da Macednia 
para desistir de penetrar no interior e se apossar dos territrios que os habitantes de Tasos 
dominavam no continente. Ao que parece, Cmon respondeu que em Atenas ele era o 
prxeno (isto , o "representante consular") dos espartanos, que eram pobres, e no dos 
tesslios, ou dos jnios que eram ricos. O tribunal absolveu-o e ele retomou a sua poltica de 
equilbrio entre as duas grandes potncias da Grcia.

Se nesta altura Temstocles estivesse em Atenas, o curso da histria bem que poderia ter 
sido bastante diferente, pois no h dvida de que ele no perderia a oportunidade de dar 
um duro golpe na cidade rival prostrada pelo sismo, descortinando desta forma um cenrio 
totalmente diferente para o futuro do mundo grego.  claro que esta hiptese, no entanto, s 
pode ficar no plano da mera especulao. Quem por sua vez no deixou escapar a ocasio 
foram os hilotas, que se mexeram sem hesitao: levantaram-se em massa e atacaram a 
cidade. Foram rechaados pelo valor do jovem rei Plistarco, mas em lugar de ficarem 
subjugados puseram-se a caminho da sua ptria ancestral, a Messnia, e entrincheiraram-se 
entre as runas da sua antiga capital, Itome, um lugar sombrio sobre o qual pairavam sinistras 
lendas.


116 

Contavam que o ltimo dos seus defensores, o rei Aristodemo, assim como j havia feito 
Agammnon em ulis, sacrificara a sua prpria filha para conseguir a vitria contra os 
espartanos.

Os longnquos epgonos daqueles antigos guerreiros comearam ento a restaurar as 
muralhas e as casas,  espera de um longo cerco por parte das

tropas lacedemnias.

Cmon bem que poderia ter ficado satisfeito com uma postura neutra, mas preferiu ao 
contrrio convencer a Assemblia a votar o envio de quatro mil hoplitas para ajudar o 
exrcito espartano em apuros. O pequeno contingente partiu entre duros protestos da 
oposio, contrria  idia de a democracia ateniense enviar tropas para auxiliar um governo 
de oligarcas decidido a sujeitar mais uma vez um povo desde havia muito oprimido, mas 
digno da maior considerao por nunca ter esquecido as suas origens de nao

livre e valorosa.

A chegada dos atenienses, entretanto, no ajudou em nada as operaes militares, 
despertando alis a desconfiana e a irritao dos espartanos. Pode ser que as tropas ticas 
no conseguissem disfarar a sua simpatia pelos hilotas sitiados, ou talvez algum oficial 
ateniense tenha falado demais, mas, qualquer que fosse o motivo, em certa altura os 
espartanos dispensaram os atenienses dizendo que j no precisavam deles. O gesto foi 
interpretado como um ultraje sangrento e provocou uma reao imediata e violenta: Pricles 
e Efialtes no tiveram a menor dificuldade para botar Cmon no banco dos rus e pedir em 
seguida o seu ostracismo. O grande capito, o heri do Eurimedonte, teve de abandonar a 
ptria sem nunca ter representado um perigo para as suas instituies, muito pelo contrrio. 
Ele via Atenas e Esparta como uma parelha de bois que deviam puxar juntos e plenamente 
de acordo o arado da poltica grega; achava que sem uma das duas cidades a Grcia ficaria 
"coxa" e acreditava com firmeza que os nicos inimigos dos

gregos eram os persas.

O voto de desconfiana que afastou do poder Cmon e os seus partidrios tambm permitiu 
que Efialtes desse mais um retoque institucional na direo da democracia plena: mandou 
votar uma moo pela qual o Arepago perdia todas as suas atribuies polticas, a no ser 
as relativas  sua antiga competncia, isto , os crimes de sangue. O ltimo baluarte da 
aristocracia era desta forma desmantelado com uma operao de engenharia institucional 
que s pode ser comparada, nos nossos dias, com a exautorao da Cmara dos Lordes na 
Inglaterra por parte do governo de Tony Blair. Faltava apenas mais um corolrio para a 
plenitude da soberania popular: a remunerao pblica dos cargos que permitisse, a quem 
vivia do seu prprio trabalho, abandon-lo para dedicar-se ao servio do pas. Uma 
providncia



117

que o prprio Pricles tomaria durante o perodo em que ocupou ininterruptamente o cargo 
de estratego, de 449 a 429 a.C.

Naquele mesmo ano Esquilo apresentou a Orstia, a monumental trilogia (Agammnon, 
Coforas, Eumnides) que iria consagr-lo como um dos grandes gnios universais. As trs 
peas, que algum j considerou o ponto mais alto jamais alcanado pela mente humana, 
contam uma das mais sangrentas histrias do mito grego, o eplogo de uma pavorosa srie 
de vinganas. Atreu, rei de Micenas e pai de Agammnon, descobre que seu irmo Tiestes 
seduziu-lhe a mulher e, para vingar-se, mata os trs filhos deste e d de comer ao pai uma 
noite num jantar, e s no fim da monstruosa refeio informa-o do cardpio. O filho 
sobrevivente de Tieste, Egisto, seduz mais tarde a mulher de Agammnon, Clitemnestra, e 
convence-a a matar o marido quando ele voltar da guerra de Tria. A prpria Clitemnestra 
tem bons motivos para buscar vingana pois Agammnon sacrificara a filha deles, Ifignia, a 
fim de propiciar a expedio para Tria.

Por sua vez Orestes, o filho de Agammnon, no pode eximir-se de vingar a morte do pai, 
mesmo que isto signifique matar a me. Numa cena de intensa vibrao dramtica, 
Clitemnestra descobre o peito diante do filho, gritando: "Golpeia, se puderes, este peito que 
te amamentou!" E Orestes desfere o golpe. A cena acontece praticamente diante dos olhos 
dos espectadores, e podemos imaginar o impacto que deve ter tido sobre as pessoas que 
assistiam emudecidas  representao. E tambm podemos imaginar o pblico: sentados nas 
arquibancadas, quase certamente deviam estar Pricles e Efialtes, que acabavam de levar a 
cabo a reforma do Arepago. Talvez tambm estivesse Mron, um jovem artista que iria 
revolucionar a arte da escultura, e l devia estar Fdias, que iria legar para a eternidade de 
forma plstica o prprio esprito da sua cidade: provavelmente, naquela altura j devia estar 
se preparando para o trabalho que o tomaria famoso pelos sculos afora.

No sabemos ao certo se as mulheres podiam assistir s representaes cnicas, mas, se 
como muitos afirmam que isto era possvel, l devia estar tambm Elpinice, a irm de 
Cmon. E  provvel tambm a presena do pedreiro Sofronisco com a mulher Fenarete, 
uma parteira que acabava de gerar um menino, saudvel mas nem um pouco bonito, que um 
dia seria mundialmente conhecido. Haviam-lhe dado o nome de Scrates.

Depois de matar a me Orestes  perseguido pelas suas Ernias, as pavorosas divindades da 
vingana: seus olhos derramavam lgrimas de sangue, a sua pele exalava um insuportvel 
fedor de podrido, os seus cabelos lambuzados de sangue aninhavam inmeras cobras 
venenosas. Divindades da violncia ancestral, da mais cruel e implacvel justia privada, 
elas desencadearam na alma de Orestes uma incurvel contradio. Ele, que matara a


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me para vingar o pai, impusera-se na mesma hora a obrigao de vingar a me. Finalmente, 
perseguido pelas Ernias, o jovem chega a Atenas onde se entrega ao tribunal do Arepago 
que, com a ajuda de Aten, compe a

aflitiva dicotomia.

Cativados por uma ao cnica de avassaladora potncia, arrastados por um remoinho de 
paixes e de extremo pthos, os espectadores chegavam a um desfecho no qual a 
interminvel srie de arcaicas vinganas era resolvida pelo veredicto de um rgo 
institucional da sua cidade. Era o triunfo da lei sobre o arbtrio, da norma sobre o caos, do 
direito pblico sobre a violncia privada. Era a consagrao da passagem do mundo arcaico 
dos aristocratas baseado na desforra, para o mundo moderno da cidadania.

A escolha de um desfecho como este s podia acontecer dentro de uma perspectiva que 
visava a glorificao da cidade como conjunto harmonioso de todos os seus componentes 
polticos e sociais. Por um lado celebrava-se o Arepago como Assemblia dos aristocratas, 
por outro corno instituio mais uma vez levada pelas recentes reformas  sua funo 
original de tribunal para os crimes de sangue. Um tribunal que Esquilo exaltava como 
finalmente "livre de qualquer acessrio que, como lama, s turva a gua". E no  por acaso 
que, justamente nesta trilogia, aparece pela primeira vez a expresso "governo do povo", 
isto , democracia.

A cidade estava agora lanada para a sua irresistvel ascenso, guiada pelo gnio do jovem 
Pricles que assumira as rdeas do partido democrtico radical depois do assassinato, at 
hoje no resolvido, do seu mestre Efialtes. O Pireu pululava de navios, os mercados 
estavam cheios de todo tipo de mercadorias: a presena, comprovada pelas fontes histricas, 
de frutas e verduras frescas em pleno inverno demonstra que havia nas praas de Atenas 
uma clientela disposta a pagar o que elas valiam e que os cargueiros podiam traze-las de 
Chipre, do Egito e da Sria num prazo suficientemente breve para no prejudicar a 
qualidade. Como no caso dos famosos figos de Cartago que Cato, o Censor, oferecia aos 
seus colegas do senado romano. Segundo uma inscrio publicada em 1936, um Fdias que 
acabava de completar trinta anos (provavelmente havia nascido no ano da batalha de 
Maratona) foi encarregado em 460 a.C. da execuo de uma esttua de bronze de Aten a 
ser colocada na acrpole. Com a altura de nove metros, foi o primeiro colosso realizado no 
Ocidente (o mais recente  a esttua da Liberdade em Nova York), e a ponta da sua lana 
deixava ver de longe o seu brilho dourado, visvel dos barcos que entravam nas guas do 
Pireu. Na mo esquerda segurava um grande escudo historiado fundido pelo bronzista Mys 
(nome bastante curioso, pois significa "rato") segundo desenhos de um pintor de feso to 
bom quanto vaidoso e arrogante: Parrsio.

Fazia-se chamar de "o homem da doce vida" ou ento de "prncipe dos



119

pintores", e parece que de fato era o mximo no seu ofcio, principalmente nos esboos e 
nos desenhos (os seus esboos a carvo ainda se vendiam por preos extorsivos nos 
antiqurios romanos dos sculos I e II d.C.). Um tanto mais difcil  entender exatamente o 
que queria dizer aquela "doce vida", mas, como um dos seus passatempos preferidos era 
pintar cenas de erotismo explcito, pode ser que esta fosse a razo do apelido.

Ao deixar definitivamente de lado o seu namoro com Esparta, Atenas aliou-se aos inimigos 
dela, os argivos e os tesslios, assumindo uma atitude sem volta que, mais cedo ou mais 
tarde, iria fatalmente lev-la a uma confrontao com a rival. At assinou uma aliana com 
Mgara, desde sempre sua inimiga, pois naquele momento estava em guerra contra Corinto, 
aliada de Esparta. Assim como os atenienses estavam fazendo entre o Pireu e Atenas, os 
megarenses tambm construram um sistema de "longas muralhas" que ligava a cidade ao 
seu porto no golfo Sarnico de forma que, se o outro porto de Nisa, no golfo de Corinto, 
viesse a ser ameaado ou bloqueado, a cidade poderia continuar a ser abastecida pelo 
Oriente. Seguiu-se um perodo de dura confrontao com Esparta, durante o qual os 
atenienses chegaram a lutar (e vencer) ao lado dos argivos contra os espartanos no 
Peloponeso.

Seguiram-se outros embates bastante violentos em vrias frentes: na ilha de Egina e em 
Mgara, onde se travou um sangrento combate com os corntios, de resultado duvidoso. Na 
mesma poca, aps cinco anos de at ento inteis tentativas, os espartanos finalmente 
dobraram a resistncia dos hilotas de Itome, mas os atenienses conseguiram evitar a chacina 
tambm devido  interveno do orculo de Delfos, que emitiu um vaticnio muito claro: 
"Soltai os suplicantes de Zeus Itometa."

Havia uma referncia explcita ao templo de Zeus dentro das muralhas da cidade sitiada, e o 
orculo permanece at hoje bastante obscuro uma vez que, naquela poca, o santurio 
dlfico estava decididamente do lado de Esparta. Os espartanos deixaram que os hilotas se 
retirassem e os atenienses os acomodaram em Naupacto, finalmente livres pela primeira vez 
desde que haviam nascido, conseguindo firmar ao mesmo tempo uma base amiga bem na 
entrada do golfo de Corinto.

Nesta altura Atenas j estava empenhada em vrias frentes, tendo inclusive recomeado a 
sua ofensiva contra Chipre para tirar definitivamente a grande ilha do controle persa. 
Enquanto isto, no Egito, que tambm era uma provncia da Prsia, havia estourado uma 
revolta chefiada por um prncipe lbio chamado Inaros, que pediu a ajuda de Atenas para 
resistir ao contraataque persa. Este pedido demonstrava que Atenas tinha alcanado a 
envergadura de grande potncia internacional e que a sua estrutura militar era considerada 
capaz de enfrentar o exrcito imperial. E mais, para os atenien-


120 

ss tratava-se de uma oportunidade excepcional. O Egito era um lugar fabuloso, um 
Eldorado do qual se contavam maravilhas, mas, de um ponto de vista prtico, tambm era o 
maior produtor de trigo do mundo, o nico produtor de papiro, a terra onde estavam 
guardadas imensas riquezas, enormes quantidades de ouro. Aprontou-se imediatamente uma 
frota que subiu pelo Nilo e desembarcou um corpo expedicionrio para ocupar a capital, 
Mnfis. A guarnio persa, no entanto, resistiu entrincheirando-se na fortaleza e a

guerra ficou num impasse.

Nas outras frentes lutou-se novamente contra os espartanos emTnagra, mas sem sorte. Dois 
meses depois, entretanto, os atenienses retomaram as hostilidades contra os becios que 
agora estavam sozinhos, derrotaram-nos duramente em Enofita e expandiram a sua 
hegemonia at a Becia e a Fcida. A aliana com os foceus era particularmente importante 
pois permitia chegar ao controle do santurio de Delfos. Era um verdadeiro golpe de 
mestre, pois o orculo dlfico gozava de um prestgio e de uma autoridade sem comparao: 
ningum podia desafi-lo e ningum podia se permitir ignor-lo. Alm do mais, o santurio 
tinha um peso econmico enorme devido  imensa quantidade de tesouros dedicados como 
ex-votos que eram guardados no recinto sagrado. Aquela montanha de ouro e prata, nas 
mos de quem soubesse us-la de forma apropriada, podia transformar-se numa fora de 
choque excepcional. Mas meter-se nos assuntos internos de Delfos era como mexer em 
casa de marimbondos, pois o santurio era a garantia de equilbrios supranacionais que 
ningum podia impunemente subverter ou at mesmo perturbar. Era fcil, portanto, prever 
que haveria reaes violentas, coisa que de fato aconteceu.

Logo em seguida Egina rendeu-se: Atenas imps a destruio das muralhas, a entrega da 
frota e o pagamento de um tributo anual. Mostra-se bastante gritante, nessa poca, a 
disparidade entre os planos grandiosos que a cidade conduzia longe da Grcia, do Egito a 
Chipre, dos Dardanelos  Lbia, com aes no apenas militares como tambm de cunho 
diplomtico que alcanavam a Itlia e a Siclia, e a mesquinhez da situao na pennsula 
helnica onde a presena de tantos agrupamentos de forte personalidade e a falta do 
equilbrio almejado por Cmon geravam uma condio de contnuo e quase endmico 
conflito. Embora relativas a um perodo ligeiramente posterior, so impressionantes as 
palavras com que os corntios se referem aos atenienses: "Nunca vivem em paz e no 
deixam os outros viverem em paz." Em 456 foi definitivamente terminada a construo das 
Longas Muralhas, um duplo corredor fortificado que, unindo num nico conjunto defensivo 
a cerca urbana de Atenas e o Pireu, fundia numa coisa s a cidade e o seu porto, tornando-a 
de fato irnune a qualquer stio desde que a sua frota Continuasse a dominar os mares. E 
justamente para afirmar de forma inequ-



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voca o seu domnio sobre o mar, naquele mesmo ano Atenas mandou uma frota dar a volta 
ao Peloponeso. Tratou-se principalmente de uma ao ostensiva que no conseguiu grande 
coisa, a no ser a destruio dos estaleiros de Gtio, a base naval dos espartanos. A esquadra 
alcanou Parras e, antes de voltar pelo mesmo caminho, infligiu uma dura derrota aos 
habitantes de Sicione, eles tambm aliados de Esparta.

Enquanto isto a situao no Egito ia ficando cada vez pior. Num primeiro momento o 
Grande Rei tentara remover o contingente ateniense convencendo os espartanos a 
invadirem a tica e enviara para este fim um emissrio com uma vultosa quantia de 
dinheiro. A diplomacia persa j entendera que enfrentar diretamente os gregos, fossem eles 
atenienses ou espartanos, no era l muito aconselhvel; s servia para junt-los todos em 
volta da mesma causa e a derrota em campo aberto era quase certa. Muito melhor jogar uns 
contra os outros, aproveitando os particularismos e as rivalidades entre cada polis. Por outro 
lado, os prprios atenienses j haviam tentado entrar num acordo autnomo com os persas, 
mas sem sucesso.

Segundo uma reconstituio cronolgica que nos parece plausvel, a batalha do 
Eurimedonte deve ter acontecido por volta de 466 a.C. Logo em seguida, em 465, houve a 
embaixada do alcmenida Clia que, ao que parece, o Grande Rei decidiu receber por 
medo de perder Chipre. A misso diplomtica no surtiu efeito algum, mas, nos anos 
seguintes, os crculos moderados atenienses, saudosos da poltica de Cmon e do poder do 
Arepago, elaboraram o texto de uma pretensa "paz de Clia" assinada pelo Grande Rei em 
449 a.C. com a qual ele reconhecia a hegemonia ateniense no Egeu, empenhava-se a no 
entrar nesse mar e a manter as suas tropas a trs dias de marcha das costas da sia Menor.

A opinio da maioria dos estudiosos  que aquele texto, to favorvel a Atenas e 
renunciador para os persas, seja uma falsificao. Na poca em que foi elaborado, com 
efeito, havia bons motivos para meditar sobre os efeitos arrasadores das guerras fratricidas 
entre os gregos e as bvias vantagens que isto trazia para a Prsia. E isto acontecia muito 
antes de Filipe e Alexandre constrangerem todos os gregos - exceto os espartanos - a uma 
aliana militar contra o Imprio persa que levaria  sua destruio e ao nascimento de um 
Imprio grego que, apesar de efmero, iria se espalhar do Adritico ao oceano ndico, do 
Danbio ao Indo.

Mas voltemos ao tempo da misso persa a Esparta, que provavelmente aconteceu por volta 
de 456. Segundo o relato de Tucdides, o dinheiro que deveria convencer os espartanos a 
atacar Atenas a fim de induzi-la a chamar as suas tropas de volta do Egito acabou sendo 
gasto sem resultados apreciveis. Talvez o persa at tenha conseguido corromper algum 
chefe poltico, mas ningum suficientemente importante para influenciar as decises do


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governo: seja como for, o Grande Rei decidiu ento passar s vias de fato e enviou uma 
fora expedicionria que escorraou os atenienses e seus aliados de Mnfis. Estes 
entrincheiraram-se ento numa ilhota no delta do Nilo, onde resistiram por mais de um ano e 
meio.

Finalmente, ao perceber que no conseguiria desembarcar as suas tropas de assalto, o 
comandante persa decidiu desviar o canal em volta da ilha, deixou os navios atenienses em 
seco e mandou avanar o exrcito pelo leito do rio. Em nmero muito maior, bem 
alimentados e equipados, os persas no tiveram dificuldade em sobrepujar as tropas exaustas 
da liga ateniense. Como se no bastasse, uma frota proveniente de Atenas e que 
provavelmente trazia mantimentos e reforos, no sabendo do acontecido, acercou-se para 
lanar ncora; foi agredida frontalmente pelas tropas persas de terra, enquanto uma esquadra 
fencia fechava-lhe o caminho de volta ao mar aberto. Os barcos gregos foram aniquilados e 
s umas poucas unidades conseguiram furar o bloqueio e voltar a Atenas com a notcia da 
derrota. Inaros, o organizador da revolta, foi capturado e empalado pelos persas.

Os sobreviventes desse desastre conseguiram abrir caminho em busca da salvao 
avanando penosamente ao longo das costas mediterrneas at Cirene. Tucdides s dedica 
umas poucas linhas a esta empresa, que deve ter tido lances hericos: aquele bando de 
infelizes teve de marchar mais de dois mil quilmetros pelo deserto, sem mantimentos nem 
equipamento, deixando atrs de si um rastro de mortos.

Cinqenta anos mais tarde um grupo de mercenrios gregos que haviam lutado perto de 
Babilnia s ordens do prncipe persa Ciro, ao ficarem sem comandante, retiraram-se 
subindo o Tigre na tentativa de alcanarem, eles tambm, uma colnia grega. Depois de 
atravessarem as montanhas da Armnia em pleno inverno, chegaram finalmente s margens 
do mar Negro. Xenofonte, o escritor ateniense que estava com eles, tornou-os famosos

como os mticos "Dez mil".

Parece-nos quase natural perguntar como  que as pessoas comuns de Atenas aceitaram, 
depois do ostracismo de Cmon, os pesados tributos em termos de vidas humanas que a 
poltica imperial da cidade lhes impunha. Na verdade, porm, embora isto possa parecer 
estranho, uma certa saudade pela poltica de Cmon s se manifestou muito mais tarde entre 
os crculos conservadores, l pela metade do sculo IV. A democracia tornara todos 
coresponsveis, j no havia um Arepago para ser culpado ou um chefe aristocrata em 
cima do qual jogar a responsabilidade. Todos haviam aprovado, todos haviam sido partcipes 
das escolhas propostas pela Assemblia. Claro que, obviamente, havia uma motivao tanto 
social quanto econmica que muito influa neste tipo de escolhas. A afirmao de Atenas, as 
suas conquistas, a formao do seu imprio naval deviam-se principalmente aos



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remadores da frota,  sua coordenao, ao seu "trabalho de equipe". E os remadores eram 
tetos, isto , pessoas que nada possuam e cuja nica fonte de renda contnua e segura era o 
salrio a bordo dos navios. Muitos deles, alm do mais, eram destinados aos presdios 
militares de alm-mar que os atenienses chamavam de kleruquias (de kleros, sorte), uma 
vez que os selecionados eram escolhidos por sorteio. Nesses lugares eles recebiam um love 
de terra, uma casa e talvez at alguns escravos, e portanto uma posio social invejvel que 
se baseava justamente no fato de serem cidados de Atenas.

Uma das conseqncias da afirmao da democracia radical foi, portanto, o imperialismo e a 
proliferao dos conflitos. Tudo isto, obviamente, era sublimado como patriotismo: a cada 
ano, no outono, a cidade recolhia-se no momento solene das celebraes, nos ritos que 
exaltavam a honra e o valor daqueles que haviam tombado em nome da ptria, lambia as 
prprias feridas e preparava-se para uma nova temporada de grandeza.

Nas suas Suplicantes, Esquilo mais uma vez nos fornece uma explicao mtica para 
justificar a nova poltica ateniense de alianas de cunho antiespartano, relembrando a antiga 
irmandade entre atenienses, argivos e tesslios na poca dos pelasgos, povo ancestral que 
talvez possa ser identificado com a memria histrica dos micnicos. De forma que, ao se 
sentarem nas arquibancadas de pedra dos teatros, os atenienses se espelhavam no seu 
passado mtico, reconciliavam as suas contradies no majestoso ritmo dos versos dos 
poetas, fortaleciam as suas convices.

A derrota no Egito foi sem dvida muito amarga, no s devido ao sonho malogrado de 
domnio ultramarino sobre um pas incrivelmente grande e rico, como tambm pelas pesadas 
perdas humanas e econmicas que a aventura comportou. Os atenienses perceberam ento 
que a sua posio era muito difcil, j que estavam expostos aos ataques de Esparta na frente 
interna, e aos da Prsia na externa. Acharam melhor, portanto, tentar sair da casa de 
marimbondos da Grcia, onde afinal parecia no haver muitas possibilidades para suas 
tentativas expansionistas. Chamaram ento de volta do exlio Cmon, o homem que melhor 
do que qualquer outro sabia como tratar com os espartanos e lutar contra os persas.

O heri voltou, aceitando de bom grado o chamado da ptria, e mediou com os espartanos 
uma paz de cinco anos; ps-se ento no comando de uma nova frota de duzentos navios de 
guerra e de uma eficiente fora expedicionria e rumou para Chipre, onde sitiou a cidade de 
Ction; durante uma ao nos arredores de Salamina de Chipre foi ferido e morreu. A 
esquadra decidiu ento levantar ncora para voltar, mas foi interceptada pela frota fencia s 
ordens do Grande Rei e forada a travar batalha. O choque foi muito duro, mas os 
atenienses acabaram levando a melhor e a esquadra voltou ao Pireu


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vitoriosa. No final, entretanto, o balano foi mais negativo do que positivo e ficou patente a 
necessidade de se traar uma nova poltica externa.

A paz qinqenal recm-assinada mal conseguiu durar um ano: os espartanos, sabendo 
muito bem do enorme peso poltico e moral do orculo de Delfos, enviaram um exrcito 
para a Fcida a fim de libertar o santurio com uma reserva mental tpica dos gregos: 
oficialmente no estavam violando a paz pois estavam atacando os foceus e no os 
atenienses, mas o

resultado foi o mesmo.

Os atenienses contra-atacaram no ano seguinte (estamos por volta de
448 a.C.), entregando mais uma vez Delfos aos seus aliados foceus. Enquanto isto, tambm 
tentaram fortalecer com toda uma srie de iniciativas tanto religiosas quanto polticas o mais 
importante dos seus centros religiosos: o santurio de Elusis, bem perto de Atenas, onde se 
celebravam os mistrios de Demter e Persfone, as divindades do alm, por meio de 
algum tipo de transe, provavelmente provocado por substncias alucingenas. A tentativa 
no deu em nada, uma vez que o prestgio de Delfos era grande e firme demais e porque a 
situao da Grcia central mudou em pouco tempo de forma radical. Em algumas cidades da 
Becia, que j estavam havia quase dez anos sob o controle de Atenas, os oligrquicos 
retomaram o poder e proclamaram a independncia, enquanto a Lcrida (uma pequena 
regio a oeste da Becia) tambm se rebelava. Atenas respondeu com determinao 
enviando para a regio um general chamado Tolmides, que porm foi derrotado em 
Queronia e teve de recuar. A Fcida, agora isolada de Atenas e apertada entre a Becia 
independente e o Peloponeso novamente unido sob a hegemonia de Esparta, viu-se forada 
a voltar para a esfera de influncia desta ltima. Obviamente Atenas perdeu todo e qualquer 
controle sobre o grande santurio de Delfos que, pelo menos nominalmente, reconquistou a 
sua autonomia.

Parecia, nesta altura, que os deuses tinham virado as costas para a cidade: a Eubia, a 
grande ilha bem prxima da tica, insurgiu e abandonou a liga de Delos, e Pricles acudiu 
imediatamente com um exrcito para retomar o controle da situao. Mgara tambm 
denunciou a aliana com Atenas e atacou os presdios atenienses postados nas fortificaes 
de Nisa, aliando-se a vrias outras cidades do Peloponeso das quais Esparta tinha assumido 
o comando supremo. Na chefia das tropas da liga do Peloponeso, o rei Plistoanate 
atravessou o istmo de Corinto, nesta altura guardado por foras amigas, e invadiu a tica at 
chegar a poucos quilmetros de Atenas. Pricles decidiu ento voltar apressadamente da 
Eubia.

Ao que parece, Plistoanate s queria dar uma lio aos atenienses: limitou-se a arrasar o 
territrio mas evitou o choque direto com os adversrios, nreferindo voltar ao Peloponeso 
com o seu exrcito. Pricles deu ento



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meia-volta, foi mais uma vez  Eubia e sujeitou-a de novo ao domnio de Atenas.

J era mais do que evidente que o choque com Esparta s levaria a uma dispendiosa e intil 
guerra de desgaste: os fatos haviam demonstrado aquilo que a geografia e a lgica j 
deveriam ter deixado bem claro, isto , que Atenas podia aspirar ao domnio no mar 
enquanto ningum podia competir com Esparta no que dizia respeito  hegemonia no 
continente. Chegou-se ento a estipular uma paz de trinta anos que na prtica sancionava o 
status quo. Os atenienses desistiam de todos os seus encraves no Peloponeso, comeando 
por Nisa, o porto de Mgara no golfo Sarnico, e a Trezena, Pege e a Acaia. Em troca 
disto, Esparta no contestava o domnio ateniense sobre a Eubia nem se opunha  entrada 
de Egina na liga de Delos. Chegava-se assim a uma forma de equilbrio entre as duas 
grandes potncias, cada uma delas na chefia de uma aliana militar: a liga de Delos e a liga 
do Peloponeso, a primeira principalmente martima e a segunda marcadamente continental.

Nesta mesma poca os aliados da liga dlio-tica foram convencidos a votar, por motivos de 
segurana, a transferncia do tesouro federal da ilha de Delos para Atenas, onde foram 
guardados quatrocentos talentos de prata.

Enquanto isto os artistas representavam um novo homem, o ideal de uma humanidade 
segura de si e poderosa. O bronze, que Fdias j fundira para erguer a sua Aten combatente 
(Prmakhos) no topo da acrpole, permitia solues de incrvel atrevimento. A sua 
elasticidade e, ao mesmo tempo, solidez pareciam a metfora do homem ateniense, 
destemido e argucioso, temerrio e brincalho.

Por volta de 451 Mron forjou o seu celebre Discbolo, um atleta tenso como um arco 
prestes a realizar o lanamento. Para ns s ficaram cpias de mrmore daquela fantstica 
obra-prima, todas caracterizadas pelo antiesttico apoio em forma de tronco sem o qual a 
esttua se partiria na altura dos joelhos, mas o original de bronze apoiava-se apenas no p 
esquerdo e na ponta do direito: uns poucos centmetros quadrados bastavam para sustentar a 
poderosa envergadura do atleta, o grande torso musculoso, os braos esticados em arco 
numa postura de vibrante energia.

O dinheiro acumulado na acrpole j no era gasto apenas para exigncias militares, mas 
tambm para o embelezamento de Atenas.  claro que gastar desse jeito o dinheiro de todos 
os membros da liga em prol da cidade dominante era uma deciso um tanto arbitrria, mas 
este arbtrio criou um dos mais grandiosos e espetaculares monumentos de todos os tempos: 
o prprio smbolo do esprito grego, imitado em milhares de estruturas atravs


126





127

dos sculos, o templo por excelncia, verdadeiro milagre de propores e harmonia, um
navio de deuses apoiado num rochedo: o Partenon!

A sua construo deveu-se ao envolvimento pessoal do prprio Pricles que, para desenh-
lo, chamou os arquitetos Ictino e Calcrates, ambos de escola hipodmica. Demoliu-se o 
monumento anterior, um santurio arcaico conhecido como Ekatompedon (cem ps), este 
tambm dedicado a Aten Partenos e decorado com terracotas policromas. A construo do 
templo, todo em mrmore pentlico, levou quinze anos e empregou mo-de-obra 
extremamente qualificada. Com o comprimento de 69,54 metros e a largura de 30,87, tinha 
oito colunas dricas no lado menor e dezessete no maior. No interior havia a cela dividida 
em duas partes por um muro transversal, no qual se abria o porto que dava para o 
verdadeiro santurio. A parte mais curta, uma espcie de saguo, era sustentada por quatro 
colunas provavelmente em estilo jnio; a parte mais comprida, por sua vez, era dividida em 
trs naves por duas fileiras de colunas dispostas em duas ordens sobrepostas que chegavam 
at o teto. No fundo da nave central erguia-se a esttua do culto que representava a deusa 
Aten: um colosso com treze metros de altura em marfim e ouro.

Fdias foi chamado para execut-la e para desenhar as esculturas que iriam enfeitar o 
monumento: as mtopas da arquitrave externa com cenas de luta entre os centauros e os 
lpitas, o friso contnuo que decorava a orla superior da cela com a representao do grande 
cortejo das panatenias - a mais importante das solenidades atenienses - assim como os 
grandes grupos esculturais dos frontes leste e oeste. No primeiro aparecia a disputa entre 
Aten e Poseidon para a posse da tica, no segundo o concilio dos deuses. Dezenas de 
milhares de metros cbicos de mrmore foram cortados das encostas do monte Pentlico e 
transportados com trens de madeira at a base da acrpole, de onde eram puxados com 
guindastes ao longo de um plano inclinado que chegava  grande esplanada superior. 
Tratava-se de grandes paraleleppedos ou de toras cilndricas que iriam ser transformadas

em colunas.

Alguns dos gnios mais criativos que a nossa espcie produziu durante toda a sua histria 
estiveram presentes naquela esplanada at a concluso dos trabalhos: arquitetos, escultores, 
bronzistas, pintores, todos cercados por um bando de aprendizes e assistentes, e mais 
mestres-de-obras, pedreiros, carpinteiros, ferreiros e canteiros. Mquinas gigantescas foram 
montadas para levantar e colocar no lugar os blocos que pesavam vrias toneladas, os 
imensos capitis com mais de dezesseis metros quadrados de rea, e finalmente as esttuas, 
descomunais mas ao mesmo tempo muito delicadas, que iriam enfeitar os frontes. O mais 
provvel  que colocassem no lugar

os blocos grosseiramente esboados para que s em seguida os artistas dessem o 
acabamento e o polimento final.

A cidade inteira assistia ao surgimento daquele milagre e aqueles volumes, aquelas 
propores, aquela harmonia tornaram-se regras fundamentais para a Grcia e para o 
mundo. O povo de deuses e heris que dia a dia tomava forma e cor no esplendor ofuscante 
do sol do cu tico era o espelho de uma sociedade e de um modo de vida que o mundo iria 
admirar e lembrar com saudade pelos sculos afora. Durante quinze anos, o canteiro de 
obras foi centro de pesquisa, de estudo, de debate, de acaloradas discusses, de poderosa 
manifestao de energia e de engenho.

Daquele patamar Fdias e Parrsio, Pricles, Calcrates e Ictino podiam abarcar com os olhos 
a cidade inteira, ver aos seus ps a cavidade do teatro de Dioniso, e quem sabe assistir s 
evolues do coro e dos atores que ensaiavam sob o olhar vigilante de poetas que o mundo 
jamais iria esquecer, como Esquilo e Sfocles. E com eles subiram at a esplanada outros 
gnios desejosos de ver aquela coisa divina: o filsofo Anaxgoras e o historiador Herdoto, 
que nesta poca j esboava o seu poderoso afresco das guerras persas.

Alguns anos depois, quando com voz embargada pela emoo Pricles comemorou os 
mortos do primeiro ano da guerra do Peloponeso, devia certamente ter diante dos olhos 
estas cenas e estas imagens exaltantes quando dizia:

Gostamos do belo, mas de forma comedida, e dedicamo-nos ao saber, mas sem complacncia, usamos a 
riqueza mais por causa da possibilidade de agir que ela proporciona do que devido  tola vaidade das 
palavras... A nossa cidade inteira  a escola da Grcia e parece-me que cada homem da nossa gente orienta 
individualmente a prpria personalidade independente para qualquer tipo de atividade, e com a maior 
versatilidade, mas sempre acompanhada pelo decoro... Seremos admirados pelos homens de hoje e pelos 
seus descendentes, sem precisarmos de Homero.


9 de outubro de 1999

Falando ao telefone Kostas me conta que gostou muito de percorrer de novo os caminhos da 
grandeza de Atenas, de reviver a construo do Partenon, da Aten de Fdias. Contou que 
ficou muito emocionado ao lembrar as palavras de Pricles do Epitfio.

- Proferi-as em voz alta pela primeira vez no mesmo ano em que a gente se conheceu. 
Justamente na acrpole, num dia de abril cheio de nuvens

negras... com o meu amigo.

- Ainda no nos conhecamos, e eu estava me preparando para viajar para a Itlia deferias 
com Alexandra, que j tinha a lista dos vestidos que queria comprar, as bolsas em Florena, 
as blusas em Roma...

- Pois , iramos nos conhecer dali a trs semanas, a bordo do Apollonia. H quanto tempo 
voc no sobe at a acrpole?

- Deve fazer uns vinte anos. Sabe como , a gente diz: "Est logo ali, no vai fugir." E alm 
do mais um ateniense no precisa ir  acrpole; eu sou um plakiota, nasci na Plaka e podia 
ver o Partenon todos os dias, era s abrir a janela do meu quarto, est entendendo? E a 
cidade tambm era diferente, quando eu era menino, nem chegava a ser a quarta pane do 
que  agora. A acrpole parecia muito mais imponente, e atrs do Filopapo s havia campos. 
Ainda havia um monto de pastores passeando por l com

suas cabras e ovelhas.

Recomea a amaldioar os coronis e os anos de especulao selvagem

durante o regime militar.

- Na verdade - continua depois -, francamente, no consigo imaginar o Partenon a cores. 
Vocs tm certeza mesmo de que era colorido?

-Absoluta. Uma festa de cores: azul, amarelo, ocre, at dourado, folha de ouro aplicada sob 
presso. Sabe como , as pessoas estavam acostumadas com os enfeites antigos de terracota 
colorida e a, quando comearam a usar o mrmore, continuaram a colori-lo como faziam 
com a terracota.



129

- Mas no faz sentido pintar o mrmore. O mrmore j  bonito assim como !

- Os historiadores da arte continuam at hoje a debater o assunto. Seja como for, o mrmore 
proporcionava um fundo branco que em alguns lugares era deixado sem pintura, talvez para 
realar mais ainda o resto colorido. Experimente imaginar as mtopas de Fdias brancas e 
em plena luz do sol: o que est vendo? Nada. No daria para ver nem os contornos nem o 
sombreado. A cor era indispensvel.

-E a esttua dentro do Partenon? Como  que Fdias conseguia juntar o ouro e o marfim na 
mesma escultura?

- Parece que era uma tcnica bastante comum. J faz alguns anos que no Museu de Delfos 
est exposta uma esttua de Apoio com algumas panes de marfim, o rosto, se eu estiver 
lembrando direito, e outras em lmina de ouro. No  muito grande, apenas uns poucos 
centmetros, mas  provvel que Fdias se tenha inspirado justamente nessas pequenas 
imagens para criar efeitos de tirar o flego ao reproduzi-las em escala maior. Na verdade, 
ele primeiro esboava uma esttua de madeira que servia de suporte, depois aplicava em 
cima dela as panes de marfim e de ouro que haviam sido anteriormente esculpidas ou 
fundidas em moldes especiais. Talvez usasse pregos do mesmo material para fix-las, ou 
ento recorria a algum tipo de encaixe de presso. Um desses moldes foi encontrado em 
Olmpia, na oficina onde talvez estivesse trabalhando na montagem do Zeus.

- Que fim levou a esttua?

- Eram objetos muito perecveis: o supone de madeira, por exemplo, podia virar um ninho 
de ratos que nele encontravam abrigo; todos os anos, alm do mais, as peas de ouro eram 
desmontadas para ver se mantinham o mesmo peso, e isto tambm devia criar alguns 
problemas. De qualquer maneira parece que a esttua acabou sendo levada a 
Constantinopla, onde permaneceu durante sculos at, de repente, nunca mais se ouvir falar 
nela.  bastante provvel que tenha sido fundida para recuperar o ouro ou algo parecido, 
talvez na poca das cruzadas.

- E os mrmores foram levados pelos ingleses?

- Essa  uma outra histria. E acho que nunca mais iro voltar. Se todos pedissem de volta
as coisas que foram levadas pelos vrios conquistadores da vez, criar-se-ia uma tal confuso
que ningum entenderia mais coisa alguma. Se dependesse de mim, mandaria fazer cpias
idnticas de mrmore e as colocaria no devido lugar. O efeito seria grandioso e, a meu ver,
aceitvel at do ponto de vista filolgico. Afinal de contas, at no Erection




as caritides so cpias: as esttuas originais esto no Museu da acrpole. Por que no fazer
o mesmo com os mrmores Elgm?

subir l em cima para ver, depois de tudo ficar pronto. Sozmho. E ai lera Epitfio de PricL, 
do jeito aue voc fez. Como  mesmo? "Gostamos do belo mas com comedimento... " - 
Declama em grego,  algo comovente.

VIII

A CIDADE IMPERIAL

Como se vivia em Atenas na poca de Pricles? Quais eram as atribuies do Conselho, da 
Assemblia, dos militares? Quem comandava e quem obedecia? No  fcil, para ns 
modernos, entender aquele tipo de sociedade em que, de certa forma, o sistema 
democrtico havia sido levado s extremas conseqncias. Basicamente o povo tinha o 
controle direto sobre tudo o que tinha a ver com a vida da cidade, cabendo-lhe as escolhas 
de tipo econmico, poltico, diplomtico e militar. Parece-nos quase inimaginvel um Estado 
sem um governo, sem um chefe de governo, tampouco sem uma magistratura, e no qual os 
representantes do povo no so eleitos e sim escolhidos por sorteio. Mas, na realidade, a 
situao dos atenienses era exatamente esta.

O rgo soberano era a assemblia do povo, que se reunia ao ar livre no morro da Pnice, 
perto da acrpole. No caso de haver um desastre ou uma calamidade, ou de chegar a notcia 
de uma derrota militar, no havia um governo para se apropriar da informao e decidir, 
depois das devidas confabulaes, o que contar e o que no contar ao povo, como hoje 
acontece at nas democracias mais avanadas. Os arautos convocavam uma reunio urgente 
e os mensageiros falavam diante do povo que, de imediato, comeava a discutir o assunto. 
Havia,  claro, uns monitores para regulamentar o debate, mas nada mais do que isto. A 
atividade poltica e de governo, como ns poderamos defini-la hoje em dia, consistia em 
convencer os cidados a votar esta ou aquela moo: e justamente a aparecia o carisma dos 
lderes, como Efialtes ou Pricles ou como, antes deles, Aristides, Temstocles e Cmon.

Estes homens levantavam-se, pediam a palavra e comeavam a falar recorrendo a toda a sua 
habilidade oratria, prestando certamente ateno  postura,  impostao da voz, ao aspecto 
exterior (aquilo que hoje chamarse-ia de look: o corte do cabelo, as roupas etc.), elementos 
muito importantes para os gregos em geral e mais ainda para os atenienses. Pricles, por 
exemplo, foi um homem muito bonito, mas, ao que parece, tinha a cabea um tanto 
alongada para trs e por isto mesmo sempre aparecia em pblico


132

com um elmo corntio que quase lhe encobria a testa: isto dava-lhe um ar bastante marcial e, 
ao mesmo tempo, disfarava a sua imperfeio.

Um tipo de debate como esse tampouco deixava muita margem para a trapaa, pois era 
impossvel saber de antemo qual seria a resposta dos adversrios, que medidas iriam tomar 
e quais surpresas poderiam estar guardando. Em outras palavras, os lderes tinham 
praticamente de ganhar com continuidade a confiana das pessoas, dia aps dia, 
convencendo a assemblia da bondade e da oportunidade de uma determinada deciso ou 
providncia. O Conselho dos Quinhentos deliberava, mas as suas resolues tinham mesmo 
assim de passar pelo crivo da Assemblia, que podia aceitlas, mas tambm descart-las se 
as considerasse inaceitveis, ou devolv-las ao proponente para que fossem modificadas. 
Qualquer cidado tambm podia se levantar e apresentar a sua proposta individual, mas 
devia medir com cuidado as palavras, porque, se por acaso a sua proposta fosse considerada 
uma bobagem ou apenas uma perda de tempo, ele podia ser multado at com bastante rigor. 
Isto devia pelo menos evitar que o trabalho da Assemblia ficasse atolado num mar de 
propostas estapafrdias apresentadas por pessoas despreparadas e de algum modo 
desavisadas. Quando uma deciso era aprovada pela maioria, o secretrio redigia o decreto 
que comeava sempre com a frmula: "A Cidade e o Povo acharam justo que..."

A contra-indicao mais visvel de tal sistema foi aquela que at hoje  conhecida como 
demagogia, isto , o tipo de degenerao da democracia: a possibilidade de alguns 
indivduos particularmente desabusados inflamarem os nimos com argumentos irracionais 
ou passionalmente tendenciosos, levando a assemblia a aprovar decises arriscadas ou 
prejudiciais para

o bem pblico.

O Estado estava presente na vida cotidiana por meio de inspetores, sempre escolhidos por 
sorteio, que controlavam pesos e medidas, o teor da liga das moedas, a qualidade do po e 
dos alimentos, Estes inspetores tambm tinham autoridade sobre servios pblicos, tais 
como a limpeza urbana, a localizao dos depsitos de lixo, o respeito por parte dos 
construtores das reas de interesse comum e das ruas, que no podiam ser invadidas nem 
mesmo por uma sacada. O Estado tinha escravos que usava no trabalho de limpeza urbana, 
assim como na remoo de cadveres em caso de morte de indigentes sem-teto - que 
certamente no deviam faltar na cidade - ou

durante as epidemias.

Tambm cabia ao povo administrar a justia: segundo a reforma de Efialtes, a cada ano eram 
sorteadas seis mil pessoas (seiscentas para cada tribo) que iriam se revezar nas mesas dos 
tribunais populares. Os requisitos para participar do sorteio eram ter pelo menos trinta anos 
de idade, ser cidado de Atenas e no ter dvidas com o Estado.



133

Uma vez sorteados, os membros dos tribunais juravam respeitar os decretos da Assemblia 
popular e do Conselho, combater contra qualquer um que tentasse implantar a tirania ou a 
oligarquia, julgar com imparcialidade e no se deixar corromper com propinas e donativos.

Como j dissemos, no havia magistratura e, portanto, tampouco havia ao legal de ofcio, 
nem promotoria pblica, nem advogados. O prprio cidado intentava uma ao legal contra 
a parte que, a seu ver, o prejudicara, causando-lhe qualquer tipo de dano, desde o simples 
roubo at abusos muito mais graves. O acusador era o primeiro a falar, e ento a palavra 
passava ao acusado: ambos tinham ao seu dispor um tempo determinado que era medido 
com uma ampulheta. s vezes o acusado tentava comover o jri debulhando-se em pranto, 
ou trazendo consigo mulher e filhos que gemiam e soluavam em lgrimas; quase todos, de 
qualquer forma, chegavam com o discurso de acusao ou de defesa j pronto, escrito por 
um profissional ao qual se dava o nome de loggrafo (literalmente "escritor de discursos"), 
que conhecia a maneira certa de apresentar a argumentao e os truques para tirar a maior 
vantagem possvel dela e impressionar favoravelmente os jurados. De um destes 
profissionais, um forasteiro residente que se chamava Lsias, chegaram at ns vrios 
discursos de defesa muito interessantes que nos permitem ter uma idia bastante clara da 
vida da cidade no sculo V a.C. Voltaremos a falar num deles mais tarde, para darmos uma 
olhada dentro das paredes domsticas de uma casa ateniense da poca.

Tanto o acusador quanto o acusado traziam consigo testemunhas a favor e contra, que 
tinham a sagrada obrigao de dizer a verdade.

Depois de se ouvirem as partes, o jri votava com escrutnio secreto e por maioria simples; 
em seguida pronunciava-se o veredicto, sem possibilidade de apelao. Qualquer que fosse 
o resultado, o processo conclua-se no mesmo dia. Nos casos mais srios e graves, ou de 
interesse geral, podia acontecer uma seo plenria da qual participavam todos os seis mil 
membros do tribunal, mas at mesmo numa seo simples j havia um nmero 
suficientemente grande de jurados para desestimular qualquer tentativa de suborno.

Tratava-se sem dvida de um sistema simples e no conjunto eficiente, mas, mesmo assim, 
no totalmente isento de distores. Como no caso dos bem conhecidos sicofantas. A 
palavra tem etimologia incerta e indica os denunciantes, os acusadores profissionais. Eram 
indivduos desprezados por todos, mas, a julgar pelo seu nmero, tratava-se evidentemente 
de uma profisso bastante lucrativa. Eram muito teis, por exemplo, a quem quisesse cortar 
as ambies de um adversrio poltico ou deixar numa enrascada algum concorrente no 
campo econmico. O acusador profissional, mediante uma quantia bastante compensadora, 
providenciava os fundamentos da


134 

acusao com as testemunhas para intentar a causa.  claro que ele se arriscava, mas nem 
tanto assim. A disponibilidade de dinheiro era provavelmente suficiente para ele encontrar 
testemunhas convincentes. s vezes o sicofanta podia at intentar causas muito justas, que 
nunca seriam levadas aos tribunais se o acusado no fosse de algum modo uma pessoa de 
uma certa relevncia. O adversrio, de qualquer maneira, fazia com que o acusado no 
pudesse evitar a ao legal, grudando em cima dele o profissional, que no largava o osso 
at alcanar seu objetivo.

As penas a serem aplicadas no eram codificadas em uma jurisprudncia, que no existia, 
mas sim sugeridas caso a caso pelo acusador, que podia pedir indenizaes monetrias ou 
verdadeiros castigos que, na verdade, eram normalmente bastante comedidos. Exigncias 
absurdas ou cruis s serviriam para levantar suspeitas acerca do requerente e irritar os 
jurados, coisa que sem dvida era melhor evitar.

Tampouco existia uma polcia como a imaginamos hoje em dia: sem atribuies 
investigativas, a ela s cabia a manuteno da ordem pblica e a execuo das sentenas. 
Nos teatros, e por ocasio de grandes festas religiosas, havia escravos do Estado ou 
mercenrios citas armados com arcos que cuidavam da segurana. O pesado sotaque com 
que falavam a lngua tica era motivo de troa e de piadas de todo tipo, como alis at hoje 
acontece com as foras pblicas nos pases em que h marcadas diferenas dialetais. Os 
cargos eletivos eram relativamente poucos, mas entre eles havia o mais importante de todos: 
a estratgia, isto , a patente de comandante das grandes unidades do exrcito e da marinha. 
Os cidados elegiam um estratego para cada tribo, formando assim um estado maior de dez 
altas patentes que, por sua vez, elegiam o comandante supremo. Pricles, por exemplo, 
ocupou este cargo por quase vinte anos seguidos, graas principalmente ao seu carisma 
pessoal e ao apreo de que gozava junto aos cidados, mesmo que ainda assim no ficasse 
isento dos ataques ferozes das stiras de poetas cmicos como Aristfanes, ou da oposio, 
que procurou denegri-lo indiretamente ao acusar as pessoas que lhe eram queridas.

A carreira de Pricles teve um impulso repentino logo depois da morte de Efialtes, que 
provavelmente pagou com a vida a introduo de reformas to avanadas. O novo lder no 
s no se deixou atemorizar pelo assassinato do seu antecessor, como tambm seguiu em 
frente com determinao ainda maior, introduzindo, como j vimos, uma diria de dois 
bolos para cada membro dos jris populares, uma de cinco bolos para os membros do 
Conselho, e uma de quatro para os arcontes. Isto permitiu abrir as portas da mais prestigiosa 
magistratura da cidade, antigo privilgio da aristocracia, primeiro aos zeugitas, isto , os 
pequenos agricultores, e depois at aos tetos, os trabalhadores braais sem qualquer outro 
tipo de renda. Tratava-se



135

de medidas totalmente inditas que transformavam em realidade concreta e integral a 
constituio democrtica, pois de fato permitiam a qualquer cidado ateniense, at mesmo o 
mais pobre, participar das decises polticas e fazer ouvir a sua voz mesmo nas mais 
importantes deliberaes.

Por isto, ao comemorar os que haviam morrido durante o primeiro ano do grande conflito do 
Peloponeso, Pricles pde proclamar com orgulho: "Nas causas pblicas cada um  
escolhido pelo apreo que soube merecer e pelos seus mritos pessoais, e no devido ao 
seu partido, e quem tem a capacidade de fazer algo til para a cidade no  impedido pela 
pobreza ou pela sua humilde condio social..."

Mas Pricles no parou por ali: ciente de que a admisso das classes mais pobres na gesto 
do poder tambm poderia criar problemas, favoreceu de todas as formas possveis a 
promoo cultural do povo, introduzindo um subsdio de dois bolos para os indigentes que 
quisessem assistir s representaes teatrais, mas que no tinham condies para comprar a 
entrada, que custava justamente dois bolos. Se considerarmos que esta quantia 
correspondia ao que um operrio ganhava por dia ou, como vimos,  diria de um jurado, e 
tendo em mente que o espectador podia, por aquele preo, assistir a pelo menos cinco ou 
seis espetculos desde de manh at o entardecer, podemos calcular que a entrada custava 
mais ou menos quanto ns temos de pagar agora para irmos ao cinema.

S assim podemos explicar a imensa fama de que gozaram os grandes poetas trgicos, 
mesmo nas camadas mais humildes da populao.  evidente que o Estado considerava 
fundamental para a cidadania e a formao cultural das pessoas o fato de elas poderem 
assistir s representaes teatrais. Ao mesmo tempo, a presena de milhares e mais milhares 
de cidados nos debates da Assemblia do Conselho e dos tribunais populares era para 
todos uma verdadeira escola de oratria pblica, de discusso dos grandes assuntos de 
interesse comum, de anlise e de comparao. Tambm devemos reconhecer, 
principalmente a partir do sculo V, o papel relevante da comdia, cuja funo de stira a 
respeito dos grandes polticos representava uma garantia formidvel de liberdade de 
expresso que talvez nunca mais tenha sido to completa.

Podemos dizer que tudo contribua para formar a conscincia da cidadania na Atenas de 
Pricles: as grandes festas religiosas, por exemplo, eram momentos de agregao, alm de 
celebrao. Com estas imponentes manifestaes os cidados renovavam o seu pacto com 
as divindades padroeiras como Aten, a deusa que quase se identificava com a cidade.

De lana na mo, a sua gigantesca esttua vigiava, do topo da acrpole, a cidade e- o porto 
aos seus ps. E uma outra esttua, tambm de Fdias e ainda maior, erguia-se dentro do 
Partenon. Os fiis que entravam para pres-


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tar-lhe homenagem passavam pelas imponentes colunas dricas da fachada, sob a grandiosa 
composio inserida no espao triangular do tmpano frontal no qual se contavam os mitos 
das origens, e, ao se aproximarem do santurio, j podiam perceber a absoluta harmonia, as 
propores ureas que Ictino fundamentara no pitagrico valor da raiz quadrada de 5. A, 
superado o prtico da fachada, viam-se diante do elegante e esbelto portal jnio da cela e 
podiam admirar, a toda volta logo abaixo da cornija, o friso que representava o cortejo das 
Panatenias com os jovens a cavalo, as jovens levando nas mos os peplos que elas mesmas 
haviam tecido e bordado como presentes para a deusa, os sacerdotes com a cabea 
enfaixada pelas tiras sagradas, as crianas cantando hinos de louvor, os magistrados e os 
cidados comuns, num triunfo de cores e formas harmoniosamente mesclados num ritmo 
majestoso e sereno.\E ao passar pelo umbral, logo que os seus olhos se acostumassem com 
a penumbra e o recolhimento do verdadeiro santurio, o ateniense vislumbrava no fundo da 
grande nave central o brilho do ouro das vestes, do elmo cristado, do imenso escudo da 
deusa. Via a luz ambreada das tochas refletindo-se na sua pele de marfim. E se o sol 
penetrasse com seus raios atravs da grande clarabia no teto, o gigantesco simulacro 
incendiava-se em clares ofuscantes que se refletiam nas colunas e nos muros da cela num 
jogo de luzes mutveis, criando no espectador a impresso de que os deuses realmente 
moravam naquela casa de mrmore.

Como moldura daquele fantstico conjunto Pricles quis uma monumental colunata de 
entrada: os Propileus, cuja execuo foi entregue a um arquiteto chamado Mnesicles que, 
quase certamente, trabalhou lado a lado de Calcrates, um dos dois arquitetos do Partenon. A 
tarefa no era simples: o grande trio devia pr em comunicao duas reas 
consideravelmente desniveladas, a interna da esplanada e a externa que, do lado ocidental, 
dava para a ngreme encosta da colina. Alm disto, j existia no local uma estrutura da poca 
de Pisstrato, o propylon, que de alguma forma era preciso respeitar. Ele criou ento uma 
estrutura ligada ao exterior por uma escadaria, mas com uma nave central que encobria a 
rampa que devia ficar livre para permitir a passagem dos cortejos com os carros, os 
cavaleiros e as liteiras. Conseguiu realizar um conjunto extraordinariamente harmonioso no 
qual os frontes externos e as colunatas horizontais dos lados leste e oeste eram em estilo 
drico, enquanto a rampa central era margeada por uma esbelta colunata jnia que, com 
maravilhosa elegncia, dava leveza  macia estrutura drica de grandes colunas caneladas 
com mais de dez metros de altura. A nave era finalmente encimada por gigantescas vigas de 
mrmore com seis

metros de comprimento.

Este enorme canteiro de obras que dali a alguns anos seria coroado pela ousada e 
extremamente elegante estrutura do Erection era na verdade uma



137

maravilhosa escola da mais pura e requintada cultura, ao ar livre, em plena luz do dia. As 
lojas dos artesos misturavam-se com o povo, dando para a agora ou surgindo no 
emaranhado de ruas que partiam das encostas do rochedo sagrado rumo  ampla cerca das 
muralhas. Durante a construo do Partenon e a realizao das suas mtopas, dos seus frisos 
e dos conjuntos esculturais dos frontes, as oficinas de muitos escultores tiveram 
provavelmente de ficar na prpria esplanada para se evitar o risco de arriscados transportes; 
o anedotrio clssico est cheio de histrias em que o povo interage com os artistas, 
expressando suas opinies e crticas, exatamente como aconteceu mais tarde em Florena 
durante o Renascimento italiano.

Nesse mesmo perodo desenvolveu-se todo um conjunto de idias que, arraigando-se nas 
pessoas de forma a favorecer no somente a explorao da alma humana como tambm uma 
especializao da inteligncia em sentido racionalista, acabou tendo aplicaes at na vida 
prtica. Os intelectuais que difundiam este novo tipo de cultura eram chamados de sofistas, 
literalmente "grandes sbios", e ofereciam o seu saber na forma de lies pagas. 
Dedicavam-se particularmente a ensinar retrica aos jovens que tencionavam seguir a 
carreira poltica, e os seus ganhos eram to vultosos que muitos os consideravam um 
verdadeiro escndalo. Alguns tinham-se dedicado  redao de manuais de mnemnica, 
outros de gramtica. De modo geral, podemos dizer que eles proporcionavam aos jovens os 
meios para alcanarem o sucesso, independentemente das convices ticas e da fidelidade 
s instituies. Distinguiu-se entre eles Grgias de Leontinos - cujos honorrios eram 
considerados exorbitantes - que tambm fazia parte da roda de Pricles, contribuindo para 
fortalecer a imagem de um crculo exclusivo um tanto esnobe e no conforme s tradies. 
Nunca chegaram a constituir uma escola de pensamento, mas proporcionaram aquilo que 
hoje chamaramos de instruo superior especializada, alguma coisa que sem dvida fazia 
falta e respondia s exigncias do momento.

De qualquer maneira, o seu racionalismo exasperado e amide conjecturado, baseado numa 
dialtica irreverente e zombeteira que os levava a dizer que tudo e o contrrio de tudo podia 
ser demonstrado, fez com que tivessem um sucesso avassalador, principalmente entre os 
jovens que viam neles uns vencedores, os porta-bandeiras de uma mentalidade de algum 
modo revolucionria: a competncia desvinculada da moral. Por outro lado, porm, essa 
postura tornava-os malvistos pelas classes mais conservadoras, ciosas das tradies e dos 
valores da paidia, isto , da educao transmitida pelos antepassados, que tinha os seus 
alicerces no respeito pelos deuses, pelos rituais e pel0s~v3ortpatriticos. A palavra 
"sofisma" tornou-se sinnimo de raciocnio! capcioso, Wpecvel e at mesmo genial do 
ponto de vista lgico, mas fundamentalmerite absurdo no que dizia respeito  substncia. Os 
sofis-


138 

tas tornaram-se o smbolo de uma tendncia, j bastante visvel na sociedade ateniense, que 
s visava a sucesso, a dinheiro, a prazer e  carreira, deixando ao mesmo tempo embotados 
os valores dos ideais e da moral.

Contam de um estudante que tinha assinado com Grgias um contrato pelo qual iria lhe 
pagar o custo do curso (a enormidade de quatro talentos por dois anos de aulas) logo que 
ganhasse a primeira causa. Mas uma vez que o jovem nunca se empenhava em contendas 
legais, o mestre decidiu aparecer pedindo a remunerao combinada, pois do contrrio 
arrastaria o aluno diante dos tribunais. O jovem, no entanto, aprendera muito bem a lio e 
retrucou: "Perders de qualquer maneira, mestre. Se eu vencer no terei de pagar, 
justamente por ter tido ganho de causa, e se perder tampouco te pagarei porque, segundo o 
contrato, s teria de fazer isto em caso de vitria."

Quem deu incio a uma verdadeira escola filosfica em Atenas foi um sbio que vinha da 
sia: Anaxgoras de Clazmenas, uma cidade da Jnia. Parece que chegou por volta de 
480, com pouco mais de vinte anos, e h quem diga que estivesse ao squito da invaso 
persa de Xerxes. Fixou-se de qualquer forma em Atenas, onde se tornou mestre e mentor 
de Pricles, quem sabe maitre  penser e certamente animador do maior conjunto de 
talentos e crebros do mundo da poca. Alm do prprio Pricles, formavam este grupo o 
escultor Fdias, os arquitetos do Partenon Ictino e Calcrates, o poeta trgico Sfocles, que 
fora companheiro de Pricles na expedio a Samos de 440, muito provavelmente o 
historiador Herdoto (que participou da expedio colonial ordenada por Pricles em 443 
para fundar a cidade de Tri, na Itlia, no mesmo local da antiga Sbaris), e outros grandes 
sbios, polticos e artistas.

Anaxgoras foi o primeiro a afastar-se do materialismo de Demcrito, separando da matria 
o nous, isto , a inteligncia que a seu ver regia o cosmo. Neste aspecto ele lembrava uma 
idia do seu contemporneo Empdocles de Agrigento, que j dissera: "Deus  um 
pensamento que corre veloz

pelo Universo."

A queda de um meteorito em Egosptamos, na Trcia, em 468 ou 467 a.C., foi o que 
provavelmente inspirou a sua teoria cosmolgica, na qual parece quase possvel divisar de 
alguma forma o conceito de gravitao universal quando ele afirma que os corpos celestes 
no caem enquanto forem sustentados pelo movimento de rotao. Disse abertamente que o 
Sol no era um deus, mas sim uma massa de metal em brasas maior do que o Peloponeso; 
uma afirmao que hoje nos faz sorrir, mas que, naquela poca, alm de demonstrar uma 
notvel intuio - pois afirmava que o Sol era uma massa de matria ardente de grandes 
dimenses - tambm era uma tomada de posio bastante perigosa, uma vez que negava a 
existncia de um dos mais importantes deuses do panteo, coisa que de fato, como veremos 
mais



139

tarde, realmente o levou a quase ser condenado  morte. De onde tirara, Anaxgoras, tal 
afirmao? Provavelmente ele notara que o meteorito era de ferro e que ficara em brasas 
enquanto atravessava o cu. Talvez tenha calculado a proporo entre as dimenses do 
meteorito e a sua consistncia luminosa, comparando-as em seguida com as do sol. Em 
outras palavras, se aquele corpo vindo do cu era de metal, o sol tambm devia s-lo, 
sempre guardando obviamente a diferena de tamanho.

Uma estrela de luz e fascnio irresistvel brilhou nessa galxia de engenhos extraordinrios: 
a maravilhosa Aspsia, uma hetera de Mileto que se tornou a companheira Inseparvel de 
Pricles e a animadora da sua roda poltica e cultural.

Como j vimos, as heteras eram mulheres independentes, livres, bemeducadas e cultas que, 
lembrando de alguma forma as gueixas japonesas, haviam sido criadas e preparadas para 
serem "companheiras" dos homens na diverso, nos simpsios, nas festas e nos banquetes, 
para animar as conversas, tocar flauta, fazer amor. Eram elegantes e requintadas e, 
principalmente aquelas que, como Aspsia, vinham da Jnia, mostravam tamanha elegncia 
nas roupas, nas jias, nos penteados, tamanha fascinao nas palavras, na melodia toda 
particular do sotaque, que as mulheres atenienses mal podiam sonhar em competir com cias.

O prprio nome de Aspsia era alusivo e sedutor, tendo o mesmo radical do verbo 
aspasesthai (abraar). Quando a conheceu, Pricles j tinha dois filhos de um casamento 
anterior, Xantipo e Paralo, mas, como insinuava maldosamente um poeta satrico, 
apaixonou-se a tal ponto pela linda mulher que a visitava sempre, pelo menos duas vezes ao 
dia, at chegar a conviver abertamente com ela. E, quando Aspsia lhe deu um filho, 
chamou-o de Pricles e reconheceu-o como legtimo, embora a lei no permitisse, pois a 
criana havia nascido de uma concubina, ainda por cima estrangeira. Pricles conseguiu at 
fazer com que fosse modificada a lei sobre a nacionalidade para que o filho pudesse ser 
ateniense, e  provvel que s tenha conseguido isto recorrendo a todo o prestgio e a toda 
a influncia que tinha junto do povo.

 claro, entretanto, que a coisa no iria ficar apenas nisso: ele era um homem to importante 
que no podia deixar de ser alvo das alfinetadas da stira. Um fragmento de uma comdia 
de Euplis apresenta em cena o prprio Pricles que, falando do filho tido com Aspsia, 
pergunta: "Ainda est vivo o meu bastardo?", e o interlocutor: "Est, e at seria um homem 
e tanto se no fosse pelo medo que tem daquela puta da me."

Cratino, outro poeta contemporneo de Euplis, sempre falando de Aspsia chama-a de 
"Concubina, cara de cadela".

No h prova alguma de que as observaes naturalsticas de Anax-


140 

goras tenham de alguma forma influenciado Scrates, que estava com pouco mais de vinte 
anos. Parece contudo que nessa poca este ltimo freqentava as aulas de um filsofo 
naturalista chamado Arquelau, um interesse passageiro que alguns anos depois iria abrir 
espao para um profundo envolvimento com os temas ticos, levando-o  criao de uma 
verdadeira filosofia moral. Como veremos mais tarde, a vida de Scrates tambm foi 
profundamente marcada pela poltica de Pricles pois, ao estourar a guerra do Peloponeso, o 
filsofo tembm teve de partir para cumprir o seu dever de soldado, distinguindo-se alis 
com atos de extraordinria coragem e desdm

pelo perigo.

No que diz respeito a intervenes externas por parte das foras atenienses, a nossa fonte 
principal, Tucdides, assinala a expedio de 440 contra Samos, que sara da liga de Delos. 
Pricles respondeu com uma macia ao militar, cercando a ilha com um impenetrvel 
bloqueio naval. Depois de nove meses, em 439, a ilha rendeu-se. Na verdade houve outras 
intervenes alm-mar por parte da metrpole tica: a fundao da colnia de Anfpolis, na 
Trcia, no lugar chamado "nove estradas", e a expedio  Itlia para fundar a colnia de 
Tri, a ltima colnia grega ocidental, no mesmo lugar da destruda Sbaris. Herdoto 
participou da misso e pde ver os sinais das obras com que os vencedores, os habitantes de 
Lcri e de Crotona, desviaram o rio Crti para as runas da cidade arrasada a fim de apagar 
at a sua lembrana. No contexto da operao tambm haviam sido estipuladas alianas com 
Rgio, colnia calcdica no estreito de Messena, e com

Leontinos na Siclia.

Tratava-se de decises polticas e militares que, no que dizia respeito a Esparta, no feriam 
o reconhecimento das esferas de influncia definidas com o tratado de paz de 445. Os 
atenienses, contudo, e Pricles mais do que qualquer outro, j se davam conta claramente da 
inelutvel evoluo da sua poltica exterior e da contradio entre esta e os ideais internos 
de democracia. Os atenienses sabiam muito bem que a liga era na prtica o seu imprio e 
por isto mesmo tendiam a impor regimes democrticos nas cidades que dela participavam. 
Ao mesmo tempo, era bastante lgico que as cidades ainda regidas por um sistema de tipo 
oligrquico olhassem com bons olhos um relacionamento com Esparta, que continuava 
sendo o baluarte da oligarquia no mundo grego.

Muitos estudiosos tm insistido em frisar que o que ia opondo cada vez mais a liga dlio-
tica  liga do Peloponeso no eram apenas assuntos de tipo econmico e territorial, mas sim 
e talvez principalmente problemas de cunho ideolgico. Mais cedo ou mais tarde esta 
contraposio iria levar ao choque frontal, ao conflito mais desastroso na histria da Grcia. 
As premissas estavam no expansionismo imperialista de uma grande potncia demo-



141

crtica cujo lder supremo no conseguia nem podia ver outro caminho para ela a no ser o 
dinamismo incessante da ao expansionista. Quando por fim chegou a hora da prestao de 
contas, j era tarde para voltar atrs: a nica alternativa a uma guerra contra Esparta seria 
uma luta igualmente sangrenta para sufocar a insurreio generalizada dos aliados, nesta 
altura cansados de uma presso fiscal que se tornara intolervel e que s servia para 
financiar os mais ambiciosos projetos internos e externos da cidade dominadora. As palavras 
que Tucdides atribui a Pricles no deixam dvidas: "Porque ela possua o seu imprio 
assim como um tirano possui a sua autoridade: pode parecer injusto conseguir o poder, mas 
 certamente perigoso desistir dele."


30 de outubro de 1999

Percebo que as coisas esto piorando e que Kostas tem cada vez mais dificuldade para falar, 
mas eu insisto, telefono com bastante freqncia, pois quero fazer-lhe companhia e porque 
acho que, de qualquer maneira, este tipo de conversa faz, com que se sinta melhor. Tenho 
algumas dificuldades na hora de falar com a jovem kosovara: fala grego pior do que eu e 
com um sotaque que o torna completamente incompreensvel. E no temos outra lngua em 
comum.

- Como  que voc consegue entend-la? -pergunto.

- No h muita coisa para entender. No conversamos muito, afinal. Ela traz os meus 
remdios, estica a cama... E isto j  muito... podia ser pior.

- No fique pensando nessas coisas,  melhor voltarmos  nossa pesquisa. Viu como a sua 
acrpole acaba sendo a protagonista nesta parte do livro?

- Vi, e deu-me vontade de voltar l em cima. Sabe de uma coisa? Quase lastimo nunca mais 
ter ido visit-la. Agora que j no posso, gostaria de ir. Antes, quando eu podia, ento no ia 
quase nunca.

-  normal, Kostaki.

- E sabe mais o qu? Gostaria de ter passado por l enquanto estava em obras. Um sujeito ia 
chegando, encontrava Calcrates de esquadro e compasso na mo, dava mais alguns passos 
e dava de cara com Fdias e todo o seu time de ajudantes. Quase parece que o estou vendo, 
com o cabelo todo esbranquiado devido ao p do mrmore...

-  verdade. Provavelmente usavam raspadeiras e devia haver uma poeira e tanto.

- E aquelas arquitraves... Seis metros, blocos de seis metros, inteirios, e levantaram-nos a 
uma altura de dez metros, certo?

- Certo.

- Como conseguiram?



143

- Planos inclinados, trens, guindastes e roldanas.  s disto que eles dispunham, pelo que 
nos  dado saber. Mas parece que bastava. Voc j viu a amarrao dos blocos de mrmores 
em Garrara? No, acho que no. Era algo parecido, s que aqui o bloco desce, enquanto l 
subia. Seja como for, as peas ficavam num tren de madeira que deslizava sobre uma 
rampa engraxada, puxado por animais de carga e preso a cordas que primeiro passavam por 
roldanas verticais fincadas no lugar mais alto, isto , bem no topo, e depois por roldanas 
horizontais ligadas aos tambores dos guindastes, um  esquerda e outro  direita na 
esplanada, movidos por umas dzias de homens e controlados por rodas dentadas com trava 
para evitar que a carga se soltasse.

Ouo um tilintar de copos e colheres do outro lado da linha. Deve ser a hora do remdio ou 
do suco de laranja.

- Sabe de uma coisa? - diz depois de algum tempo. - No entendo por que todo o mundo 
mete o pau nos sofistas. Li alguns dos seus textos e concordo plenamente com eles: eu 
mesmo poderia ter escrito aquilo.

- No  bem assim: nem todos desgostam dos sofistas. Acontece que em certa altura 
Scrates ficou de mal com eles, atacando-os do ponto de vista da honestidade intelectual e 
da moral individual, e Scrates  um dos grandes, um dos maiores, que alis acabou sendo 
um mrtir, e estas coisas tm o seu peso na histria. Seja como for, concordo com voc, o 
fenmeno dos sofistas foi basicamente um fenmeno positivo que respondia a uma 
necessidade precisa de uma sociedade em tumultuado desenvolvimento: profissionalismo, 
especializao, instruo superior. Mas  claro que isto tambm tem seus lados negativos: 
arrivismo, cinismo, busca do sucesso a todo custo.

- Tudo bem, no vou negar, mas no  exatamente isto que os nossos advogados fazem nos 
tribunais? Ser que eles no se portam agora exatamente como os sofistas, e sem que 
ningum fique escandalizado? Em resumo, se eu mato fulano de tal e for procurar um 
advogado, ele vai tentar provar de todo jeito que sou inocente. Mas se, ao contrrio, ele for 
procurado pelos parentes do mono, ele far o possvel para demonstrar que sou culpado. 
Acho at que os sofistas eram bastante modernos.

- E eram mesmo. E por isto que foram to bem-sucedidos: prometiam, e at certo ponto 
garantiam, resultados prticos. O seu mdico j veio v-lo hoje?

- Veio. Ele tambm  um sofista. Disse achar que estou em plena forma.

- Ento est se dando bem com ele ?


144



- um bom rapaz.

- Melhor assim. Tchau, Kostaki, um abrao.

- Tchau. Fique  vontade para ligar quando bem quiser. Por um momento parece-me ouvir o 
som de bouzuki no fundo.

IX

A GRANDE GUERRA

Como era de se esperar, a trgua de trinta anos assinada com Esparta em 446 teve curta 
durao: a situao foi piorando cada vez mais at chegar a uma guerra aberta. Esta tragdia, 
que para o mundo grego  comparvel a uma conflagrao global - uma vez que envolveu 
praticamente todas as potncias do mundo helnico, tanto na ptria como no alm-mar -, 
teve uma testemunha de excepcional envergadura. O seu nome era Tucdides, e participou 
pessoalmente do conflito na qualidade de oficial de alta patente. Em certa altura, por uma 
srie de vicissitudes que mais tarde examinaremos de perto, teve de sair da cena poltica e 
afastar-se para um forado exlio na Trcia, onde se dedicou  redao da maior obra 
histrica da Antigidade, destinada a servir de modelo para todas as geraes futuras. E isto 
tambm faz parte daquele milagre ateniense que de alguma forma procuramos evocar: a 
cidade conseguiu gerar o lcido cronista da sua prpria runa, ao mesmo tempo admirador da 
sua grandeza e da grandeza do seu lder.

Nem mesmo Tucdides, apesar de falar a posteriori, consegue dar uma explicao realmente 
satisfatria para os fatos, e a sua condio de ex-combatente, de soldado diretamente 
envolvido que teve de aceitar da histria um veredicto de derrota, leva-o a uma anlise 
muito precisa e intimamente dolorosa, mas sempre fria e isenta de qualquer sectarismo.

Os historiadores continuam at hoje a se interrogar acerca daquela tragdia: por que os 
atenienses no se contentaram com seus formidveis sucessos? Em 438 o Partenon ficou 
pronto e durante a festa das Panatenias daquele mesmo ano (aquela que aparece no friso 
fidaco da cela) consagrouse com rito solene a gigantesca esttua de ouro e marfim da deusa 
esculpida por Fdias: uma realizao imponente, bastante rdua do ponto de vista 
tecnolgico, de enorme efeito e grande impacto popular. No sculo II d.C. o escritor e 
viajante Pausnias tambm descreveu de forma bastante crtica e com uma atitude 
basicamente esnobe o outro colosso de Fdias: o Zeus em ouro e marfim realizado para o 
santurio do deus em Olmpia. Mas se estes gigantes de alma de madeira podiam de alguma 
forma ser considerados,


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147

Grgias de Leontinos afirmavam ser capazes de responder a qualquer pergunta  queima-
roupa, de qualquer tipo e sobre qualquer assunto. Hpias alis, graas a uma memria 
prodigiosa, deixava o pblico boquiaberto com seus joguinhos intelectuais, como repetir por 
exemplo cinqenta nomes que acabara de ouvir, um depois do outro, na mesma seqncia e 
sem errar. Os sofistas no paravam um s instante: viviam procurando incansavelmente o 
contato com os ouvintes e pareciam consumir-se no desejo de encontrar continuamente 
coisas novas para contar. Na prtica, para eles, a tradio no fazia o menor sentido. E esta 
atitude acabava aparecendo tambm no teatro.

O novo astro das cenas, Eurpides, talvez ele tambm aluno de Anaxgoras, possua uma 
enorme erudio e uma orgulhosa conscincia da prpria inteligncia. Nas suas tragdias 
rompeu decididamente com a tradio ao representar os deuses como seres moralmente 
inferiores aos homens e investigou a psicologia feminina como jamais algum ousara fazer 
antes. A sua Alceste, que aceita morrer no lugar do marido,  uma personagem 
inesquecvel, assim como Media, Hcuba, Andrmaca e Fedra, levadas s cenas durante o 
sangrento conflito do Peloponeso, que representam o aspecto mais obscuro e perturbador da 
guerra, aquele do mudo e cruel sofrimento das mulheres.

As palavras com que Tucdides comea o relato dessa guerra tm um tom austero e solene: 
o de quem se d conta de que comea a narrar um desastre desmedido e aterrador. Nunca 
expressa opinies pessoais, no se deixa tentar pelo sobrenatural, nem por prodgios ou 
orculos: limita-se a apresentar os fatos como eles so, com uma prosa despojada, essencial 
e direta.

A sua admirao por Pricles  imensa: descreve-o como lder grande e generoso, como 
guia iluminado que imaginou para o seu povo o mximo de liberdade que uma comunidade 
poderia almejar. V nele um patriota que ama com paixo a sua cidade e luta com todas as 
suas foras para torn-la cada vez maior e mais gloriosa. Tucdides se d conta de que 
Atenas se meteu num caminho sem volta, enredando-se numa srie infinita de desgastantes 
conflitos contra a rival. Ao mesmo tempo, as constantes aes com que reprimia qualquer 
tentativa dos aliados para se livrarem do seu jugo haviam-na transformado numa cidade-
tirano, encaminhando-a para o fim que espera todos os tiranos: a runa. Disto ele no culpa 
Pricles nem a sua liderana, e tampouco culpa o povo que se rene na Assemblia para 
deliberar; ele imagina uma espcie de componente fatal que  prprio da histria e dos 
eventos humanos: a tyche, a sorte, uma varivel independente que no est sujeita ao 
controle dos homens e que nada tem a ver com a existncia ou a inexistncia dos deuses. 
No caso especfico, o embate final entre Atenas e Esparta era de alguma forma inevitvel 
dentro da lgica das coisas.


148



Nem todos concordam com este ponto de vista e tampouco podemos saber se os 
contemporneos de Tucdides realmente pensavam que a guerra no poderia deixar de 
acontecer, ainda mais porque as iniciativas de Atenas na Itlia e na Trcia, como j vimos, 
no podiam de forma alguma preocupar os espartanos que continuavam limitando o seu 
interesse territorial apenas  rea do Peloponeso.

"Epidamnus  uma cidade que fica  direita de quem navega rumo ao golfo Adritico...":  
assim que comea o relato, com uma simples referncia de tipo geogrfico. Epidamnus 
chama-se atualmente Durrs e  uma cidade da Albnia. Naquela poca era uma colnia de 
Corcira (atualmente Corfu) que por sua vez era colnia de Corinto, cidade-membro da liga 
do Peloponeso e aliada de Esparta.

Os cidados de Epidamnus haviam expulsado os oligarcas que os dominavam e proclamado 
a democracia, mas aqueles aliaram-se aos ilrios, antepassados dos modernos albaneses, 
cercando a cidade com um pequeno contingente. Os moradores da cidade, assustados, 
pediram ento ajuda a Corcira, mas, no obtendo resposta, recorreram a Corinto, metrpole 
(isto , ptria-me) de Corcira, que ao contrrio aceitou ajud-los enviando a Epidamnus 
uma pequena fora-tarefa que rompeu o bloqueio (provavelmente um tanto frouxo) dos 
oligarcas e dos ilrios. Desta vez os corcirenses reagiram prontamente e ordenaram que 
Epidamnus dispensasse de imediato as

tropas corntias.

As colnias haviam sido desde sempre independentes, de direito e de fato, das suas 
metrpoles, com as quais s costumavam manter relaes de homenagem formal, como, por 
exemplo, deixar passar primeiro os delegados delas no caso de estarem em lista de espera 
para as consultas ao orculo de Delfos, e outras coisas no gnero. Podia continuar havendo 
vnculos afetivos at importantes - como os que induziram os atenienses a apoiar a revolta 
dos jnios contra os persas em 494 -, mas  sempre muito difcil separar os motivos de 
solidariedade tnica dos interesses econmicos subjacentes.

Aconteceu, portanto, que os epidmnios simplesmente ignoraram a ordem, e os corcirenses 
responderam enviando a frota e o exrcito que sitiaram a cidade. Era um desafio aberto e 
muito grave contra o qual os corntios decidiram prontamente tomar suas prprias medidas 
de retaliao: para punir Corcira, pediram ajuda a Tebas, Mgara e Epidauro. Desta vez os 
corcirenses ficaram realmente assustados e enviaram uma embaixada a Esparta pedindo que 
a cidade, com o seu prestgio, convencesse os corntios a desistir da sua iniciativa. Deixaram 
entender que, se tal no se desse, iriam procurar ajuda em alguma outra parte: era evidente 
que, embora sem citar nomes, estavam aludindo aos atenienses. Na verdade, os corcirenses 
no estavam de fato querendo uma guerra, nesta altura: queriam apenas usar a



149

intermediao de Esparta para sair daquela enrascada sem ficar com a cara no cho; s que 
os corntios fincaram o p, achando que j tinham ido longe demais para voltarem atrs, e os 
espartanos acreditaram que ainda podiam lavar as mos e deixar que as coisas se ajeitassem 
por si ss.

Corntios e corcirenses enfrentaram-se numa batalha naval em mar aberto e os primeiros 
sofreram uma humilhante derrota. O inverno j estava chegando e as hostilidades foram 
interrompidas, mas Corinto preparou a revanche armando uma imponente esquadra e um 
poderoso exrcito. Mais uma vez os corcirenses ficaram realmente preocupados e pediram 
a ajuda dos atenienses com uma argumentao muito lgica na qual se vislumbra de forma 
bastante evidente o ponto de vista de Tucdides: em resumo, mais cedo ou mais tarde o 
choque entre as duas grandes potncias seria inevitvel. Melhor, ento, que os atenienses 
descessem em campo desde logo ao lado de Corcira, assegurando para si um poderoso 
aliado e o apoio da segunda maior frota de guerra da Grcia. Se ficassem assistindo  
destruio de Corcira sem tomar partido, teriam de qualquer forma que lutar contra os 
espartanos mais tarde, mas desta vez sozinhos. Depois foi a vez dos embaixadores corntios 
que alertaram os atenienses da inoportunidade de se meterem em assuntos que no lhes 
diziam respeito e dos perigos daquela aventura, que poderia revelar-se extremamente 
arriscada.

Pricles avaliou as duas posies com muita ateno: no tinha a menor simpatia pelos 
corcirenses, que estavam ajudando os oligrquicos a sufocar a democracia, e sabia das 
conseqncias talvez irreparveis de um eventual rompimento da trgua com Esparta; 
convenceu ento os seus concidados a estipular com eles uma aliana de tipo meramente 
defensivo, pela qual Atenas se comprometia a socorrer Corcira s no caso de ela ser atacada 
ou invadida.

Longe de ficarem intimidados por esta deciso, os corntios empenharam-se mais ainda no 
preparo da sua expedio punitiva e, com a volta da primavera, apareceram no Jnio com 
sua frota, pronta para o combate. Tendo ao seu lado os contingentes de Mgara e de 
Ambrcia, logo a seguir instalaram uma base naval num lugar bastante estratgico: o 
promontrio Cimrio, perto da foz do Aqueronte e do orculo dos mortos de fira. A frota 
corcirense foi enfrent-los no muito longe das ilhas Sibotas, auxiliada por dez navios de 
guerra ticos que representavam uma contribuio quase simblica, mas mesmo assim 
significativa. Graas  superioridade numrica, os corntios ganharam enquanto os 
atenienses preferiram no travar combate direto, limitando-se a auxiliar os nufragos. A 
batalha durou o dia inteiro e quando, ao entardecer, parecia que os corntios iriam 
desembarcar na ilha de Corcira, os atenienses enviaram um reforo de mais vinte navios, 
que os forou a recuar. Os corntios queixaram-se desta interveno com os espartanos, mas 
a coisa acabou no dando em nada. Os atenienses,


150



por sua vez, reforaram as alianas na Siclia e na Itlia com Leontinos e Rgio; ambas eram 
inimigas de Siracusa, colnia de Corinto.

Atenas sara-se muito bem da situao de perigo em que se metera, mas este notvel 
sucesso conseguido to facilmente deve t-la deixado envaidecida demais, a ponto de achar 
que nada mais tinha a temer de qualquer rival. Antes de mais nada, decidiu ento punir 
Mgara com o pretexto de ela ter cultivado terras sagradas pertencentes ao santurio tico 
de Elusis. Decretou o embargo de todas as mercadorias megarenses que, desta forma, 
ficavam excludas do mercado de Atenas, assim como de todas as cidades da liga de Delos. 
Para a pequena cidade que vivia do comrcio, era o fim. Ameaados em seus interesses 
vitais, os megarenses recorreram a Esparta, pedindo a sua interveno para que o bloqueio 
fosse retirado.

O poeta cmico Aristfanes, que alguns anos depois representou satiricamente a guerra do 
Peloponeso, resumiu mais ou menos assim os antecedentes do trgico conflito:

Uns rapazes um tanto bbedos, depois de um joguinho de cotabo, vo a Mgara e raptam uma puta chamada 
Simeta. Os megarenses ficam ento furiosos e raptam duas putas de Aspsia. E foi assim que estourou a guerra 
entre todos os gregos, por causa de trs marafonas! Pricles Olmpico, de fato, troveja e fulmina... e deixa os 
megarenses esfomeados...

A aluso grosseira a Aspsia reafirma um boato - mais tarde aceito at por Plutarco - 
segundo o qual a amante de Pricles instrua e controlava jovens cortess.

Mais um acontecimento igualmente grave levou a situao  beira do desastre. Potidia, 
uma cidade da pennsula calcdica, membro da liga de Delos, mas colnia de Corinto, 
recebia todos os anos da metrpole os magistrados que iriam operar como seus funcionrios 
pblicos: Atenas ordenou que expulsasse os funcionrios corntios e derrubasse as muralhas 
construdas ao longo da pennsula de Palenas. Potidia recorreu imediatamente  ptria-me 
Corinto enquanto, ao mesmo tempo, procurava ajuda nos territrios limtrofes, inclusive 
junto do rei Perdicas da Macednia, que num primeiro momento pareceu ficar do lado dela.

A afronta era grande demais para os corntios que, desta vez, exigiram uma reunio geral da 
liga do Peloponeso para tratar da crise entre Corinto e Atenas, que parecia ter chegado a um 
inevitvel ponto de ruptura. Esparta, mesmo mostrando-se favorvel  paz, j no podia 
eximir-se, e garantiu que declararia guerra no caso de os atenienses avanarem contra 
Potidia. Ao mesmo tempo Corinto enviou para a cidade um contingente de tropas, 
preparando-se para o ataque ateniense, que j parecia inevitvel. Talvez os atenienses ainda 
esperassem dobrar Corinto sem provocar a reao dos



151

espartanos, tanto assim que chegaram a enviar um embaixador  Esparta na tentativa de 
encontrar algum tipo de acordo. O embaixador nunca chegou ao seu destino e a saraivada 
de acusaes que se seguiu no conseguiu esclarecer o caso, que permanece at hoje um 
mistrio.

No perodo entre 433 e 432 constituiu-se em Atenas um movimento de oposio a Pricles, 
muito decidido, que levou a inmeros ataques contra as pessoas que o cercavam, sem 
contudo conseguir isol-lo. Anaxgoras de Clazmenas, seu mestre e mentor, foi acusado 
de impiedade devido  teoria do nous, isto , da mente universal que regia o mundo na qual 
se podia reconhecer a negao da existncia dos deuses. O crime era extremamente grave 
e comportava a pena de morte. Pricles nada pde fazer para salv-lo, mas  provvel que o 
tenha ajudado a fugir para Lmpsaco, uma cidade da sia Menor, perto dos estreitos.

O leitor moderno pode ficar surpreso ao ver que numa democracia radical como a ateniense 
algum ainda pudesse ser condenado  morte por crimes de opinio ou por convices de 
tipo filosfico, mas  preciso no esquecer que o sistema democrtico s tinha a ver com as 
relaes entre os cidados: a relao entre a cidade e os deuses era uma coisa 
completamente diferente.  bom lembrar que aqueles cidados ficavam no teatro assistindo 
a dipo rei, de Sfocles, em que a cidade de Tebas era arrasada pela peste devido ao 
sacrilgio do seu rei, que matara o pai e casara com a me. Era suficiente, portanto, que um 
"acatador de orculos", como o tal de Diopito, que acusou Anaxgoras, conseguisse 
amedrontar bastante o jri para que se chegasse a um veredicto de condenao. A 
democracia no nos livra do medo nem do irracional.

A esse respeito,  signicativo o episdio narrado por Plutarco de um campons que, de um 
dos seus stios no campo, leva a Pricles a cabea de um carneiro com um s chifre no meio 
da testa. O adivinho Lmpon interpreta a coisa dizendo que dos dois poderes existentes na 
cidade - o de Pricles e o do seu adversrio Tucdides, pessoa que nada tinha a ver com o 
historiador - iria sobrar somente um, isto , o de Pricles. Anaxgoras, por sua vez, rachou a 
cabea do bicho para examin-la e concluiu que se tratava de uma anomalia do crebro.

Mas havia muito mais: uma dplice acusao foi movida contra Aspsia, que foi levada 
ajuzo por impiedade e por proxenetismo, isto , como cafetina. No sabemos em que se 
baseava a acusao de impiedade, mas no que toca a segunda acusao, contavam que 
Aspsia organizava banquetes para os quais convidava mulheres de condio livre para 
encontros erticos com Pricles. Coisas deste tipo so hoje em dia bastante comuns e, a no 
ser que possam ser diretamente instrumentalizadas pela oposio e pelos adversrios 
diretos, conseguem apenas arranhar superficialmente a reputao dos
152



polticos; naquela poca, no entanto, somente as prostitutas e as heteras podiam participar 
dos convvios e dos jogos erticos: convencer meninas de famlia e mulheres de condio 
livre a fazer o mesmo era um crime extremamente grave, pois atentava contra a integridade 
da sociedade e da famlia que dela era o alicerce.

Afinal, para um homem oprimido por imensas responsabilidades que estivesse a fim de 
diverso, uma festinha particular com verdadeiras damas oficialmente "de bem" devia ser 
muito mais excitante. No , portanto, to difcil assim imaginar que esta segunda acusao 
tivesse algum fundamento, pois Aspsia era sem dvida bastante desinibida e de mente 
aberta para querer gratificar o seu homem at deste ponto de vista. Seja como for, Pricles 
defendeu-a pessoalmente diante do jri, com paixo, recorrendo a todo o seu carisma e sem 
mesmo tentar evitar algumas lgrimas.

As coisas no correram to bem para Fdias, amigo ntimo de Pricles e objeto de virulentas 
invejas por parte dos seus colegas, que o viam destinatrio de encomendas muito ricas e da 
execuo de obras que, como bem sabemos, iriam lev-lo  imortalidade. Acusaram-no de 
malversao na construo da esttua de ouro e marfim de Aten no Partenon. Aconselhado 
pelo prprio Pricles, no entanto, Fdias tinha tomado o cuidado de mandar pesar as peas 
de ouro antes da montagem da esttua, podendo ento demonstrar em seguida que o peso 
continuava o mesmo (parece que a partir da a operao de controle do peso passou a ser 
feita todos os anos). Contam tambm que foi acusado do crime que ns chamaramos de 
"culto da personalidade", uma expresso bastante comum nos pases regidos por ditaduras: 
teria de fato representado a Pricles e a si mesmo entre os personagens retratados no 
escudo da deusa.  claro que devia haver mais alguma coisa que infelizmente no resulta 
das nossas fontes, pois sabemos que Fdias acabou morrendo de doena na priso.

Pricles enfrentou praticamente sozinho as responsabilidades e os terrveis desafios da 
grande guerra. A perda de alguns dos seus mais queridos amigos, das cabeas mais 
brilhantes da sua roda, deve t-lo abalado profundamente como um triste pressgio.

Em 432 uma fora-tarefa formada por cinco mil homens e setenta navios de guerra dirigiu-
se  Calcdica e sitiou a cidade de Potidia. Entre os soldados que presidiavam as trincheiras 
em volta da cidade havia o jovem Scrates e um rapaz muito moo, sobrinho de Pricles, 
que iria se tornar um dos protagonistas da poltica de Atenas. Muito bonito, irreverente, 
cnico e inconformista, iria personificar a crise dos valores do mundo das poleis. O seu nome 
era Alcibades.

As coisas tinham chegado longe demais e os espartanos j no podiam se eximir: na verdade 
a guerra j estava em andamento, ainda que o gover-



153

no da cidade e os rgos representativos da liga no a tivessem oficialmente declarado. 
Chegou-se a isto por uma complexa seqncia de pequenos fatos que, inclusive, 
acarretavam o envolvimento do orculo de Delfos. Os espartanos mandaram consult-lo e a 
Ptia exortara-os  guerra. Talvez tenha sido escolhida esta forma de abordagem para se criar 
algum tipo de "excomunho" dos atenienses tambm no plano sacramental-religioso. 
Durante o inverno de 432, com efeito, os espartanos enviaram uma embaixada a Atenas 
pedindo a expulso dos descendentes dos Alcmenidas (e portanto de Pricles!) que se 
haviam manchado com o massacre dos partidrios de Clon na acrpole um sculo antes.

Os atenienses responderam que os espartanos tambm se haviam maculado de sacrilgio 
deixando morrer o seu regente Pausnias num lugar sagrado, e jogaram-lhes na cara o 
massacre de um grupo de hilotas que, durante um levante, se haviam refugiado no templo 
de Poseidon no cabo Tanaro. Por enquanto eram apenas escaramuas. Algum tempo depois 
os espartanos mandaram um verdadeiro ultimato, pedindo o fim do embargo a Mgara e do 
stio em Potidia, alm da restaurao da independncia de Egina. Os atenienses 
responderam defendendo mais uma vez os seus motivos, e os espartanos mandaram outra 
embaixada com a qual afirmavam querer a paz e que a manteriam, desde que os atenienses 
respeitassem a autonomia dos gregos.

Normalmente estas palavras so interpretadas como um ultimato inaceitvel com que se 
ordenava a dissoluo da liga de Delos, mas talvez esta interpretao seja um tanto 
exagerada. Os espartanos nunca tinham pretendido uma coisa parecida antes, e no d para 
entender por que, apesar de tudo, deveriam faz-lo agora. As repetidas tentativas de botar 
um pouco de juzo primeiro na cabea dos corcirenses e corntios, e agora na dos 
atenienses, levam-nos a pensar que os espartanos estavam perfeitamente cientes das 
conseqncias de um conflito global e que era sua inteno evit-lo, apesar de a maioria da 
sua assemblia, a Apela, ser favorvel  guerra. A Apela no tinha poder deliberativo; era 
formada pelos "Iguais", os guerreiros lacedemnios que obviamente se sentiam obrigados a 
obedecer antes de mais nada ao seu cdigo de honra. O governo da cidade e mais ainda o 
seu sbio rei Arquidamo devem ter tentado evitar o pior e quase certamente ter-se-iam dado 
por satisfeitos com o fim do bloqueio comercial de Mgara por parte de Atenas.

Infelizmente os acontecimentos fugiram do seu controle: antes de mais nada os tebanos 
atacaram sem aviso prvio Platias, cidade becia desde sempre aliada de Atenas, dando 
desta forma incio oficial s hostilidades, e depois houve a desdenhosa atitude de Atenas, 
que recusou qualquer compromisso.

Nesta altura no havia outro jeito a no ser passar s armas, e na primavera de 431 
Arquidamo, chefe supremo das tropas do Peloponeso, invadiu a


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tica no comando de um exrcito de vinte e cinco mil homens (sessenta mil, segundo 
Plutarco).

Evidentemente os atenienses julgavam-se to fortes, to ricos e to bem defendidos pelo 
formidvel conjunto das Longas Muralhas que pensaram poder enfrentar qualquer um, 
certos da vitria. Tampouco podemos esquecer que a sua marginal participao do conflito 
corntio-corcirense os tornara cientes, ou pelo menos ainda mais cientes, da sua enorme 
superioridade ttica e tecnolgica no mar. Eram os nicos a possuir no mais alto grau a 
habilidade de manobra em batalha que lhes permitia movimentar seus navios como aretes, 
abalroando e danificando gravemente os vasos inimigos ou afundando-os com toda a 
tripulao, sempre livrando-se dos engates que permitiam a luta corpo-a-corpo nos 
conveses, como ainda costumavam fazer os demais.

Talvez tenham pensado que Esparta era pobre e que, a no ser por Corinto, j cansada pela 
guerra contra Corcira, no havia outras cidades mercantis na liga do Peloponeso capazes de 
investir vultosos recursos em gastos militares. Estavam errados, e acreditamos que o seu 
erro principal tenha sido no levar em conta a possibilidade - como de fato acabou 
acontecendo - de os dois riqussimos santurios de Olmpia e de Delfos financiarem a guerra 
para a liga chefiada por Esparta. E mais, os espartanos ainda tinham um valioso aliado na 
Siclia: Siracusa, uma cidade de origem drica que se tornara a mais rica e poderosa entre 
todas as colnias fundadas no Ocidente. J vimos que, na poca das guerras persas, os 
gregos pediram aos siracusanos para que se juntassem a eles, e que o tirano Glon exigira 
em troca o comando supremo da frota aliada, inviabilizando desta forma o projeto. Agora 
Esparta estava pedindo nada menos que quinhentos navios de guerra, alm de outros tipos 
de ajuda, mas por algum tempo Atenas conseguiu manter viva a hostilidade de Rgio e 
Leontinos, impedindo a perigosa entrada de Siracusa na cena do conflito.

Prevendo os movimentos do inimigo, Pricles mandou evacuar a tica e amontoou a 
populao inteira dentro da cerca de muralhas da cidade; e enquanto Arquidamo assolava o 
interior e queimava videiras e oliveiras, a frota ateniense fez-se ao mar e levou a cabo toda 
uma srie de atos de pirataria ao longo das costas do Peloponeso, arrasando todos os seus 
centros martimos. Os atenienses estavam a par dos contatos secretos entre Egina e Esparta 
e, portanto, desembarcaram na ilha, enxotaram os habitantes e deixaram no seu lugar uma 
colnia militar. O povo em fuga foi abrigado pelos espartanos numa localidade chamada 
Tiria.

O primeiro ano de guerra concluiu-se sem fatos determinantes e, enquanto isto, Potidia 
continuava a resistir. Pricles celebrou com solenes funerais os que haviam tombado em 
batalha e proferiu o famoso discurso (o



155

Epitfio) que Tucdides relata numa das mais intensas e comovidas pginas de toda a sua 
obra. Atenas  uma verdadeira escola para a Grcia e para o mundo inteiro,  o baluarte da 
democracia e da liberdade, as suas instituies permitem o desenvolvimento da 
personalidade do homem e da sua dignidade prescindindo do bero e das condies 
econmicas. Este discurso,  claro, tambm representa uma justificao para a guerra que, 
desta forma, acaba se tornando luta entre dois sistemas e duas ideologias.

Na primavera seguinte Arquidamo invadiu mais uma vez a tica e quase chegou a alcanar 
as muralhas de Atenas, mas a foi detido por um inimigo muito mais temvel do que qualquer 
guerreiro: a peste! Trazida por um navio que vinha do Egito ou da Sria, a doena encontrou 
um fcil estopim nas condies higinicas precrias da populao amontoada dentro da 
cidade em pleno vero. O efeito foi devastador e houve imediatamente quem lembrasse o 
deus de Delfos que, consultado pelos espartanos acerca da oportunidade ou no de se 
empenharem numa guerra, respondera que, no caso de se chegar  luta, ele mesmo iria 
ajud-los. E a peste lembrava de forma muito impressionante a mesma praga que Apoio 
espalhara no acampamento dos aqueus durante a guerra de Tria!

Pricles manteve-se firme apesar das crticas que comeavam a surgir mesmo dentro da 
cidade, e no saiu para enfrentar Arquidamo, que chegara at Laurion para saquear as minas 
de prata. Aprontou ento a frota e voltouse contra as cidades do Peloponeso, arrasando-as e 
queimando os campos em volta delas; da pequena cidade de Prsias no ficou pedra sobre 
pedra. Quando voltou a Atenas, os espartanos j haviam ido embora, talvez assustados 
diante das sinistras colunas de fumaa negra que se erguiam sem parar das fogueiras com 
que na cidade se queimavam os inmeros cadveres.

A situao chegara a um beco sem sada: era preciso fazer alguma coisa e, provavelmente, 
Pricles achou que bastaria tomar uma atitude mais enrgica no norte para sair daquele 
impasse. Anfpolis continuava a resistir e a deciso tomada foi mandar para l mais quatro 
mil hoplitas com mquinas de guerra. Foi uma pssima idia: o corpo expedicionrio 
aninhava a peste em sua fileiras e, ao chegar ao destino, acabou contagiando tambm o 
pessoal saudvel que l se encontrava. Depois de perder mais de um quarto dos seus 
homens em pouco mais de um ms, o comandante decidiu retirar-se enquanto o resto do 
exrcito mantinha o bloqueio de Anfpolis que, dali a alguns meses, acabou finalmente 
capitulando.

Desanimados, esgotados pela doena e pela guerra, os atenienses viraramse contra Pricles, 
destituindo-o e at punindo-o com uma multa. Enquanto isto a peste j tinha levado consigo 
a irm do estadista, os parentes e os amigos mais queridos, inclusive o filho Xantipo. 
Quando Paralo, o mais jovem e ltimo dos seus filhos legtimos, tambm adoeceu e morreu, 
o grande homem,


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que at ento resistira aos reveses da sorte com incrvel fora de nimo sem nunca se 
entregar s lgrimas e aos trajes de luto, caiu em prantos sobre o corpo exnime do rapaz, 
ficando ele mesmo contaminado pela doena.

Sem Pricles, contudo, Atenas sentia-se rf, e no ano seguinte, 429, uma delegao da 
qual tambm participava o seu sobrinho Alcibades foi procur-lo, implorando que retomasse 
em suas mos as rdeas da cidade. Encontraram-no esgotado, at desleixado na sua 
prostrao, e pediram que aceitasse a eleio a estratego. Pricles aceitou, mas a doena j 
o estava consumindo lentamente. Mandou revogar a lei que s concedia a cidadania a quem 
tivesse ambos os pais de origem ateniense para que o jovem Pricles, o filho tido com 
Aspsia, pudesse ser cidado de Atenas: foi a nica vez em que usou o seu poder para ter 
algum proveito pessoal. O seu corpo robusto s conseguiu prolongar a agonia, mas ele sabia 
muito bem que estava condenado. As mulheres da casa convenceram-no a usar um amuleto 
em volta do pescoo e, quando um amigo foi visit-lo, ele comentou apontando para aquela 
espcie de colar: "Devo estar realmente nas ltimas se concordei em usar uma bobagem 
destas." Morria, assim, com o amargo sorriso da ironia nos lbios, um dos maiores homens 
de todos os tempos, o artfice de uma idade de inigualvel grandeza, liberdade e esplendor.

Depois da morte de Pricles a guerra continuou se arrastando entre perodos de calmaria e 
repentinos surtos de violncia, enquanto a cena poltica assistia ao aparecimento de um novo 
lder chamado Cleo. Detestado por Tucdides, que sempre o apresenta como demagogo 
irresponsvel, foi na verdade um homem bastante inteligente e corajoso, embora certamente 
desprovido do necessrio equilbrio poltico, do realismo e do comedimento indispensveis 
 correta avaliao dos fatos. Os espartanos continuaram a invadir a tica quase todos os 
anos, deixando atrs de si um rastro de destruio que tinha a finalidade especfica de 
solapar a economia da rival, mas evidentemente o domnio sobre o mar permitia a Atenas 
no s manter os lucros do seu prprio comrcio, como tambm os decorrentes das 
contribuies da liga que, com Cleo, chegou a acumular um tesouro de mil quatrocentos e 
sessenta talentos, uma quantia enorme mesmo levando-se em conta a presena de uma certa 
inflao.

Quando uma cidade tentava se rebelar, a resposta era terrvel: foi o que aconteceu com 
Mitilene, na ilha de Lesbos, que se afastou da liga em 428. No ano seguinte foi cercada e 
invadida, e Cleo props matar todos os homens adultos, vendendo em seguida como 
escravos as mulheres e as crianas. Felizmente a moo no foi aceita, mas a cidade teve 
mesmo assim de derrubar as suas muralhas, entregar a frota, pagar uma vultosa multa e 
entregar uma boa parte das suas terras aos colonos militares atenienses. Foi uma vitria 
<aHy|fixou a.boca amarga, contudo: quase ao mesmo tempo os

AKROPOL1S

157

espartanos e os tebanos atacaram a pequena e fiel Platias, arrasaram-na e chacinaram a 
populao. Os atenienses responderam com uma jogada brilhante e audaciosa, digna do 
melhor enxadrista. A operao toda  to abrangente e notvel pela maneira como foi 
conduzida que vale a pena cont-la nos pormenores.

O almirante ateniense Demstenes estava esquadrinhando o Jnio meridional com uma 
frota de uns cinqenta navios quando, ao ser surpreendido por um vendaval, buscou abrigo 
na baa de Navarino, protegida do mar aberto pela ilha de Esfactria. (Na ponta norte 
encontra-se um promontrio no qual, na dcada de 1930, a expedio de Karl Blegen 
encontrou as runas de um palcio micnico atribudo ao heri homrico Nestor.) Procurou 
ento convencer os amigos Eurimedonte e Sfocles a fortificar o lugar, pois ele poderia vir 
a ter um valor estratgico formidvel, mas responderam-lhe que isso s seria uma perda de 
tempo e de dinheiro, uma vez que o Peloponeso estava cheio de promontrios como 
aquele, e foram embora. Demstenes, que tinha recebido um mandado pessoal da cidade, 
ficou e, no podendo partir devido  calmaria, convenceu os seus homens a fortificarem o 
promontrio que apontava para Esfactria. Como no dispunham de utenslios para cortar a 
pedra, recorrem  tcnica de unirem as pedras com argila crua (que carregavam diretamente 
nas costas, segurando-a por baixo com as mos tranadas). O plano era criar um encrave no 
territrio espartano para o qual atrair os messnios e talvez at os hilotas, desde sempre 
rebeldes e prontos ao levante: em resumo, uma verdadeira espinha na garganta do at ento 
monoltico conjunto dominada por Esparta. Depois de o forte ficar pronto, o grosso da 
esquadra dirigiu-se para o norte, para Zaquinto, enquanto Demstenes ficava no presdio 
com umas poucas centenas de homens e cinco navios que, puxados em seco, ficaram 
protegidos atrs de uma trincheira e de uma paliada.

No comeo os espartanos pareceram no dar importncia  coisa, achando que, de qualquer 
forma, aquele punhado de coitados no iriam resistir muito tempo por l, mas depois 
decidiram atacar do lado do mar. Desembarcaram na ilha com um contingente de uns 
quatrocentos homens, e postaram nos dois canais que separavam a ilha do continente - para 
o norte e para o sul - navios presos por correntes e de proa virada para o mar aberto, de 
onde poderia chegar a frota ateniense. Tucdides, quase sempre extremamente preciso, d-
nos aqui uma notcia na qual  difcil acreditar: segundo ele, o canal meridional s tinha 
espao suficiente para a passagem de uns oito ou nove navios, coisa que nos parece 
impossvel. Hoje em dia ele tem mais de um quilmetro de largura, e vinte e cinco sculos 
atrs no devia ser muito diferente de agora.

Seja como for,  evidente que os espartanos tentaram bloquear a baa


158

postando-se nos dois canais ao norte e ao sul da ilha de Esfactria, desembarcando em 
seguida um contingente com o qual tomara o forte de assalto. Uma outra frota, sob o 
comando de Brsidas, um oficial que iria se distinguir valorosamente em aes posteriores, 
tentou desembarcar do lado do mar aberto. Graas aos recifes, no entanto, os atenienses s 
precisaram de umas poucas dzias de hoplitas para impedir o desembarque. O prprio 
Brsidas ficou seriamente ferido e, ao perder os sentidos, deixou cair o escudo, que acabou 
caindo nas mos dos inimigos. Isto era motivo de terrvel desonra para um espartano, tanto 
assim que j um sculo antes a situao ficara estigmatizada num verso famoso e 
escarnecedor, do poeta Arquloco, que dizia:

Nesta altura um dos Saios est se mostrando com o meu escudo arma inquebrantvel que apesar de mim 
abandonei atrs de uma moita. Mas j no vale a pena pensar naquele escudo. Que se dane! Comprarei outro 
to bom quanto ele.

Demstenes enviou um dos seus navios a Zaquinto com um pedido de socorro, e a frota 
ateniense no demorou a chegar: travou batalha com a esquadra inimiga, forou-a a fugir e, 
penetrando na enseada, isolou as tropas que haviam desembarcado em Esfactria. 
Encontravam-se ali mais alguns navios lacedemnios em seco e sem tripulao, que os 
atenienses logo prenderam com ganchos na tentativa de pux-los para o mar. Ao 
perceberem isto, os espartanos acudiram em massa e comearam a segurar os barcos com 
cordas para no perd-los. Aps um longo e, neste caso, verdadeiro cabo-de-guerra, os 
atenienses desistiram dos navios e afastaram-se da costa, mas bloquearam os canais e 
cercaram a ilha. Os sitiantes tornaram-se

sitiados. Xeque-mate.

Nesta altura dos acontecimentos os espartanos negociaram uma trgua, aceitando entregar 
os navios que ainda lhes sobravam em troca da permisso de levar aos seus soldados 
isolados em Esfactria, sob o controle dos atenienses, suprimentos de farinha, vinho e carne 
na quantidade combinada, isto , raes que mal davam para no morrer de fome. A trgua 
iria vigorar at que a sua embaixada enviada a Atenas assinasse um tratado de paz. Os 
emissrios chegaram com a evidente ordem de conseguir a paz, mesmo tendo de pagar um 
preo muito salgado: para o governo espartano a vida dos seus soldados presos em 
Esfactria no tinha preo. Cinqenta anos depois do massacre das Termpilas, o sacrifcio 
de um manipulo de homens muito menos numeroso do que aqueles famosos trezentos 
devia, mesmo assim, Parecer grave demais, o que nos deixa entender quo preocupante j 
devia ser em Esparta o problema demogrfico. a* Cleo actiou que valia a pena arriscar nas 
apostas, pensando que se cap-



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turasse vivos os hoplitas de Esfactria o seu prestgio ficaria muito maior e poderia, assim, 
exigir condies de paz ainda mais favorveis a Atenas. Atreveu-se ento a pedir que a 
guarnio espartana na ilha se entregasse desarmada para ser levada a Atenas como 
garantia, e que os lacedemnios tambm entregassem Trezena e Nisa, o porto de Mgara 
no golfo Sarnico, alm de toda a Acaia que Atenas tinha perdido aps as derrotas no 
decorrer do conflito. Eram condies absurdas e, mesmo assim, os espartanos aceitaram 
negociar, desde que se formasse uma comisso bilateral restrita para tratar os vrios itens do 
acordo. Em outras palavras, o que eles queriam mesmo era um local reservado para que se 
debatesse um tratado cuja mercadoria de troca eram comunidades inteiras e Estados que 
haviam confiado na proteo deles ao longo do conflito: afinal, se por acaso a tratativa no 
chegasse a uma soluo satisfatria, esta verdade to incmoda poderia continuar sendo um 
assunto sigiloso.

Cleo acusou-os dizendo que queriam esconder o jogo, que no estavam dispostos a falar 
abertamente diante da Assemblia. Isto j era demais: os espartanos voltaram furiosos a 
Pilos e retomaram as hostilidades, lanando um ataque depois do outro contra a fortaleza no 
promontrio. Por sua vez os atenienses enviaram mais vinte navios, chegando desta forma a 
um total de setenta. Durante o dia dois deles patrulhavam a costa leste e oeste de Esfactria, 
navegando em sentidos opostos; durante a noite a frota inteira postava-se toda em volta da 
ilha. Os barcos s ficavam na enseada, protegidos pela costa oriental, no caso de mar 
agitado. Quando isto acontecia, no entanto, atrados pela promessa de liberdade e de 
recompensas em dinheiro, os hilotas desembarcavam na ilha aproveitando o fato de os 
navios atenienses no conseguirem firmar-se no ancoradouro e levavam po, vinho e 
queijo, ou ento atravessavam a nado a baa ou um dos canais puxando atrs de si odres 
cheios de mantimentos.

Assim sendo, as coisas no estavam propriamente evoluindo do jeito que o comando 
ateniense imaginava, pois na certa haviam calculado que o presdio de Esfactria, sem 
comida nem gua, perdido num lugar selvagem e forado a beber gua salobra, no poderia 
agentar muito tempo. E agora a situao tornava-se crtica para os atenienses tambm: a 
nica nascente ficava dentro da fortaleza de Pilos, no promontrio, e abastecer-se num local 
to fora de mo era quase impossvel. Alm do mais, o inverno estava chegando e, se a ilha 
no se rendesse antes da chegada do mau tempo, a frota no poderia mais receber 
suprimentos pelo mar, coisa alis j bastante difcil mesmo com tempo bom. A situao 
chegara a um impasse, e Cleo estava agora numa enrascada: por ter exigido demais, corria 
o risco de ficar sem coisa alguma. Acusou ento o comandante das foras de Pilos, Ncias, 
tachando-o de incapaz e indeciso. Chamado a dar conta dos seus atos, Ncias salientou as


160



enormes dificuldades ambientais nas quais era forado a agir e desafiou Cleo a ocupar ele 
mesmo a maldita ilha, visto que achava to fcil.

Cleo no se fez de rogado: pediu que lhe fosse entregue a chefia das operaes, mas teve 
o bom senso de associar-se no comando com Demstenes, que j estava no local e, logo 
que os reforos ficaram prontos, partiu para a baa de Navarino.

Enquanto isto Demstenes ficava cada vez mais preocupado com a densa vegetao da ilha 
que escondia os inimigos: ningum sabia ao certo quantos eles eram e, apesar dos clculos 
feitos a partir das raes de sobrevivncia fornecidas durante a trgua, no dava para saber 
com exatido o nmero total nem os movimentos das tropas adversrias. Certo dia, 
entretanto, alguns soldados atenienses, em misso de patrulha rotineira na ilha, atearam 
involuntariamente fogo nos arbustos enquanto estavam preparando a comida e, com a ajuda 
do vento, a floresta inteira transformou-se numa grande fogueira. Quando o incndio se 
apagou a situao ficou clara: havia dois fortes, um ao norte e outro ao sul, e os espartanos 
eram mais numerosos do que se havia calculado. Ento chegou Cleo, que mandou entregar 
aos hericos defensores de Esfactria um ultimato: rendio imediata e sem condies. A 
resposta foi obviamente uma recusa. S faltava, portanto, o ataque final. Naquela mesma 
noite Demstenes mandou desembarcar uma tropa de choque com armas leves, que vinha 
sendo testada havia pouco tempo.

Os homens arrastaram-se no escuro at chegarem ao forte que defendia a parte meridional e 
irromperam nele antes mesmo do alvorecer: os espartanos, menos de trs dzias ao todo, 
foram aniquilados antes mesmo de alcanarem as suas armas. Logo em seguida Demstenes 
mandou desembarcar toda a tropa de que dispunha, inclusive as tripulaes dos navios, 
dividindoa em pequenos grupos que se postaram nos locais mais altos. A atacaram o forte 
maior, o que guarnecia o lado sul.

Os espartanos, sob o comando de um valoroso oficial chamado Eptadas, defenderam-se 
com a coragem do desespero, em formao cerrada, avanando e recuando o tempo todo. 
Mas eram alvos das setas, dos dardos e das pedras que os inimigos lanavam contra eles das 
alturas em volta, durante horas, sem parar, dizimando-os lentamente sem nunca aceitarem o 
choque frontal. Os sobreviventes, cobertos de suor, sangue e poeira, acabaram sendo 
completamente cercados: o seu comandante j tinha morrido.

Abatidos, fsica e psicologicamente aniquilados, os poucos guerreiros sobreviventes pediram 
para receber instrues do seu comando em terra firme. Responderam-lhes que podiam 
decidir por conta prpria, desde que no se manchassem de atos indignos, e eles, achando 
que nesta altura no haveria nada de vergonhoso em salvar a vida aps terem lutado to 
bravamente, fizeram o mesmo que os hoplitas espartanos j haviam feito antes:

v

A Atica e o golfo Sarmco (Foto de satlite)


Teseu e o Minotauro.

Cratera corntia com cenas de simpsio e corridas de cavalos.

O kouros de Milo, o exemplo de escultura arcaica do sculo VI a. C.

nfora com figuras pretas representando Aquiles e jax jogando dados.


O Efebo de Cntio A escultura j a apresenta

os sinais de uma notvel evoluo em relao

aos kouro arcaicos, seja na moldagem

suave das massas musculares, seja

na naturalidade do portamento

Os hramcidas Na poca da batalha de Salamma

os persas tiraram de Atenas o grupo de bronze

que representava Harmodio e Aristogton, obra de Antenor

Mais tarde os atenienses encomendaram

ao escultor Cntio um grupo parecido

(Copia em mrmore conservada no Museu Arqueolgico de Npoles)


, ,

AcolinadaPniceondesereumaaAssembliadopovoNo^aacropoe

f:,

,.

Elmo grego e elmo persa encontrados em Maratona No grego pode ser lida uma dedicatria de Milciades (Olmpia, Museu Arqueolgico 
Nacional)

A estatua de Lemdas no desfiladeiro das Termopilas


A ilha de Esfactena,

Pdos e a baia de Nevarmo

no Peloponeso

(Foto de satlite)

As lotamos, isto e, as pedr**" de Slracusa entrada do Ouvido de Diomso

Busto de Scrates, de um o>gmal de Lisipo (Roma, Museus CaPltohnos)



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renderam-se deixando cair os escudos e levantando as mos, da mesma forma usada at 
hoje em sinal de rendio. Pela primeira vez desde que a memria do homem pudesse 
lembrar, duzentos e noventa e dois hoplitas, cento e vinte dos quais lacedemnios, foram 
capturados vivos como concluso de uma operao blica cheia de peripcias. Nesta ao 
rocambolesca os adversrios no se haviam poupado, correndo todo tipo de riscos e 
utilizando tcnicas de combate at ento nunca experimentadas que, a partir da, iriam 
mudar profundamente a arte da guerra.

O fato teve uma enorme repercusso, mas os espartanos recusaram-se a negociar o resgate. 
O exrcito terrestre partiu, deixando Pilos nas mos dos atenienses, e naquele ano as tropas 
de Esparta no invadiram a tica.

Passaram-se mais dois anos com sucessos e derrotas de ambas as partes. Os atenienses 
levaram a cabo operaes na Siclia e na Grcia, ocuparam o porto oriental de Mgara - o 
que dava para o golfo Sarnico -, forando  rendio o presdio da liga lacedemnia. Por 
volta de 424 os espartanos dedicaram-se a uma inesperada ao diversiva enviando para a 
pennsula Calcdica um corpo expedicionrio sob o comando de Brsidas, o mais valoroso e 
inteligente dos comandantes espartanos daquela poca. Com uma jogada ousada ele 
conseguiu tomar Anfpolis, sem que a frota ateniense, fundeada no porto de Tasos e s 
ordens de Tucdides de Oloro, nada pudesse fazer para impedir. O oficial ateniense (a nica 
fonte de que dispomos para estes acontecimentos) s conseguiu evitar que ion tambm 
casse nas mos do inimigo. Chamado de volta a Atenas e processado, Tucdides foi 
condenado a vinte anos de desterro, e foi justamente neste exlio que produziu a maior obra 
histrica da Antigidade.

Em Anfpolis, Brsidas portou-se de forma muito decente ao deixar que os habitantes 
escolhessem entre sarem de l num prazo de cinco dias ou ficarem mantendo os direitos de 
cidadania. Por isto mesmo ele mereceu o maior respeito e foi honrado como um heri pelo 
povo. O sucesso de Brsidas induziu muitas cidades das redondezas  rebelio contra 
Atenas, que em 422 reagiu enviando uma fora expedicionria sob o comando de Cleo. Os 
dois exrcitos enfrentaram-se no sop das muralhas de Anfpolis e os atenienses levaram a 
pior. O prprio Cleo morreu, mas no decorrer da mesma batalha Brsidas tambm 
sucumbiu, ironicamente uma das poucas baixas a serem lamentadas pelos espartanos. A 
morte dos dois principais adversrios, a sensao de prostrao e esgotamento aps dez anos 
de luta incessante induziram finalmente  paz os contendores. Assinou-se um tratado com 
validade de cinco dcadas baseado no status quo. Cada uma das partes devolveu  outra as 
conquistas conseguidas durante a guerra. Dez anos de conflito sangrento e devastador 
haviam sido desperdiados para nada.


18 de novembro de 1999

Finalmente pude rever Kostas, depois de vrios meses em que s me f oi possvel falar com 
ele ao telefone. No foi uma coisa agradvel:  claro que a sua dignidade impedia que se 
queixasse comigo das suas prprias misrias. Ajudei a jovem kosovara a dar-lhe um banho, 
coisa nem um pouco fcil, mas que no fundo me fez sentir muito bem. Pareceu-me que a 
providncia ou o destino, seja qual for o nome que queiramos lhe dar, concedera-me a 
oportunidade de lavar o meu prprio pai que j no tenho, de prestar-lhe

mais este ltimo servio.

Fitemos-lhe uma boa massagem com lcool e depois com um creme que a jovem preparara 
segundo uma sua receita ilrca. Ns o deixamos bem arrumado, penteado e perfumado, 
vestido com um pijama leve, com a pochette de seda azul, como ele gosta. A, como toque 
final, o caf e o cigarrinho. A sua lucidez  impressionante: se o resto do seu corpo fosse 
como a sua mente, ele at poderia andar de bicicleta.

- Este captulo doeu no meu corao - comenta.

- Posso imaginar. Eu mesmo fiquei triste ao escrev-lo. Voc me conhece, no consigo 
manter uma atitude completamente isenta.

- Quanto a isto, nem mesmo Tucdides conseguia: baba-se todo ao falar de Pricles, tem 
uma certa simpatia por Ncias e simplesmente no suporta

Cleo.

- Tucdides acredita que foram os demagogos como Cleo que provocaram a runa de 
Atenas, e pelo menos em parte ele est certo.

- Por qu? Por que no Pricles, ento? Quem provocou a guerra do Peloponeso foi ele. Os 
espartanos tentaram evit-la de todas as formas.

- Voc precisa se lembrar que Pricles no foi um tirano, nem mesmo um chefe de governo: 
claro, fez o possvel para que as suas moes fossem votadas, mas no fim a ltima palavra 
sempre cabia ao povo. Quanto a uma coisa no pode haver dvidas: Pricles estava 
convencido de que era pre-



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ciso resolver os problemas com Esparta de uma vez por todas. E fazer a guerra era algo 
normal para os atenienses, assim como para os gregos em geral. No podia haver coisa mais 
normal, e podemos dizer que havia uma guerra, ou at vrias guerras, todos os anos. Ns 
estamos vendo os fatos a posteriori: para ns trata-se da "guerra do Peloponeso", algo 
parecido com "a Primeira" ou "a Segunda Guerra Mundial". Mas Pricles no podia saber 
que estava para dar incio  guerra do Peloponeso: para ele era um conflito como qualquer 
outro, a maneira mais direta e econmica de se resolver um problema de poltica exterior e 
de relaes internacionais. Nem mesmo podemos saber o que aconteceria se ele tivesse 
sobrevivido: talvez conseguisse dar uma soluo, talvez fizesse clculos diferentes... E 
afinal no d para saber, no se pode escrever a histria dos "se " e dos "mas". O que 
podemos saber com certeza  que Cleo teve a oportunidade de pr um termo  guerra 
muito antes e em condies muito mais favorveis, e que, ao contrrio, ps tudo a perder... 
De tanto esticar acabou arrebentando a corda.

- H uma coisa que francamente no consigo entender: a inverso de papis que existia na 
Antigidade. Os democratas, como os atenienses, eram partidrios da guerra, e os 
conservadores oligrquicos, como os espartanos, queriam manter a paz. Como  que voc 
explica?

- A meu ver s d para explicar do mesmo jeito que os sofistas, de que voc tanto gosta, 
explicariam: as pessoas decidem conforme o interesse do momento, e isto nada tem a ver 
com a ideologia. Em outras palavras, para os atenienses a guerra queria dizer salrios para os 
remadores da frota, encomendas para os estaleiros navais, para os fabricantes de armas e os 
fornecedores de mantimentos, negcios da China para os mercadores de escravos, terras 
que podiam ser conseguidas grtis nas colnias militares s custas dos moradores locais. Em 
resumo, enquanto houvesse o Imprio para pagar as despesas, a guerra era um timo 
negcio. Quanto aos espartanos, no creio que fossem pacifistas devido  sua boa disposio 
de nimo: o que acontece  que para eles a guerra era uma grande chateao, alis a maior 
chateao de todas.

- E ento por que no faziam outra coisa a no ser treinar para a luta, e desde bem 
menininhos?

- Pois , por isso mesmo conheciam-na melhor do que qualquer outro. Mas o que mais 
pesava na balana, para eles, era o problema demogrfico: a classe dos cidados-guerreiros 
tinha um nmero limitado. S quem tinha um pedao de terra podia se permitir pagar a 
penso nos colgios comuni-


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trios, os custos pessoais, da armadura e de qualquer outra coisa. Por isto praticavam um 
rgido controle da natalidade, para no ter de dividir a terra entre vrios filhos levando-os, 
em apenas duas ou trs geraes,  mais completa misria. Guerra, para eles, era uma 
contnua sangria da classe dos guerreiros e significava, portanto, a longo prazo, a morte da 
cidade. Eram completamente obcecados pelo problema demogrfico: conhece a histria dos 
partenos?

- Acho que no.

- Foi na poca das guerras messnias, no fim do sculo VII: os guerreiros j estavam longe 
de casa h tanto tempo que os foros recearam uma brusca queda da natalidade. Escolheram 
ento os jovens mais vigorosos e mandaram-nos de volta a Espana com uma misso deveras 
curiosa: deixar conscienciosamente grvidas todas as virgens da cidade, coisa que eles 
fizeram com meticulosa preciso. Sabe como , eram rapazes disciplinados.

- J pensou? Uma misso e tanto, no ?

- E mesmo assim, quando j haviam crescido aqueles "filhos de virgens", os partenos viram 
recusarem-lhes a cidadania por serem considerados ilegtimos. Assim, primeiro tentaram um 
golpe de estado e depois, quando viram que no ia dar certo, fugiram para a Itlia onde 
fundaram Taranto. Pelo menos  o que nos conta a lenda.

Kostas sorri com seus olhos maliciosos. Falar de sexo  uma coisa que sempre o deixa de 
bom humor e com que esquea, pelo menos durante algum tempo, as suas misrias. Mas 
fica logo cansado e a conversa no pode durar mais do que um certo tempo.

Eu disse  moa que poderia ir embora. Agora vamos ver televiso, depois prepararei uma 
sopinha e o colocarei na cama. No  difcil, pois no pesa quase nada.

 i

x

ALCIBADES

 espantoso pensar na energia fsica, psicolgica e econmica penosamente gasta pelos 
atenienses durante os primeiros dez anos de guerra numa situao que ns mal podemos 
imaginar. Se os caixes que voltavam do Vietn nos anos 60 determinaram nos Estados 
Unidos uma reao to forte que em poucos meses imps o fim  guerra, podemos 
considerar quo mais violento devia ser o impacto da dor causado pelas perdas humanas 
numa cidade onde todos se conheciam, onde as notcias corriam soltas e os ritos fnebres 
aconteciam em pblico, onde as pessoas podiam ver as urnas que continham um punhado de 
cinzas, o que sobrava de jovens fortes e musculosos, cheios de vida e energia, os mesmos 
jovens que tinham sido vistos nos ginsios e nas pistas de corrida e que haviam sido 
retratados nos frisos que ornamentavam os templos. s vezes viam os cadveres 
desfigurados pelos ferimentos e ouviam os relatos dos sobreviventes que vagavam pelas 
ruas, com seus corpos mutilados que mostravam os sinais da dor e das injrias sofridas no 
mar e no campo de batalha. E viam nos cortejos fnebres os esquifes vazios dos 
desaparecidos em combate.

Nessa cidade no havia um governo que pudesse manter segredo algum, no havia 
comunicados oficiais capazes de adoar as notcias que vinham da frente de batalha: tudo 
era debatido nas reunies da Assemblia em plena luz do dia. E nessas reunies o povo 
continuou a votar pela guerra durante dez longos anos. Por orgulho, por obstinao, por 
volpia de terras e de despojos, por desejo de vingana e, no fundo, pelo fato de todos se 
sentirem responsveis pelo que estava acontecendo. As guerras antigas entre comunidades 
relativamente pequenas no demoravam nada para se tornarem assuntos pessoais: vinganas 
e represlias geravam um crculo vicioso que s o esgotamento total dos recursos conseguia 
romper.

A srie incessante de revoltas e represses, de ataques e contra-ataques, os gastos contnuos 
de vultosas quantias para fabricar novas armas, navios, mquinas de guerra; a runa da 
propriedade privada, dos campos e das fazendas, a matana do gado, tudo devia criar um 
clima de tenso contnua e de angstia, pelo menos nas classes que ainda podiam se permitir 
pensar.


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Esta ferrenha resistncia, mesmo levando-se em conta apenas o aspecto econmico, seria 
inexplicvel sem a existncia da liga naval que canalizava contnuos recursos dos Estados 
membros para a potncia dominadora, recursos que chegavam por mar seguindo rotas 
firmemente controladas pela marinha de guerra ateniense. O ltimo trecho deste longo 
caminho passava pelo conjunto fortificado do porto e das Longas Muralhas, que era 
realmente inabalvel.

A liga adversria, por sua vez, no tinha a menor possibilidade de interromper aquele fluxo 
pois no podia atacar cada um dos Estados membros. Podia, no mximo, tentar convenc-
los, como de fato fez, a se rebelarem, mas depois no dispunha dos meios necessrios para 
sustentar a revolta e tinha de assistir quase impotente  reao implacvel das foras 
atenienses. Anfpolis foi uma exceo, e isto s se deu porque Brsidas conseguiu chegar  
pennsula Calcdica por terra atravs da Tesslia, oficialmente aliada de Atenas, alternando a 
ameaa fsica do seu exrcito com os contatos diplomticos, secretamente mantidos com os 
representantes da aristocracia oligrquica que olhavam para Esparta com simpatia.

Tambm houve toda uma srie de misses secretas na tentativa de envolver os persas. Uma 
resposta do Grande Rei foi interceptada pelos atenienses em 425 e o seu teor deve ter 
certamente provocado risadas. Um comandante ateniense, um tal de Aristides, encarregado 
de cobrar os tributos dos aliados, capturou em ion, na foz do Estrmon, um navio que 
levava a bordo um enviado persa chamado Artaferne, que ia a Esparta com uma mensagem 
do Grande Rei. O homem levava consigo, de fato, documentos escritos em caracteres 
cuneiformes, como se fosse uma tentativa de disfarce. O emissrio foi levado a Atenas, 
onde as cartas foram traduzidas e lidas. Nelas, entre outras coisas, o rei dizia aos espartanos 
que no entendia o que eles queriam, pois de todos os embaixadores que lhe haviam 
mandado, no havia dois que concordassem com os pedidos. Se, portanto, queriam propor-
lhe algo com clareza, que mandassem ento algum de volta com o seu prprio emissrio.

Os atenienses devem ter dado umas boas gargalhadas, pois naquela carta os espartanos 
faziam o papel de idiotas, exatamente como eles eram amide representados nas anedotas e 
nas comdias, mas aproveitaram a ocasio para eles mesmos mandarem a feso uma 
embaixada com o dignitrio persa, quase certamente com propostas alternativas, mas, 
quando ela chegou, soube que o rei Artaxerxes havia morrido e teve de voltar sem 
conseguir coisa alguma.

Como se vivia em Atenas durante a guerra? Qual era o padro de vida entre as paredes 
domsticas?  provvel que, pelo menos do ponto de vista eco-

nmico, no houvesse necessidade de muitas privaes: a marinha militar conseguia manter 
abertas as rotas para a exportao dos produtos artesanais ticos, e, alm disto, os salrios 
pagos aos remadores da frota, aos operrios dos estaleiros navais do Pireu, assim como aos 
fabricantes de armas deviam permitir um padro de vida bastante bom, coisa alis que 
explicaria a ausncia de vozes basicamente contrrias  guerra (sem contarmos,  claro, as 
dos representantes das classes mais conservadoras que sempre mantiveram o seu ponto de 
vista poltico, segundo o qual a melhor coisa continuava sendo um acordo com Esparta). 
Quem acabou negociando a paz com Esparta e com a liga do Peloponeso, de fato, foi 
justamente um destes conservadores, Ncias, que convenceu os seus concidados a 
devolverem sem resgate os duzentos e noventa e dois hoplitas lacedemnios capturados por 
Demstenes em Esfactria.

Um discurso de Lsias, preparado para um cliente acusado de homicdio, oferece-nos a 
possibilidade de darmos uma olhada dentro das paredes domsticas de um lar ateniense 
daquela poca. A impresso resultante  que a vida, em todos os seus aspectos, at mesmo 
nos mais libertinos, continuava como antes. A histria  curiosa e picante ao mesrno tempo: 
um campons chamado Eufileto est voltando para casa e encontra uma velha que lhe 
revela a existncia de um amante da mulher. Este, um mulherengo profissional (o que hoje 
chamaramos deplayboy) chamava-se Eratstenes (de nome e de fato, "fora de amor"), e 
era o amante da sua patroa, que, ao notar que as visitas do homem se tornavam cada vez 
mais raras, pedira para investiglo e descobrira assim que ele ia se encontrar com a mulher 
de Eufileto. A seduo acontecera por meios meramente epistolares: Eratstenes reparara 
na linda dama enquanto ela acompanhava o enterro da sogra (enterros e casamentos, alm 
das festas religiosas, eram praticamente as nicas oportunidades que uma mulher de 
condio livre - ironia das palavras! - tinha de sair da priso dos muros domsticos) e 
comeara a seguir a escrava que ela mandava ao mercado. Conseguira assim enviar-lhe 
umas mensagens, nas quais pedia com insistncia para encontr-la, e a mulher finalmente 
cedera.

Eufileto no consegue entender como tais encontros podiam acontecer, e a velha aconselha 
que interrogue a escrava encarregada das compras, pois ela est a par de tudo. E a escrava 
revela a armao. O casal tinha uma criana ainda de colo que ficava com ela no andar 
trreo enquanto a patroa dormia com o marido no andar de cima. Quando o amante chegava, 
a criada dava um belisco no menino, que acordava e comeava a chorar. Eufileto pedia 
ento (ele mesmo admite isto diante do jri) que a mulher descesse para amament-lo. E ela 
fingia no querer descer, fazia-se de rogada bancando a ciumenta, dizia recear que o marido 
levasse para a cama a escrava


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enquanto ela estava com a criana. O pobre chifrudo tinha at de insistir para empurrar a 
mulher para os braos do amante!

Agora que sabia de tudo, Eufileto decidiu armar uma cilada e, depois de Eratstenes entrar, 
ficou esperando que ficasse bem  vontade, depois irrompeu com um grupo de amigos 
providos de tochas, pegou-o em flagrante e, aps pronunciar as palavras de praxe segundo o 
direito que a lei lhe outorgava, acorrentou-o a uma coluna e matou-o.

Os parentes intentaram uma ao contra ele afirmando que Eufileto atrara o rival  sua casa 
com algum truque e em seguida o matara por outros motivos, e pediam, portanto, a sua 
condenao, alm de uma indenizao pela perda do ente querido.

No sabemos qual foi o resultado do julgamento nem qual das partes o jri considerou certa, 
mas podemos supor que o brilhante discurso escrito por Lsias com a costumeira habilidade 
para defender o seu cliente tenha surtido o efeito esperado. O que nos resta  a crnica de 
um fato quase cmico que acabou em tragdia, mas que, mesmo assim,  precioso para 
entendermos o que acontecia na vida das pessoas no aconchego das paredes domsticas. 
Mais um detalhe interessante: Eufileto comeara a ter alguma suspeita ao reparar que a 
mulher voltara a se maquiar antes do fim do perodo de luto.

Igualmente preciosas so, para ns, as comdias de Aristfanes que, de forma satrica, 
levam ao palco tanto as contradies quanto os lugares comuns da vida poltica atenienses. 
J vimos que ele atribua o estouro da guerra do Peloponeso a uma mera questo de 
marafonas, mas sabemos que no ficou apenas nisto. Uma das peas que no chegaram at 
ns, Os babilnios, representava os aliados de Atenas no coro como escravos do demos, isto 
, do povo ateniense. Estas e algumas outras cenas em que se atacava abertamente Cleo 
custaram ao autor, ao que parece, uma denncia e uma acusao por parte do destinatrio 
das suas alfinetadas, castigos obviamente ineficazes pois no conseguiram lhe tapar a boca. 
Seja com Os acarnianos, seja com Os camponeses (obras que no chegaram a ns) ele 
encenou entre 425 e 424 comdias profundamente pacifistas, antecipando-se, portanto, s 
decises polticas. E se tambm considerarmos que Os acarnianos ganhou o primeiro 
prmio, o significado da pea adquire ainda mais valor. O protagonista  Dicepolis, um 
cidado cansado da guerra que decide negociar particularmente com os espartanos a paz 
para si, para a mulher e para os filhos. O seu monlogo, enquanto espera para apresentar-se 
diante da Assemblia na Pnice,  absolutamente hilrio:

Sou sempre o primeiro a chegar  Assemblia, e fico aqui sentado; e uma vez que estou sozinho, resmungo, 
bocejo, me espreguio, peido, me chateio, rabisco garatujas no cho, tiro os cabelinhos das orelhas e do 
nariz... mas hoje estou



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decidido a gritar, a fazer algazarra, a insultar os oradores se algum tiver a coragem de falar em outra coisa 
que no seja a paz!

E ento vm os prtanes, a reunio comea e, nas palavras de Dicepolis, Aristfanes ataca 
os lderes democrticos radicais dizendo o que pensa deles sem papas na lngua: um dos 
embaixadores que os atenienses enviaram ao Grande Rei para pedir apoio econmico a fim 
de continuar a guerra, no intuito de justificar-se aps passar vrios meses comendo e 
bebendo  custa dos contribuintes, apela para a mentalidade e os costumes dos persas:

Embaixador: - O negcio  que os brbaros s consideram importantes os homens capazes de beber e comer 
a mais no poder.

Dicepolis: - E enquanto isto, ns continuamos aqui como bundas-moles fodidos!

Aristfanes insiste no escrnio ao lembrar as tentativas frustradas de entabular relaes com 
os persas para que o Grande Rei financie a guerra:  claro que se refere  misso com 
Artaferne que no dera em nada:

Embaixador: - Vamos l, Pseudo-artabano, conte aos atenienses o que o

Grande Rei mandou dizer.

Pseudo-artabano: - I-arta-name-xarxana pissona satra.

Embaixador: - Entenderam o que ele disse?

Dicepolis: - Em nome de Apoio, claro que no!

Embaixador: - Disse que mandar muito ouro. Vamos, seja claro, conte para

eles em alto e bom som.

Pseudo-artabano: - Nada ouro para gregos filhos da puta!

Embaixador: - Ai de mim, no precisava ser to claro!

Estamos aqui diante de uma situao curiosa e no facilmente compreensvel por um leitor 
moderno: um intelectual conservador como Aristfanes torna-se intrprete de sentimentos 
pacifistas e ataca com as suas bordoadas mordazes os lderes belicistas da democracia 
radical.  preciso no esquecer, no entanto, que por trs deste pacifismo tambm se 
esconde a simpatia de certos ambientes por Esparta, na trilha da tradio que havia sido de 
Cmon e que agora pertencia a homens como Ncias, que de fato negociaria a paz em 421.

Paz que se revelou bastante precria. Antes de mais nada porque vrios membros da liga do 
Peloponeso (corntios, tebanos, megarenses, eleios) no a subscreveram, e depois porque os 
espartanos no devolveram as cidades ocupadas por Brsidas na Calcdica. Em represlia, os 
atenienses tambm acharam por bem guardar para si Pilos, a cabea-de-ponte conquistada 
na Messnia. Seguiu-se um perodo de grande confuso durante o qual, diante


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da possibilidade de um novo surto de hostilidade, se formaram e se dissolveram vrias 
alianas provocadas pelo medo de cada um ser apanhado de surpresa por uma guerra que 
poderia estourar a qualquer hora.

Enquanto isto, um novo personagem aparecia com presena cada vez mais marcante na 
cena poltica de Atenas: Alcibades, sobrinho de Pricles, discpulo de Scrates, fascinante 
pela beleza e pelo jeito atrevido, pela sua maneira de cativar as pessoas, pelo cuidado com a 
aparncia e os trajes. Era rfo e havia sido criado sob a tutela do tio, demonstrando, porm, 
desde muito cedo uma total independncia. Fugiu de casa ainda jovem para ir morar com 
um amante:  provvel que sentisse a necessidade de um guia paternal que no seu ambiente 
era difcil de se obter de outra forma, e pode ser que o tio Pricles estivesse atarefado 
demais com os negcios de Estado para cuidar pessoalmente dele. Um episdio relatado por 
Plutarco  bastante significativo: certa vez Alcibades pediu para ser recebido por Pricles, 
mas o tio mandou um secretrio dizer que estava ocupado demais, pois aprontava a 
prestao de contas a ser apresentada aos atenienses. Alcibades mandou-lhe dizer que o 
melhor a fazer era no prestar conta alguma.  justamente nesta resposta que a nossa fonte 
focaliza a sua ateno, para evidenciar a sua falta de escrpulos, mas ns preferimos 
ressaltar a primeira parte do episdio em que podemos ver um tio que, entregue aos 
negcios de Estado, no tinha tempo a perder com ele. Este fato, assim como vrios outros 
narrados pelas fontes, deixa-nos entender que Alcibades tinha uma necessidade quase 
obsessiva de ser o centro das atenes, uma tendncia que poderia explicar muitas das 
atitudes que tomou como adulto, inclusive aquelas que levaram a sua ptria e ele mesmo a 
conseqncias desastrosas.

Foi o rapaz mais cortejado da cidade, e os homens mais ricos e influentes encheram-no de 
valiosos presentes para ganhar os seus favores; ele, no entanto - como nos conta Plutarco -, 
ficou fascinado apenas por Scrates, que s lhe falava para educ-lo no caminho da 
honestidade e da virtude, e no para lev-lo para a cama. Ao que parece, foi o primeiro a 
cortar o rabo de um co de raa que valia mais de um talento, e a cidade inteira ficou 
falando a respeito. Isso foi considerado uma extravagncia, mas na verdade era a afirmao 
de um ponto de vista esttico, coisa alis bastante comum entre os cinfilos modernos, 
principalmente para raas de ataque e defesa como os dobermanns, os rottweilers e os 
mastins em geral (como provavelmente devia ser o caso do co de Alcibades). A sua capa 
que se arrastava no cho virou moda, e, apesar de um defeito de pronncia, a sua verve 
oratria imps-se de forma arrebatadora (ele era bleso, pelo que podemos deduzir dos 
relatos das fontes). Convenceu a Assemblia a estipular uma aliana defensiva com Argos, 
apesar de saber muito bem que os argivos estavam em rota de coliso com os espartanos e 
que isto comportaria o

 i

envio de tropas atenienses para o lado deles. Foi de fato o que aconteceu em
418, quando a coalizo da qual tambm participavam outras cidades foi duramente derrotada 
em Mantinia. Dois anos depois, e talvez mais uma vez instigados por Alcibades, os 
atenienses reagiram atacando Meios, uma pequena ilha sem defesas que, sendo uma 
colnia espartana como Ter (a atual Santorni), nunca quisera fazer parte da liga de Delos.

A conversa entre os habitantes de Meios e os atenienses, relatada por Tucdides, decerto 
no corresponde ao p da letra ao que foi dito, mas representa uma das mais duras 
acusaes contra o impiedoso imperialismo ateniense daquela poca e a lembrana mais 
comovente de uma pequena comunidade que se expe ao perigo da destruio total s para 
guardar a prpria honra e a prpria liberdade.

No h meias palavras ou vagas aluses no discurso dos embaixadores atenienses:

Diante de vocs que certamente so pessoas bem informadas, no temos receio de dizer que nas 
consideraes humanas o direito  reconhecido quando existe uma igual necessidade das partes, enquanto o 
mais forte faz o que bem quiser e o mais fraco cede.

E insistem na necessidade de os habitantes de Meios tomarem a deciso mais proveitosa 
para os atenienses.

Segue-se uma rpida troca de palavras em que o despotismo do mais forte fica ainda mais 
impressionante. Os habitantes de Meios perguntam: "E que proveito teremos ns ao sermos 
seus escravos, e qual a vantagem de vocs em nos comandarem?"

Os atenienses respondem: "A vocs caberia apenas obedecer, e no sofrer o mais atroz dos 
destinos, enquanto para ns seria mais proveitoso no destru-los."

Os habitantes de Meios propem, ento, uma condio de neutralidade, digamos assim, 
benevolente: "E se, ficando em paz, ns fssemos amigos em lugar de inimigos, sem 
sermos aliados de nenhuma das duas partes, isto no seria do seu agrado?"

"No", respondem os atenienses, "porque a sua hostilidade no nos prejudica tanto quanto a 
sua amizade, que seria um pssimo exemplo para os nossos sditos, sinal da nossa fraqueza, 
enquanto o dio  a prova do nosso poder."

Os habitantes de Meios respondem que a sua cidade vive livre h setecentos anos (isto quer 
dizer que tinham memria histrica da sua comunidade desde a poca em que a tradio 
datava a invaso drica), o que significa que os deuses sempre os assistiram. Mas a a 
resposta torna-se ainda mais escarnecedora:


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Vocs que so fracos s podem se permitir jogar os dados uma s vez: no faam ento o mesmo de tantos 
outros homens (...) que se entregam  esperana de receber ajudas invisveis, isto , aos orculos e aos 
vaticnios e coisas parecidas, que juntamente com as esperanas s servem para afligir os homens.

Por fim, depois de tentar de tudo para negociar um compromisso honroso, os habitantes de 
Meios recusaram-se orgulhosamente a se deixarem subjugar: os atenienses responderam 
sitiando a cidade com a frota e o exrcito. Depois de cruentos combates Meios foi tomada, 
todos os homens adultos foram chacinados, as mulheres e as crianas foram vendidas como 
escravas. A ilha tornou-se, ento, uma colnia militar ateniense. O mais estranho  que 
Esparta no s no interveio como tampouco denunciou o tratado de paz de 421 que, pelo 
menos no papel, continuava vigorando; era evidente, no entanto, que nesta altura os 
atenienses j no prestavam ateno no moderado Ncias, mas sim no jovem e brilhante 
aventureiro que se chamava Alcibades. Quanto aos espartanos, estava claro que tanto 
prezavam a paz que preferiam deixar sem castigo at uma atrocidade como aquela.

E foi Alcibades quem induziu os atenienses a uma aventura cheia de incgnitas a mais de 
mil quilmetros de distncia da tica. Na Siclia, Selinunte havia atacado Segesta, uma 
cidade lima (e portanto de etnia indgena) aliada de Atenas. Os habitantes de Segesta 
pediram ajuda e os atenienses decidiram intervir pois sabiam que por trs de Selinunte havia 
Siracusa, a mais poderosa aliada de Esparta. Quase certamente Alcibades planejava formar 
uma ampla frente de cidades aliadas para isolar por completo a cidade inimiga antes de 
desferir o golpe decisivo, mas pode ser que os seus sonhos fossem ainda maiores. Sonhos 
de conquista com que o imprio ateniense abrangeria todo o Ocidente, transformando 
aquelas tenras longnquas num reservatrio de mercenrios a serem jogados como uma 
mar em cima de Esparta e da sua pequena liga. Um sonho digno de Alexandre que, se 
porventura chegasse a se realizar, teria mudado radicalmente os destinos da humanidade. 
Aquele plano temerrio, com efeito, se de fato chegou a ser imaginado, seria concretizado 
por uma grande potncia democrtica e no por um soberano com razes tribais como 
Alexandre.

Alm de Segesta, no Ocidente, Atenas tambm podia contar com a antiga aliada Leontinos, 
e pelo menos teoricamente com Rgio. Foi provavelmente nesta poca que fizeram erguer 
o maravilhoso templo que at hoje podemos admirar, intacto, no sop da colina onde surgia 
Segesta. Na opinio de muitos, no se trataria de uma obra inacabada (as colunas no tm 
caneluras, no h ornatos nem sinal de esttuas nos frontes), mas sim de um santurio a cu 
aberto de rito limo, construdo segundo os moldes arquitetnicos gregos. Para outros, no 
entanto, seria um templo comeado



173

pelos atenienses que em seguida teve os trabalhos interrompidos devido aos infaustos 
acontecimentos posteriores.

A expedio para a Siclia partiu entre o entusiasmo do povo, que se apinhou no Pireu para 
assistir ao evento. A grande frota parecia o prprio smbolo da glria e da potncia de 
Atenas: cento e trinta trirremes completamente equipadas levantaram ncora entre os gritos 
e as ordens de comandantes e contramestres, entre cantos de guerra no fervilhar de alvas 
espumas, no rufar surdo dos tambores que ritmavam o movimento alternado de milhares e 
mais milhares de remos. Na popa dos grandes vasos (cada um com cem toneladas de 
deslocamento, quase quarenta metros de comprimento e uma tripulao de 175 homens) 
tremulavam as insgnias multicoloridas com os smbolos herldicos dos comandantes, 
enquanto as reluzentes panplias dos guerreiros brilhavam na proa sob os raios do sol 
meridiano. Os capites faziam solenes libaes em homenagem ao deus do mar, jogando 
em seguida s ondas as taas de ouro e de prata cheias de vinho. E enquanto os navios 
desfilavam lentamente pela sada do porto atrs da capitania, as suas proas apontando 
orgulhosas para o mar aberto, os velhos choravam comovidos lembrando a prpria 
juventude, os meninos gritavam e corriam, as mulheres agitavam os braos ao se 
despedirem, em lgrimas, dos filhos que reluziam altivos como deuses da guerra em suas 
armaduras, sem saber se algum dia iriam rev-los.

A esquadra transportava cinco mil hoplitas e mil e quinhentos homens de infantaria ligeira, 
parecidos com aqueles que haviam levado a melhor sobre os mticos guerreiros 
lacedemnios em Esfactria. O corpo expedicionrio foi entregue ao comando de 
Alcibades, Ncias e Lmaco. Alcibades era um lder nato, com um incomum talento militar 
e, como tornar-se-ia claro em seguida, era de longe o mais motivado dos trs. Lmaco era 
um soldado valoroso, mas sem muita originalidade. Ncias, pvido e indeciso, era at 
contrrio  guerra, mas talvez tivesse escolhido facilitar os planos de Alcibades na 
esperana de que uma guerra na Siclia manteria o exrcito ateniense longe do espartano, 
que era o que ele mais receava.

Justamente na noite anterior  partida aconteceu um fato muito estranho: algum, cuja 
identidade jamais foi conhecida, mutilou todas as pequenas esttuas de Dioniso que surgiam 
nas esquinas e nas praas de Atenas: um sacrilgio extremamente grave, que deixou a 
cidade abismada e lanou uma sombra de mau agouro sobre a expedio que estava prestes 
a partir. Como j vimos, tratava-se de pequenos pedestais quadrangulares de mrmores 
encimados por imagens de Dioniso que normalmente exibiam vistosos falos eretos.  
provvel que estes falos marmreos tenham sido justamente o objeto da amputao, e aquilo 
que para ns pode parecer apenas uma mera bravata juvenil era para os antigos um ato de 
sacrilgio e impie-


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dade, punvel com a pena de morte. Muitas suspeitas logo surgiram em relao a Alcibades
devido ao seu notrio comportamento abusado, sexualmente ambivalente conforme as 
oportunidades, descrente e sem o menor respeito pelas tradies.

Diziam at que ele profanara os mistrios das eleusnias na sua prpria casa com uma 
espcie de pardia (como se hoje em dia algum encenasse na prpria casa uma pardia da 
missa, com a diferena de que isto no representaria de forma alguma um crime passvel de 
pena pelas leis do Estado). Nunca se soube ao certo o que pretendiam com profanao ou 
pardia daqueles mistrios, talvez tenha sido apenas uma brincadeira, ou algo mais, e mais 
srio: uma das passagens fundamentais para os iniciados era a ingesto do kykeon, uma 
espcie de mingau que, ao que parece, tinha como um dos seus componentes um parasito 
do trigo e dos gros em geral (o santurio era dedicado a Demter, a Ceres dos romanos), a 
claviceps purprea, conhecida na Idade Mdia como ergot ivre, um fungo alucingeno 
responsvel por muitos casos de aparente possesso diablica de famlias inteiras, mosteiros 
e at de uma aldeia toda. Talvez Alcibades e a sua turma s quisessem ingerir este tipo de 
substncia no contexto de um ritual fictcio (como poderia atualmente acontecer dentro de 
certas seitas que se dedicam tanto  droga quanto ao ocultismo).

Seja como for, seus acusadores comearam logo a instruir o processo e ajuntar testemunhos 
e provas, embora por enquanto no se julgasse oportuno pr Alcibades sob custdia para 
no prejudicar a expedio. Podemos imaginar, no entanto, que com uma ameaa daquelas 
a atribular-lhe a vida o homem no podia certamente dedicar o melhor de si aos planos 
estratgicos.

As operaes, com efeito, tiveram logo um mau comeo: durante a viagem de aproximao 
os atenienses no encontraram apoio nem em Taranto (que se recusou at a reabastec-los 
de gua) nem em Lcri, e tampouco em Rgio ou Messena. Perderam ento um ano inteiro 
para preparar uma base em Catnia, que ocuparam com a fora, e quando finalmente 
decidiram agir os siracusanos j tinham tido todo o tempo do mundo para reforar as suas 
fortificaes e acumular as provises necessrias. Alm do mais, a preciosa e sagrada 
nascente Aretusa, dentro da cerca das muralhas, proporcionavalhes gua potvel com 
fartura.

Enquanto isto em Atenas chegara-se  concluso de que j havia suficientes provas e 
testemunhos para incriminar Alcibades: foi ento enviado um navio oficial, o Salamina, para 
escolt-lo de volta. Durante a viagem, no entanto, talvez aproveitando algum momento de 
mar agitado, Alcibades afastou-se com o seu barco e desembarcou no Peloponeso pedindo 
hospitalidade aos espartanos, que ficaram muito satisfeitos em conced-la.

Naquele mesmo outono os atenienses levaram a melhor sobre as tropas



175

siracusanas num choque em campo aberto, mas a batalha no foi decisiva. Depois de 
passarem o inverno em Naxos e em Catnia, deram novo alento s operaes na primavera 
seguinte. Enquanto os siracusanos continuavam a reforar febrilmente as suas fortificaes, 
os atenienses ocuparam com um ataque de surpresa Eppolis, a praa-forte que dominava a 
cidade do lado norte. Transformaram o local no centro de um notvel conjunto de valas e 
contra-escarpas que, partindo da parte setentrional do promontrio siracusano deveria 
chegar at o Porto Grande, cortando assim qualquer comunicao da cidade com o interior 
enquanto a frota se encarregaria de manter o bloqueio do lado do mar.

Os siracusanos tentaram de todas as formas impedir o progresso dos trabalhos com repetidas 
surtidas, mas sem sucesso, embora numa dessas investidas provocassem a morte de Lmaco: 
um destino que, como j vimos, era bastante comum para os comandantes gregos que se 
expunham ao perigo como qualquer um dos seus soldados. O desnimo j comeava a 
tomar conta da cidade, pois a concluso da luta parecia inexoravelmente prxima. Os 
siracusanos invocaram a ajuda de Esparta com o envio de uma embaixada e Alcibades 
aconselhou o envio de reforos: partiu um minsculo corpo expedicionrio sob o comando 
de Gilipo, apenas quatro navios que fundearam em Imera, no norte da Siclia. Para chegar 
ao seu destino tiveram de atravessar toda a ilha mas, ao faz-lo, engrossaram as suas fileiras 
com numerosos contingentes locais at chegarem a um total de trs mil homens.

Com uma ao repentina, Gilipo atravessou as linhas atenienses a leste de Eppolis, onde o 
paredo ainda no estava pronto, e conseguiu entrar na cidade levantando o moral dos 
sitiados. A, com uma surtida, ocupou o setor entre as muralhas e a praa-forte de Eppolis e 
ergueu um muro perpendicular ao dos atenienses, cortando em dois o sistema de contra-
escarpas destes ltimos. Os embates continuaram sem parar por terra e por mar, enquanto 
reforos continuavam chegando de Esparta e do resto do Peloponeso. Ncias perdeu a sua 
postao fortificada no cabo Plemrio, ao passo que os espartanos, tendo chegado  
concluso de que a paz de Ncias no tinha mais valor, enviaram  tica um exrcito sob o 
comando do rei Agidas que, ao contrrio de Arquidamo, no se limitou a uma ttica de 
correrias, mas sim ocupou e fortificou Decelia, a poucos quilmetros de Atenas, criando 
assim uma ameaa permanente para o corao da cidade inimiga. A partir da os suprimentos 
destinados a Atenas, que em parte desembarcavam ao norte da tica, no canal da Eubia, 
tiveram de enfrentar as correntezas muito mais perigosas do cabo Snio.

Durante o inverno, de qualquer forma, os atenienses tinham enviado reforos  Siclia: uma 
nova frota com mais de setenta navios e quatro mil hoplitas s ordens de Demstenes, o 
heri de Esfactria. Com estas tropas


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descansadas Demstenes retomou a ofensiva: nesta altura, com o inimigo to perto de casa, 
 provvel que tivesse recebido instrues para levar a termo de qualquer maneira a 
empresa. Deve ter imaginado, portanto, que a nica sada possvel era completar o bloqueio 
da cidade, retomar Eppolis e concluir as obras das valas e contra-escarpas. Depois disto s 
seria uma questo de tempo. Atacou de noite, l pelo fim de julho, como j fizera em 
Esfactria, mas, depois de um primeiro sucesso devido  surpresa, acabou sofrendo uma 
pesada derrota. Com o fracasso da operao, decidiu levar de volta para casa o corpo 
expedicionrio na Siclia e ordenou o embarque dos homens.

Era o dia 23 de agosto de 413; conhecemos a data com exatido porque sabemos que houve 
um eclipse total da Lua. O fenmeno deixou Ncias to apavorado que ele decidiu adiar a 
partida. Esta demora foi fatal: no dia seguinte uma frota siracusana bloqueou a sada do porto 
e, quando a esquadra ateniense tentou abrir caminho, empurrou-a para trs afundando 
dezoito trirremes inimigas. Evidentemente o moral das tripulaes ticas devia estar aos 
frangalhos e os siracusanos perceberam que a vitria estava ao seu alcance. Demstenes, no 
entanto, convenceu Ncias a fazer mais uma tentativa para forar o bloqueio. Lanou em 
frente os seus melhores navios e, por um momento, pareceu que iriam conseguir. Mas os 
siracusanos e seus aliados logo contra-atacaram: empurrados por um forte siroco entraram 
por sua vez no Grande Porto enquanto, ao mesmo tempo, os siracusanos e os atenienses 
travavam um furioso combate em terra.

O espelho de gua do porto Grande transformou-se num verdadeiro inferno: quase duzentos 
navios enfrentaram-se numa luta mortal, arremessando-se uns contra os outros num fervilhar 
de espuma, numa incrvel balbrdia de gritos de guerra, de toques de cometa, de chamados 
e de ordens berradas em todos os dialetos da Grcia e da Siclia, aos quais logo se 
acrescentaram os gemidos de dor dos feridos, as splicas dos marinheiros e dos soldados 
jogados ao mar, o estrondo dos vasos abalroados, dos remos e dos lemes estilhaados nas 
manobras de choque. Os soldados da infantaria naval lanavam-se ao ataque tentando de 
qualquer maneira repelir os inimigos, mas em muitos casos, enquanto abordavam um navio 
adversrio, eram por sua vez abordados por outro devido ao pouco espao disponvel para a 
manobra. No fim do dia, talvez tambm por causa da longa inatividade, a frota ateniense foi 
definitivamente derrotada. Cinqenta navios foram afundados. Os demais recuaram at a 
costa e as tripulaes com os soldados embarcados procuraram abrigo nas trincheiras dos 
seus acampamentos. A enseada do porto Grande estava totalmente apinhada de destroos, 
de barcos virados ou emborcados, de cadveres que a ressaca empurrava lentamente para a 
praia.



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A sada para o mar estava fechada. O nico jeito para fugir dali era por terra, tentando 
alcanar Camarina, uma vez que o caminho do norte, para Catnia, era impraticvel pois 
Eppolis j estava firmemente nas mos dos siracusanos. Houve mais demoras e incertezas 
e, quando finalmente os atenienses se puseram em marcha, os inimigos j haviam tomado 
posio em todos os pontos que dominavam as passagens e os desfiladeiros. Os doentes e 
os feridos foram abandonados entre cenas de extrema aflio e gritos desesperados. Houve 
quem se pendurasse no pescoo dos companheiros suplicando para ser levado com eles ou 
ento ser morto ali mesmo.

Partiram, esgotados pelas viglias, os combates, as privaes. Ncias, que chefiava a 
vanguarda e era mais rpido, perdeu rapidamente o contato com o segundo grupo de 
soldados guiado por Demstenes, que foi logo cercado e forado a se render. No dia 
seguinte foi a vez de Ncias: os seus homens avanavam aos trambolhes sob o sol 
escaldante, sem a menor disciplina, sem comida nem gua, atormentados pela sede e, 
quando finalmente avistaram o rio Assinaro, correram em debandada para beber, mas a 
cavalaria siracusana investiu contra eles envolvendo-os numa nuvem de dardos, pisoteando-
os sob os cascos dos cavalos, massacrando-os sem d. Mesmo assim, conta Tucdides, os 
soldados atenienses ainda procuravam beber, esquecidos de tudo, e engoliam gua 
vermelha do sangue dos seus companheiros.

Os sobreviventes foram completamente cercados, aprisionados e ento jogados nas terrveis 
latomias, as pedreiras de Siracusa, onde permaneceram durante setenta dias no abafado 
calor do dia e logo a seguir no rigor do frio noturno, juntamente com seus prprios 
excrementos e os cadveres em putrefao dos companheiros. Como comida, um punhado 
de trigo por dia e uma tigela de gua.

Ncias e Demstenes foram condenados  morte, embora Gilipo fosse contrrio, 
principalmente no caso de Ncias, que dois anos antes convencera os seus concidados a 
devolver os prisioneiros lacedemnios capturados em Esfactria.

Atenienses e indgenas foram mantidos ali, para apodrecerem naquele inferno, enquanto os 
outros foram vendidos como escravos. Dos atenienses, como conta Plutarco, s foram 
libertados aqueles que sabiam recitar os versos das Troianas de Eurpides, a tragdia que 
mais do que qualquer outra lamentava com sentidas palavras a loucura da guerra. Mais de 
sete mil homens haviam sido aprisionados pelo inimigo e quase nenhum deles voltou a 
Atenas. A fina flor da juventude ateniense havia sido perdida. A cidade nunca mais ficaria 
de p depois de tal desastre.


30 de novembro de 1999

- Que histria terrvel... - Kostas acabou de ouvir mais uma vez a minha ltima fita que 
recebera dois dias antes. Reconheo que foi um golpe baixo: mandei-lhe uma verso 
especial, lida por um locutor profissional.

- Um dos dramas mais terrveis na histria da humanidade, embora em escala menor devido 
 poca.

- Pois , mas as premissas j estavam todas no debate entre os habitantes de Meios e os 
atenienses: a lgica, se assim podemos cham-la, est na fora e na arrogncia. Parece 
quase impossvel que se trate da mesma cultura que produziu as tragdias de Eurpides e as 
esttuas de Fdias.

-  verdade. E  difcil evitar exprimir um juzo moral sobre fatos como estes, apesar de 
nenhum de ns estar capacitado para faz-lo.

-Porque no?

- Porque a histria no pode ser contada apenas dividindo a humanidade entre bons e 
maus, porque ningum  bom e ningum  mau, porque  impossvel saber o que h de 
bom e de mau na alma do homem. Assim como  impossvel determinar o bem que poder 
decorrer de um certo tipo de mal e quanto mal advir de um certo tipo de bem. A histria 
continua sendo em grande parte um mistrio. Aqueles homens em particular ignoravam o 
nosso conceito de bem e de mal. O prprio Scrates, que tinha um sentido tico exemplar, 
lutou valorosamente em Potidia e Dlios, convencido de estar fazendo a coisa certa. Eles 
acreditavam piamente que a natureza ou os deuses concediam a fora queles capazes de 
us-la. Um conceito que agora ns chamaramos de darwiniano. Era um mundo em que no 
existia compaixo por quem sucumbia, e onde se tornava, portanto, imperativo vencer, 
sempre e de qualquer maneira. Era um comportamento alm do bem e do mal, para usarmos 
uma expresso de Nietzsche.

-E quanto  paz?

- Era uma coisa que sem dvida amavam. Herdoto diz: "Em tempo de



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paz os filhos enterram os pais, em tempo de guerra os pais enterram os filhos." Que 
dolorosa conscincia do horror blico! Mas aquela gente observava o mundo e sabia pelos 
filsofos que a paz  uma condio precria. A viso da natureza pode inspirar a paz, mas  
uma sensao errada: a guerra est em toda parte, guerra sem trgua para a sobrevivncia. 
O peixe grande que come o pequeno, a ave de rapina que dilacera a cotovia, o leo que 
despedaa o carneiro: a paz era imaginada como um estado de graa de alguma remota e 
perdida idade do ouro. Hesodo afirmava que a idade do ouro s voltaria quando aparecesse 
uma raa com as tmporas brancas de nascena. Isto , nunca.

- Mesmo assim, entre os intelectuais, existia sem a menor dvida uma sensibilidade 
pacifista.

- Claro, mas era um tipo de reflexo que tinha um impacto muito limitado em comparao 
com os "poderes fortes" da poca. Basicamente a civilizao grega no conseguiu resolver 
a contradio da guerra como fenmeno endmico, e foi justamente esta incapacidade que 
determinou o seu ocaso, o seu fim.

- Fiquei muito impressionado com uma frase da conversa entre os habitantes de Meios e os 
atenienses, quando o comandante tico diz que os orculos e os vaticnios afligem os 
homens da mesma forma que as esperanas... A esperana  considerada uma calamidade.

- Para quem no pode se dar a este luxo.

- Pois , para quem no pode se dar a este luxo...

Fica alguns momentos em silncio e eu me sinto um tanto sem jeito por ter falado nisto com 
um homem nas suas condies, mas, como sempre, ele mesmo sabe desviar o assunto para a 
ironia:

- Tambm dei umas boas gargalhadas com aquelas falas de Aristfanes. Gostaria realmente 
de ter conhecido o sujeito.

- Eu tambm.

- Que filho da me! Mas tinha peito... Hoje em dia no h ningum com bastante coragem 
para falar publicamente dos polticos daquele jeito: "bundas-moles fodidos". J pensou?

- Democracia radical. E alm do mais ali todos se conheciam, e podiam dizer o que bem 
quisessem. Hoje falariam logo em difamao, processariam voc sem pensar duas vezes, 
pediriam milhes de indenizao. Podia acontecer tambm naquela poca,  claro, e de fato 
foi o que Cleofez, mas deforma e com resultado bastante diferentes. O tamanho das nossas 
democracias impe um pesado f ardo de regras, normas, regimentos. A experin-


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cia ateniense  extraordinria de qualquer ponto de vista, inigualvel como tudo aquilo que 
pertence  histria.

- Mas continua dentro de ns, na nossa cultura e na nossa mentalidade, voc no acha? 
Como  mesmo que Tucdides diz? "Ktema eis aei", um cabedal para sempre.

- Isto mesmo, meu bom amigo. Um cabedal para sempre. Se no fosse assim, acha que 
ainda estaramos aqui, falando no assunto, depois de vinte e cinco sculos?

- J estamos perto do fim desta histria, no ?

- Bem perto do fim, Kostas - respondo, sem saber ao certo a qual histria ele se refere.

XI SCRATES

O desastre da expedio  Siclia teve pesadas conseqncias: com efeito de domin, uma 
depois da outra as cidades da liga comearam a desertar e a pedir a interveno espartana: 
primeiro a Eubia, e depois Quio, Ertria, Clazomenas, Metimna, Mitilene na ilha de 
Lesbos, Teos, Lbedo e Mileto (sendo que esta era uma colnia ateniense e tinha at sido 
auxiliada por Atenas na revolta jnia de 494).

Nesta fase em que a rea do conflito deslocou-se para o leste, ao longo das costas da sia 
Menor, ficou cada vez mais forte a posio de Alcibades, que tendia a favorecer um acordo 
entre Esparta e a Prsia em prejuzo dos atenienses. Aconteceram vrios contatos, 
principalmente com os strapas das regies litorneas na sia Menor, que se tornaram 
interlocutores diretos de Esparta.

A negociao tratava basicamente do seguinte: Esparta renunciaria a apoiar a autonomia dos 
gregos da sia em relao ao Grande Rei em troca da ajuda econmica da Prsia na guerra 
contra Atenas. Nem  preciso dizer que se tratava de um pacto infame no qual o 
particularismo e o sectarismo dos gregos mostravam a sua pior face. Bem no meio ficavam 
os gregos da sia que, se por um lado desejavam se livrar dos grilhes atenienses, por outro 
receavam um destino ainda mais soturno ao ficarem sujeitos, de mos e ps atados,  
dominao persa.

No  fcil interpretar a estratgia de Alcibades, que nesta altura se porta como verdadeiro 
traidor, mas  provvel que ele quisesse antes de mais nada vingar-se da cidade que o 
arruinara para depois, na certa superestimando o seu prprio papel, tentar aproveitar o 
prestgio e o capital acumulado ao fornecer preciosas informaes ao inimigo e favorecer os 
seus contatos com a Prsia, e ento manipular o curso dos eventos em prol da sua ambio e 
dos seus planos pessoais (que sem dvida alguma incluam algum tipo de volta triunfal a 
Atenas). A cidade culpada por t-lo destitudo e processado devia ser punida, devia ser 
levada ao mais negro desespero para em seguida implorar a sua volta.


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Enquanto isto os atenienses reagiram, tentando recuperar as suas posies; em 412 
ocuparam novamente Lesbos e Clazmenas e bloquearam Mileto, na tentativa de retom-la 
com suas tropas de assalto. A operao, no entanto, fracassou devido  pronta interveno 
de uma esquadra do Peloponeso formada por uns cinqenta navios, vinte dos quais 
fornecidos por Siracusa e Selinunte. As cidades da Siclia no haviam esquecido a sua 
dvida de gratido para com Esparta. Mileto permaneceu com firmeza nas mos dos 
espartanos, que a transformaram em sua base operacional, enquanto os atenienses recuaram 
para Samos. No fim das operaes daquele ano, alm de Samos, s ficaram sob o domnio 
de Atenas Lesbos, Clazmenas, Cs e Halicarnasso. feso tambm havia sido perdida, 
assim como Rodes e Cnido; em Quio sobrava apenas um pequeno presdio, enquanto o 
resto da ilha era dominado pelos espartanos.

Esparta tambm conseguiu, sem nem mesmo recorrer  fora, fazer com que Lmpsaco e 
Abidos, bem na entrada dos Dardanelos, se rebelassem e ficassem do lado lacedemnio. Os 
atenienses retomaram Lmpsaco, que no tinha cerca de muralhas, mas naquele mesmo 
vero sofreram a defeco de Bizncio, Czico e Calcednia - todas na regio dos estreitos, 
vital para o abastecimento de trigo para Atenas - e mais tarde de Tasos e da maior parte das 
cidades da Trcia.

Ao que parece, a influncia de Alcibades em todas estas operaes, principalmente na 
defeco de tantas cidades da liga de Delos, havia sido determinante, e isto explica o seu 
prestgio junto do strapa Tissafarne, o representante do Grande Rei na Jnia. A partir da 
primavera de 411, no entanto, Alcibades manteve contatos com a frota ateniense fundeada 
em Samos (que acabava de ajudar os habitantes da ilha a repelir uma tentativa de volta ao 
poder por parte de um grupo de oligarcas). Provavelmente Alcibades deve ter achado que 
j era hora de ele retomar o seu lugar em Atenas. Apesar de tudo, nunca conseguira 
realmente cair nas graas dos espartanos: irrequieto demais, sempre ambguo, baseava 
qualquer coisa no plano das relaes pessoais, usando o seu fascnio e o seu carisma como 
armas extremamente poderosas, e por isto mesmo impossvel de ser controlado. Alm do 
mais, seduzira a mulher do rei Agidas (aproveitando a confuso durante um tremor de terra) 
e a deixara grvida;  bvio que para o soberano ele era como pimenta nos olhos. Percebe-
se nas entrelinhas que as mulheres espartanas, acostumadas com o trato um tanto brusco dos 
maridos, ficavam doidas com o charme daquele jovem ateniense lindo, de fala mansa e 
modos gentis e requintados.

Alcibades mandou dizer aos oficiais da frota que o Grande Rei estava disposto a tratar com 
Atenas, mas que no gostava nem um pouco do regime democrtico. Tudo seria bem 
diferente, contudo, se na cidade fosse ins-



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taurado um governo oligrquico. A proposta encontrou ouvidos dispostos a prestar ateno: 
os comandantes das trirremes, na verdade, tambm eram os seus armadores, pois em tempos 
de guerra a norma previa que os ricos se sujeitassem a este tipo de nus/honra que, se de 
um lado comportava vultosas quantias de dinheiro para construir e equipar um navio de 
combate, do outro lhes conferia a patente de oficial comandante (trierarca). Os trierarcas 
organizaram, portanto, uma conspirao, com a nica exceo de um tal de Frnico; este no 
acreditava que o Grande Rei estivesse de fato interessado numa aliana com eles e 
salientou que a liga naval s se mantinha junta graas  comunho ideolgica baseada na 
democracia. Que interesse poderia ter um regime oligrquico em manter relaes com 
cidades democrticas?

Esta tomada de posio dos oficiais em Samos, obviamente, no era algo que acontecia de 
repente, sado do nada: j fazia algum tempo que em Atenas ia se formando uma forte 
oposio ao regime democrtico, ao qual os conservadores atribuam os desastres dos 
ltimos anos e a derrocada do imprio ateniense. J em 415 Aristfanes, com O s pssaros, 
levara s cenas o mal-estar de uma sociedade em debandada diante de lderes corruptos e 
incapazes, e naquele mesmo ano de 411 encenou Lisstrata, em que as mulheres de todas as 
cidades gregas entram num acordo para decretar uma "greve do amor", a fim de forar os 
seus homens a assinarem a paz.

Deixando de lado as obscenidades ("... maquiadas e perfumadas... nuas e de bocetinha 
raspada, quando os homens vierem atrs da gente de pau duro... ns nada"), o poeta retrata 
as caractersticas da psicologia feminina dentro das paredes domsticas, a das mulheres que 
no tm direitos nem poder poltico, mas que pagam com mais amargura o preo da guerra: 
a perda dos filhos, dos irmos e dos maridos, e querem deles uma prestao de contas 
enquanto ainda esto vivos: "Do que se falou na Assemblia, qual foi o assunto?", 
recebendo sempre a mesma resposta, que as mulheres nada tm a ver com isto. Pensando 
bem, a encenao um tanto doida de Aristfanes no  l to absurda como parece: a que 
arma podiam afinal recorrer as mulheres, a no ser o amor, ou o sexo, para sermos mais 
explcitos, ou  "trcia", um dos muitos termos fantasiosos com que o autor apelida o rgo 
sexual feminino?

Nesta mesma poca apareceu um panfleto violentamente antidemocrtico, A constituio 
dos atenienses, quase certamente inspirado pelas rodas oligrquicas e sofistas, e podemos 
supor que outras obras similares circulassem na praa, com a inteno de preparar a opinio 
pblica para uma virada na vida poltica da cidade.

Quando os oficiais de Samos falaram com seus homens acerca da necessidade de mudar as 
disposies da cidade, houve resmungos, que porm a miragem dos bons salrios pagos 
com o ouro dos persas pareceu num pri-


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meiro momento calar. Logo a seguir, uma delegao foi enviada a Atenas para avaliar os 
humores da populao. O representante dos oficiais exps o problema de forma muito clara: 
a cidade corria um risco tremendo, a nica salvao seria chamar de volta Alcibades e 
assinar uma aliana com o Grande Rei. Para fazer isto, contudo, seria necessrio que o 
governo da cidade e os cargos mais importantes voltassem s mos de poucos.

A Assemblia rumorejou, ouviram-se de todos os lados gritos de protesto, e ento o orador e 
chefe da conspirao, um tal de Pisandro de Acarne, perguntou se conheciam outras formas 
para salvar a cidade, e ningum soube dizer. Considerando este objetivo prioritrio, 
Pisandro afirmou que qualquer outra coisa poderia ser providenciada em seguida. Enquanto 
isto, no entanto, os emissrios dos conspiradores mantinham contatos com as eterias (tipos 
de sociedades secretas bastante parecidas com o modelo da mfia siciliana, de molde 
fundamentalmente oligrquico pela sua prpria estrutura) a fim de preparar a mudana de 
regime de forma possivelmente

indolor.

O povo nada decidiu, mas pediu que os oficiais da frota voltassem  sia a fim de tratarem 
com o strapa persa Tissaferne. A delegao voltou sem nada de concreto nas mos pois, a 
pedido de Alcibades, as exigncias persas eram descabidas e totalmente absurdas.

A tentativa de se chegar a um entendimento com os persas foi abandonada, mas a 
conspirao para assumir o poder j estava em andamento e no era mais possvel voltar 
atrs. Comeou sendo um golpe de Estado disfarado e sutil, sustentado com mtodos sub-
repticiamente mafiosos: os nicos a falar na Assemblia eram os conspiradores, quem se 
opunha acabava sendo encontrado morto "de forma apropriada", como diz Tucdides; 
evidentemente com aluses e simbolismos parecidos com aqueles que a mfia usa at hoje 
nas regies meridionais da Itlia (a pedra na boca significa o castigo do informante, as mos 
e os ps atados juntos o do traidor etc.), o terror no demorou a tomar conta da cidade e, 
quando o ambiente se tornou insuportvel, deu-se o verdadeiro golpe de Estado.

O Conselho dos Quinhentos foi dissolvido, pagando-se as remuneraes at o fim do prazo 
previsto. Foi obviamente abolida a diria de todos os funcionrios pblicos; a Assemblia foi 
limitada a uma base de cinco mil cidados, praticamente a classe dos hoplitas, que naquele 
momento tinha a maior representao na cidade, da qual sairia eleito por cooptao o 
Conselho dos Quatrocentos. Como vrios estudiosos justamente salientaram, este golpe de 
Estado no pode ser considerado uma ao baseada em fundamentos tipicamente 
ideolgicos de molde oligrquico, mas sim uma escolha de tipo prtico e oportunista, 
baseada nas consideraes dos sofistas segundo as quais no h nem democratas nem 
oligarcas convictos, mas apenas cida-



185

dos que escolhem um ou outro sistema segundo o que lhes for mais til e apropriado no 
momento.

Os golpistas, no entanto, haviam esquecido uma coisa muito importante: no haviam levado 
em conta a reao dos marujos da frota de Samos, em sua maioria tetos das classes mais 
humildes, que desempenharam um papel que quase lembra o do cruzador Aurora na 
revoluo russa de outubro. Desobedeceram ao governo e proclamaram a volta do regime 
democrtico, e a Alcibades voltou a aparecer entre eles, recebido triunfalmente.

 claro que o seu desejo de retomar nas mos as rdeas da situao era to grande que, 
qualquer que fosse o resultado daquela confuso, j no conseguia mais se manter afastado 
da luta. Os marujos elegeram-no estratego e pediram que os levasse imediatamente de volta 
para retomarem o controle da cidade, mas ele conseguiu det-los e, algum tempo depois, 
induziuos at a ouvirem os delegados do Conselho dos Quatrocentos, sem contudo obter 
qualquer resultado deste encontro.

Enquanto isto, a frente oligrquica rachava-se em Atenas, havendo at um grupo extremista 
que se entrincheirou no Pireu para garantir a entrada das tropas espartanas na cidade. Os 
mais moderados, chefiados por Teramene, reagiram prontamente: desmantelaram as 
fortificaes e votaram a devoluo dos poderes  Assemblia que, embora limitada aos 
cinco mil, continuava mesmo assim sendo amplamente representativa da populao. Ela 
votou ento a favor da volta de Alcibades, de forma que a fugaz labareda oligrquica logo 
se apagou sem deixar atrs de si visveis seqelas. Ao mesmo tempo foi retomada a 
atividade militar na regio dos estreitos, onde a frota, magnetizada pela volta de Alcibades, 
enfrentou e venceu o inimigo em Abidos e Cinossema.

Para ns acaba aqui o testemunho de Tucdides e comea o de Xenofonte, por meio das 
suas Helnicas. H quem queira ver nesta "troca da guarda" uma espcie de romance 
policial filolgico: Xenofonte, aluno de Scrates, alm de polgrafo e aventureiro, teria 
publicado com o prprio nome - como primeiro livro das Helnicas - o texto que na 
realidade era o ltimo livro de Tucdides, de cujo manuscrito ele teria de algum modo 
conseguido se apropriar. A hiptese, que recentemente voltou a ser proposta, tem muitas 
probabilidades de ter acertado no ponto, at mesmo pelo sublime nvel conceptual e 
dramtico que caracteriza o testemunho.

Alcibades conseguiu um sucesso clamoroso em 410, em Czico, onde a vitria ateniense foi 
to esmagadora que os espartanos acharam por bem pedir a paz: eles iriam devolver 
Decelia, enquanto os atenienses devolveriam Pilos, ainda ocupada desde a poca do 
ataque a Esfactria. Era uma proposta realista, mas foi recusada. Um demagogo chamado 
Cleofonte, cuja profisso consistia em fabricar alades, convenceu a Assemblia a pedir a


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devoluo de todas as cidades da liga de Delos ocupadas pelos espartanos. Obviamente a 
coisa no deu em nada.

Enquanto isto, Atenas ainda tinha bastante energia criativa para continuar os trabalhos de 
construo do Erection, na acrpole, ao passo que nas Grandes Dionisacas daquele ano 
eram apresentadas as Fencias, de Eurpides, em que se encenava o drama de Eteocles e 
Polinice, os dois irmos do mito edipiano que acabam se matando um ao outro num duelo 
at o ltimo sangue. Era mais um grito de dor e aflio do grande poeta contra a loucura 
humana e a fria cega da guerra; um grito que, infelizmente, iria

se perder no vazio.

Neste ponto as cartas estavam mais uma vez nas mos de Alcibades, um verdadeiro 
camaleo, capaz de adaptar-se a qualquer situao: astucioso, temerrio e vingativo, capaz 
de qualquer maquinao para alcanar os seus objetivos. Em Esparta as pessoas no 
acreditavam em seus prprios olhos quando o viam comer po de cevada com a mtica (e 
horrvel) sopa negra, lavar-se com gua fria e raspar a cabea; da mesma forma, na Jnia se 
mostrava preguioso e folgado, na Trcia montava a cavalo corno os indgenas e se 
embebedava mais do que qualquer outro tomando vinho puro, e com os persas ostentava 
uma elegncia e um luxo que at a eles surpreendiam. Naquele momento ele tinha uma 
indiscutvel superioridade no mar, mas a potncia ateniense j era coisa do passado, pois os 
destinos da cidade a levaram a um crculo vicioso de runa: menos aliados, menos tributos; e 
menos tributos, menores possibilidades de manter os aliados. Os espartanos, por sua vez, 
podiam contar com as generosas contribuies do Grande Rei para reconstruir a sua frota. 
Em 409 retomaram Pilos e, no mesmo ano, Mgara reconquistou definitivamente Nisa. At 
Corcira, que havia sido o motivo primordial de Atenas empreender a guerra do Peloponeso, 
acabou sendo perdida.

A antiga causa comum dos gregos contra os brbaros j era uma vaga lembrana: os prprios 
atenienses mantinham agora relaes amigveis com Cartago a fim de exercer uma certa 
presso sobre Siracura e desviar as suas foras do setor oriental. Apesar de tudo, Alcibades 
ainda demonstrou grande capacidade estratgica e ttica ao reconquistar Bizncio e Tasos 
com duas brilhantes operaes invernais. Voltou para Atenas em 408 e foi recebido como 
vencedor entre os aplausos da populao. Acompanhado por um cortejo de amigos e de 
guarda-costas, dirigiu-se a Pnice, onde proclamou diante do povo sua inocncia da acusao 
de ter profanado os mistrios de Elusis. Foi reintegrado no cargo e recebeu de volta todas 
as suas propriedades, mas nesta altura devia ter percebido que aquilo com que tanto 
sonhara, a liderana da cidade, j deixara de ser satisfatrio, pois nada mais descortinava 
diante de si a no ser previses sombrias e sem sada. Depois de quatro meses voltou, 
portanto, a zarpar numa ltima tentativa de desafiar a sorte.



187

Enquanto isto, em Esparta, o comando supremo havia sido entregue a um general chamado 
Lisandro, um homem de extraordinria inteligncia e capacidade que nada tinha a ver com a 
tradicional figura do soldado espartano obstinadamente fiel ao seu rgido cdigo de honra, 
mas incapaz de moldar-se s circunstncias. Conseguiu manter-se longe da frota 
visivelmente superior do adversrio por quase um ano, cuidando ao mesmo tempo de 
cultivar as relaes com o novo strapa persa da Ldia: o prncipe Ciro, filho de Dario e de 
Paristide, e irmo do imperador Artaxerxes. Com apenas dezessete anos, era o preferido 
pela me, que o apoiava de todas as formas possveis: dez anos mais tarde iria favorecer 
secretamente uma sua louca tentativa de derrubar o irmo Artaxerxes para ocupar em seu 
lugar o trono aquemnida. Este golpe frustrado iria abrir caminho para uma das maiores 
aventuras da Antiguidade, a mtica "retirada dos dez mil", contada por Xenofonte num dirio 
de guerra baseado em anotaes escritas diretamente no campo de batalha.

Lisandro tornou-se seu amigo pessoal, lisonjeou a sua vaidade, satisfez suas vontades e 
suportou as suas repentinas mudanas de humor com uma nica finalidade: conseguir 
dinheiro, todo o dinheiro necessrio a dobrar Atenas.

Depois de mais ou menos um ano de escaramuas, em que os adversrios sempre evitaram 
o choque direto, Alcibades viu-se diante da necessidade de encontrar fundos para pagar os 
salrios e rumou para a Caria, deixando a esquadra sob o comando de um amigo e 
companheiro de noitadas, um tal de Ncio, com a ordem de no travar combate na sua 
ausncia, mesmo que viesse a ser atacado pelo inimigo. Ncio, no entanto, informado que a 
frota de Lisandro no estava longe, com os barcos em seco e as tripulaes em terra, no 
conseguiu resistir  tentao de uma grande vitria e levantou ncora para atacar; Lisandro, 
no entanto, mantivera-se alerta e no demorou quase nada para empurrar os barcos para o 
mar: atacou com todas as unidades ao seu dispor e infligiu ao descuidado agressor uma 
humilhante derrota. Ao voltar, Alcibades procurou inutilmente desafiar o adversrio em mar 
aberto: Lisandro preferiu ficar ao abrigo, no porto, mais que satisfeito com o resultado 
conseguido.

Um dos oficiais atenienses, entretanto, voltou a Atenas e falou deAlcibades diante da 
Assemblia, acusando-o de toda espcie de torpeza, dizendo at que estava fora com umas 
putas (coisa alis bastante possvel) enquanto Lisandro atacava o seu inepto lugar-tenente. 
Foi bastante convincente para causar a sua destituio. Por incrvel que parea, embora por 
razes meramente institucionais, um destino muito parecido tambm coube ao seu 
homnimo espartano, Lisandro, que foi substitudo por um aristocrata da "velha guarda" 
chamado Calicrtidas. Afastado do comando, Alciba-


188 

ds no se atreveu a voltar para Atenas e abrigou-se em suas terras na Trcia, onde havia 
preparado uma manso-fortaleza presidiada pelos seus mais fiis partidrios e da qual 
exercia uma espcie de proteo sobre os grupamentos gregos das redondezas, 
constantemente expostos s correrias das tribos brbaras do interior.

A guerra reavivou-se e desta vez coube aos espartanos tomar a iniciativa: com uma jogada 
habilmente inesperada, Calicrtidas conseguiu bloquear a frota do almirante ateniense 
Cnon no porto de Mitilene, na ilha de Lesbos. Os atenienses no tinham outra sada: 
precisavam de qualquer maneira libertar a esquadra prisioneira. Conseguiram a duras penas 
armar outra frota de 110 navios; os cidados de qualquer classe social, sem discriminao, 
foram obrigados a sentar nos bancos dos remadores e at prometeu-se algum tipo de 
cidadania aos escravos. Finalmente a esquadra ficou pronta e

levantou ncora.

O enfrentamento com os espartanos aconteceu perto de um pequeno grupo de ilhas 
chamadas Arginusas, entre a ilha de Lesbos e a costa da sia Menor. Os atenienses 
venceram, mas logo a seguir caiu no local uma violenta tempestade que tornou impossvel o 
salvamento dos nufragos que morreram em nmero superior a dois mil. Dois dos oito 
comandantes no voltaram - e isto j demonstra a confiana que tinham na imparcialidade 
dos seus concidados -, os demais foram jogados nas masmorras e acusados de omisso de 
socorro: um crime que comportava a pena de morte.

Seguiu-se um julgamento sumrio que mais pareceu uma encenao teatral do que uma 
ao legal, depois do qual a Assemblia foi simplesmente solicitada a votar a absolvio ou 
a condenao dos estrategos incriminados. Houve quem se levantasse gritando que aquele 
processo no passava de uma farsa, que os comandantes no podiam ser acusados e 
condenados em massa, uma vez que cada um unha direito a um julgamento separado, e que, 
alm do mais, o voto no fora secreto porque haviam sido trazidas duas urnas diferentes, 
uma para o sim e a outra para o no. A reao foi incrvel: o acusador exigiu que os 
oponentes fossem por sua vez incriminados e pediu para eles a pena de morte.

As instituies perderam-se numa orgia demaggica desenfreada enquanto a cidade ficava 
entregue a um clima terrvel, alucinado, com milhares de pessoas que vagavam como 
fantasmas, em trajes de luto e com as

cabeas raspadas.

Qualquer tentativa de trazer de volta o processo s normas da legalidade fracassou, as 
ameaas abafaram qualquer voz de protesto a no ser uma, a de Scrates que, apesar de 
afirmar em alto e bom som toda a sua indignao, caiu no vazio: os estrategos foram 
condenados  morte e imediatamente executados. Entre eles tambm estava o jovem 
Pricles, o filho de Pri-



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cies e Aspsia. De uma s cartada a cidade privara-se de todo um estadomaior da marinha 
de guerra que, afinal, demonstrara no campo de batalha a sua competncia. S ficava 
Cnon, que at ento nunca tinha dado prova de particular sagacidade.

Dessa vez Scrates se salvou. Talvez j fosse popular e conhecido demais para que a sua 
eliminao pudesse passar em brancas nuvens. O filsofo, filho de um pedreiro e de uma 
parteira, particularmente feio com o seu narigo e olhos esbugalhados - em outras palavras, 
a prpria negao do ideal grego que atribua grande valor  aparncia fsica -, dedicara-se a 
um tipo de especulao de todo novo e decididamente contrrio s teorias e praxes dos 
sofistas.

Afirmava que o verdadeiro sbio  aquele que se d conta de no saber, e que a verdadeira 
sabedoria consiste em conhecer a si prprio. Ensinava nas praas, nos prticos, sempre 
solicitando a participao dos transeuntes nos debates; levantava com obstinada insistncia o 
problema da moral, da ao que deveria conformar-se com a conscincia e a retido. No 
deixou coisa alguma escrita e tampouco fazia conferncias, ao contrrio dos sofistas que se 
davam ares de grandes mestres; o nico caminho possvel, para ele, era a contnua e 
incansvel busca da verdade, um perptuo interrogar-se e agir com honestidade segundo os 
ditames do daimon, a conscincia.

A sua profunda sabedoria, a sua coragem e inteireza de carter de nada adiantaram: no 
conseguiu transmitir juzo e sensatez  cidade que j parecia estar totalmente entregue aos 
demagogos. Eles alimentavam a intolerncia belicista pela simples razo de somente assim o 
povo poder continuar a iludir a si mesmo, acreditando ainda estar vivendo num centro 
urbano poderoso e mantendo, assim, algum tipo de coeso.

Nesta mesma poca morreram, um aps o outro, primeiro Eurpides e depois Sfocles: os 
ltimos grandes educadores das massas. Saam de cena em silncio, deixando o palco para a 
comicidade grotesca de Xenofonte que, nas Rs (o coro  formado pelas pererecas dos 
pntanos estgios), apresenta um Hrcules fanfarro, enviado aos Infernos pelos deuses a 
fim de trazer de volta  vida algum poeta trgico do qual a cidade desesperadamente 
precisa.

A sensao da derrota inevitvel talvez tivesse tomado ainda mais desprezvel a raivosa e 
vingativa covardia dos demagogos: com efeito, ao se darem conta de que s vezes os 
prisioneiros resgatados voltavam a lutar contra Atenas, mandaram votar uma lei pela qual os 
inimigos capturados passariam a ter a mo direita amputada, uma barbaridade da qual at 
ento s haviam sido capazes os persas, e que algum dia iria lhes custar muito caro.

As operaes militares foram retomadas em 405 quando Cnon tomou posio nos estreitos, 
perto do promontrio de Galpole - no muito longe do local onde havia cado o meteorito 
de Anaxgoras - para desafiar numa

    
190

luta definitiva Lisandro, mais uma vez no comando da frota inimiga. Passou dias e mais dias 
em mar aberto sem que o adversrio aceitasse a provocao. Mas Lisandro era uma raposa: 
esperava que as condies ficassem mais favorveis para o seu lado.

J convencidos de que os espartanos estavam com medo, os atenienses comearam a baixar 
a guarda e a relaxar a disciplina: muitos deles, de fato, afastavam-se cada vez mais para os 
vilarejos do interior em busca de comida, bebida e diverso. Certo dia chegou Alcibades, 
cuja fortaleza ficava ali perto, e salientou aos comandantes que aquele lugar era muito 
desprotegido, que se os espartanos atacassem, a situao poderia ficar bastante difcil. 
Conhecia aquele territrio como a palma da mo e s queria ajudar: disseramlhe para no se 
meter onde no fora chamado, que os comandantes eram eles e que a sua opinio j no 
valia coisa alguma.

Alcibades foi-se embora. Dois dias depois Lisandro zarpou sorrateiramente antes do 
amanhecer, atravessou os Dardanelos e caiu como um raio em cima dos navios atenienses, 
todos em seco e sem tripulao. Os clarins tocaram em desespero, mas j era tarde demais. 
Dos barcos que foi possvel lanar ao mar, bem poucos apresentavam os bancos dos 
remadores completos: das trs ordens, alguns s dispunham de duas, outros nem mesmo 
disto. Foi um desastre. A frota foi aniquilada. Cnon salvou-se com apenas oito navios. A 
notcia da derrota chegou a Atenas na calada da noite, trazida pelo navio Parolo. A terrvel 
verdade alastrou-se como fogo a partir do Pireu, correndo pelas Longas Muralhas na boca 
do povo, at chegar ao corao da cidade e espalhar por todo canto terror e desespero.

De uma hora para outra Atenas pareceu despertar de uma bebedeira coletiva que durara 
anos. O destino que esperava por ela ficou muito claro, todos lembraram o que havia 
acontecido com os habitantes de Meios e de muitos outros lugares; e tambm lembraram os 
horrores, as atrocidades e as loucuras cometidas durante aqueles anos todos de guerra, e 
cada um pensou no que agora teria de enfrentar: os cidados de uma ptria imperial 
percebiam de repente que a sua altiva cidade poderia ser arrasada, os seus melhores 
homens executados, as mulheres e as crianas poderiam ser vendidas em leilo como 
escravos, dispersando-se pelos quatro cantos do mundo. Naquela noite ningum conseguiu 
pregar os olhos.

Lisandro chegou no comeo da primavera e bloqueou o Pireu com cento e cinqenta 
navios, enquanto o exrcito chefiado pelo rei Agidas cercou a cidade por terra. Teve ento 
incio uma febril troca de embaixadas, com os espartanos fazendo de tudo para levar adiante 
as negociaes o mais vagarosamente possvel, no intuito de tornar a populao cada vez 
mais esfomeada. No fim, Atenas no teve outra soluo a no ser render-se sem condies.



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Os aliados de Esparta, principalmente os tebanos, pediram que a cidade fosse arrasada, os 
homens exterminados e o resto da populao vendido como escravos. Os espartanos, no 
entanto, deram mais uma demonstrao de sensatez: disseram que no se podia tratar 
daquele jeito uma cidade que desempenhara um papel to importante na defesa da 
liberdade de todos os gregos, e que seria melhor limitar-se a torn-la inofensiva de uma vez 
por todas. Foram ento comunicadas as condies da rendio: destruio das fortificaes e 
das Longas Muralhas; entrega de toda a frota que ainda sobrava, com exceo de doze 
navios; aceitao de uma guarnio armada espartana na acrpole; entrada na liga do 
Peloponeso em posio de subordinao.

Uma vez que ningum conseguia se mexer, Lisandro ordenou que os msicos tocassem as 
flautas; aquele som sinistro era o sinal para se comear a derrubada das muralhas. Uma cena 
alucinante, que quase nos faz lembrar a pequena orquestra do Titnio que tocava enquanto o 
grande navio afundava.

Nesta altura sobrava somente um ateniense perigoso: Alcibades. O nico que ainda poderia 
reunificar os seus concidados, devolvendo-lhes o entusiasmo e, quem sabe, talvez at o 
desejo de comear tudo de novo. Era o que hoje em dia poderamos chamar de mina  
deriva, e ningum podia permitir que permanecesse vivo. Alm do mais, o rei Agidas tinha 
com ele um assunto pessoal a ser resolvido e no desejava outra coisa a no ser pagar com a 
mesma moeda o homem que se aproveitara da sua hospitalidade de forma to vergonhosa.

Lisandro enviou um pedido urgente ao strapa Farnobazo, com o qual Alcibades estava 
negociando a prpria incolumidade, e este mandou um grupo de sicrios mat-lo. Os 
homens, no entanto, no tiveram a coragem de enfrent-lo de peito aberto. Atearam fogo na 
choupana em que ele se refugiara com a sua mais nova amante, uma hetera chamada 
Timandra. Alcibades vestiu uns cobertores molhados e saiu correndo como um demnio 
dos infernos, passando pelas labaredas de espada em punho. Nem mesmo ento tiveram a 
coragem de enfrent-lo. Acertaram-no com flechas e dardos, de longe, at ele cair sem vida, 
trespassado em vrios pontos de lado a lado, numa poa de sangue. Foram embora para 
relatar o sucesso da misso enquanto Timandra, em pranto, procurava de alguma forma 
recompor o corpo dilacerado.

A cidade tambm teve de aceitar a instaurao de um governo oligrquico que recebia 
ordens de Esparta, conhecido com o triste nome de "Trinta tiranos". No durou muito 
tempo: cinco anos mais tarde todos j se mostravam bastante descontentes com o domnio 
espartano, sombrio, duro e opressor, e j eram muitos aqueles que sonhavam com a volta do 
antigo regime. A oposio democrtica ateniense no exlio, com a ajuda dos tebanos, que


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ofereceram armas e hospitalidade, organizou-se na fronteira da tica. Sob o comando de 
Trasbulo, um homem honesto e inteligente, atacou o Pireu e derrotou as tropas dos 
oligarcas, restaurando a democracia.

Mas foi justamente durante o governo restaurador das liberdades cvicas que aconteceram o 
processo, a condenao e a morte de Scrates. Numa hora em que era indispensvel juntar 
a populao e consolidar as instituies democrticas ainda bastante frgeis, no era possvel 
tolerar a presena de algum como Scrates, que vivia colocando dvidas na cabea das 
pessoas em nome daquela divindade desconhecida, o misterioso daimon do qual ningum 
ouvira falar antes, que sussurrava em seus ouvidos dizendolhe o que fazer. Era 
indispensvel, pelo menos, silenci-lo.

Apareceu ento algum para incrimin-lo com uma dplice acusao: corrupo da 
juventude e heresia. Ele dirigiu-se aos jurados populares com uma emocionada defesa das 
prprias aes, pediu aos que j tinham no bolso a bolinha negra a ser colocada na urna da 
morte para que pensassem direito no que estavam fazendo, para que se perguntassem se 
estavam prejudicando mais a cidade do que a ele mesmo, Scrates. Afirmou que nada pedia 
para si, que preferia no ostentar a mulher e os filhos em pranto para comover o jri, e que 
s queria poder continuar a sua busca em plena luz do dia, no meio dos seus concidados. 
Implorou que no se manchassem com um crime que ningum iria entender e que 
mancharia a reputao deles pelos sculos afora. A gua gotejava lentamente na ampulheta 
enquanto o grande sbio falava sob os olhares comovidos e cheios de admirao dos 
discpulos. A chegou a hora do silncio e do voto.

Foi condenado por uma diferena muito pequena e ento perguntaramlhe que castigo 
sugeria para si mesmo: respondeu que a cidade deveria assegurar-lhe uma penso vitalcia 
por merecimento cvico e isto afastou por completo a simpatia de quem teria preferido salvar 
a sua vida. Parecia uma ofensa ao jri que pediu, e conseguiu, a pena de morte.

Foi preso, mas nesta altura um Scrates morto iria ser muito mais prejudicial do que um 
Scrates vivo: certamente no era este o resultado que um homem como Trasbulo podia 
esperar. A inteno era apavor-lo, talvez induzi-lo a aparar as arestas dos seus ataques, mas 
no mat-lo. s escondidas ofereceram, portanto, a Scrates a oportunidade de fugir para a 
Becia, junto de amigos confiveis: os guardas no iriam ficar particularmente alertas 
naquela noite, iriam desviar os olhos.

Fcil demais. Scrates recusou, preferiu forar a cidade a assumir as suas responsabilidades 
e, apesar de os seus discpulos implorarem em lgrimas, manteve-se firme na sua deciso. 
Ficou conversando com eles at o fim e a perguntou ao carrasco qual seria a melhor coisa 
para fazer a fim de que o veneno agisse rpida e corretamente. Responderam que devia 
andar



mesmo os deuses sabem " ^ Para  melhor destino'


22 de dezembro de 1999

Vim visitar Kostas para pessoalmente desejar-lhe um bom Natal e um feliz Ano-Novo, 
embora no faa muito sentido se levarmos em conta a situao e o personagem. E 
tampouco tive a coragem de ler para ele o ltimo captulo deste livro.

Perguntou:

- Como  que voc ainda no acabou? Teve algum problema inesperado?

- Isso mesmo - respondi. - Sabe como , no sei como terminar. Afinal, como e quando 
acaba a histria de Atenas?

Acendeu um cigarro e olhou para mim com aquele seu olhar maroto e

inquiridor:

- No que me diz respeito - disse - acaba comigo. Mas isto seria o mesmo que te 
condenar a trabalhar pelo resto da vida, e mesmo assim no

sei se bastaria...

No pude evitar um sorriso.

- Pode rir  vontade, mas  isto mesmo. E alm do mais voc no resistiria  tentao de 
tambm incluir-me na histria: Konstantinos Stavropoulos, funcionrio da Prefeitura de 
Atenas, cantor lrico fracassado... j pensou como ficaria bem ao lado de Pricles, Eurpides, 
Scrates...

Segurei a sua mo e continuei:

- Grande tenor, grande sbio, grande amigo... o meu amigo ateniense...

- S est dizendo isto para me consolar. Mas est certo, eu faria o mesmo se estivesse no 
seu lugar. Sabe de uma coisa? Eu concluiria o livro com a morte de Scrates, aquele p-no-
saco que vivia botando a pulga atrs da orelha das pessoas, como se elas j no estivessem 
bastante encrencadas por conta prpria.

- Sei que voc gosta dos sofistas... Mas por que voc acha que deveria

fechar a histria com a morte de Scrates?

- Porque... Ora, voc j sabe. E alm do mais h aquela frase que ele



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- "Est na hora de partirmos..."?

- Isso mesmo. No sei se de fato falou aquilo ou se foi tudo inventado por Plato. O sujeito
conseguiu inventar at a Atlntida, um continente inteiro, no d para confiar. Mas se
realmente disse, basta esta frase para fazer dele um homem que no pode ser esquecido,
nem agora nem nunca.

-  uma tima idia. Vou pensar no assunto... e voltarei logo que acabar. Voltarei para ler
todo o captulo, talvez na prxima primavera, o que me diz?

Sacudiu a cabea:

- Sim, na primavera... quando estiver mais quente. Faz um f rio miservel neste quarto, no
acha? Estou com frio nos ps, e nas pernas tambm. Estou com muito frio.

Fui-me embora pois certamente no iria conseguir agentar mais a situao e acabaria
bancando o idiota. Desci para a rua e misturei-me com a multido que enxameava
a estiva
para as compras de Natal.
